Há cerca de 54 mil anos, no sopé das Montanhas Altai, na fronteira entre China, Rússia e Mongólia, vários grupos de Neandertais encontraram um lugar ideal para a sua subsistência: conseguiam caçar os animais que migravam pelos vales e rios, tinham abrigo nas grutas e ravinas das montanhas. Numa gruta, a de Chagyrskaya, deixara, vestígios que agora foram descobertos por investigadores do Instituto de Arqueologia e Etnografia da Academia Real de Ciências da Rússia.
Neste local, que seria um abrigo para as caçadas, foram encontrados vestígios de vários animais, como íbex, cavalos e bisontes, bem como milhares de instrumentos de pedra, recolhidos e produzidos a dezenas de quilómetros.
Em Chagyrskaya, foram também descobertos mais de 80 fragmentos de ossos e dentes de Neandertais, num dos maiores cenários paleontológicos deste género alguma vez encontrados, e que serão depois analisados. Estes vestígios permitiram recuperar o DNA de 17 Neandertais, o maior número de sempre de indivíduos com o ADN sequenciado na mesma investigação, até agora.
O primeiro código genético de um Neandertal foi publicado em 2010, fruto da investigação de Svante Pääbo, que este ano foi o vencedor do Premio Nobel da Medicina. Pääbo é citado como um dos coautores, já que a sua pesquisa se revelou fundamental para desenvolver as técnicas de extração e isolamento de ADN antigo. Até esta investigação, apenas havia dados relativos a 18 Neandertais em todo o mundo.
Na investigação, agora publicada na revista Nature, também é referida a importância de outra nova descoberta: apurou-se que os neadertais estudados não estavam espalhados em grandes áreas de território, mas sim concentrados, no tempo e no espaço. Isto permitiu que fossem traçados laços familiares entre os espécimes cujos vestígios foram agora encontrados.
Uma verdadeira “família Neandertal”
Os vestígios de Neandertais encontrado vêm de 13 indivíduos: sete do sexo masculino e seis do sexo feminino; oito adultos e cinco crianças. Entre eles está uma família Neandertal: o pai e uma filha, que estaria a entrar na adolescência. Mas também há um rapaz Neandertal e uma mulher que serão primos, tia e sobrinho, ou avó e neto.
“O nosso estudo dá uma imagem concreta do que o que a comunidade Neandertal poderia ser. Queríamos tornar os Neandertais mais humanos aos nossos olhos”, explica Benjamin Peter, um dos autores do estudo, ao The Guardian.
Análises feitas ao ADN mitocondrial retirado permitiram ainda concluir aos cientistas que todos os indivíduos encontrados viveram o mesmo período. Viveriam em comunidade, como uma família Neandertal.
Acredita-se que os Neandertais viviam em pequenas comunidades, de 10 a 30 indivíduos por grupo, estando os grupos ligados por outras redes de interação, formando a população de uma região. O estudo confirma que não viviam em comunidades completamente isoladas: os vestígios encontrados nas grutas sustentam a informação de que os grupos que lá vivam tinham uma relação muito próxima.
A análise de AND feita pelos cientistas permitir também perceber outro fenómeno: o da migração de mulheres Neandertais. A possibilidade migração Neandertal feminina, as fêmeas da espécie migrarem à procura de machos, verificou-se quando os investigadores verificaram que a variedade de ADN mitocondrial, passada de mãe para filho, era maior do que a diversidade genética do cromossoma Y, passado de pai para filho.
Aliás a diversidade genética verificada entre os indivíduos encontrados é a mais baixa de sempre registada numa comunidade humana antiga ou moderna: aproxima-se da verificada em espécies em vias de extinção, como alguns gorilas das montanhas. Os investigadores afastam a possibilidade de que este facto verificado esteja relacionado com uma população Neandertal em decadência.
“Os Neandertais que estudámos viveram 10 mil antes da extinção da espécie ocorrer, isto é, um período maior do que o que passou desde os inícios da agricultura na Europa até ao presente. Por isso, não acredito que os nossos resultados se devam diretamente ao seu desaparecimento”, termina Benjamin Peter.







