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«Um novo despertar»: Opinião de Carlos Gomes da Silva, CEO da Galp

Mergulhados na incerteza, sabemos já que as consequências de saúde pública, económicas e sociais desta pandemia têm uma escala sem precedentes e que perdurarão por tempo indeterminado. Devemos manter a serenidade e o optimismo, mas sem equívocos: é um futuro muito exigente aquele que se avizinha e que exige o melhor de todos nós. Enquanto as lideranças políticas e económicas esboçam respostas, emerge uma convocatória a que não podemos faltar: a mobilização de cada um de nós para atenuar o impacto da pandemia nas dinâmicas sociais, no nosso envolvimento na comunidade e na empatia pelo próximo.

A pandemia deixou evidente que no mundo interconectado em que vivemos estamos mais expostos a sequências de acontecimentos que não controlamos. É um axioma, claro: não podemos controlar tudo. E isso foi agora exponenciado a um nível que julgávamos impensável. Como podemos (re)agir? Assumindo com humildade que esta é uma luta que não venceremos sozinhos. Mas com a convicção de que todos os gestos contam e que mesmo pequenas atitudes podem fazer a diferença.

Em tempos de incerteza precisamos como nunca de eixos de estabilidade e de previsibilidade. Por maioria de razão, quando vemos transformadas em memória difusa rotinas tão simples como visitar os pais, jantar com amigos ou assistir a um concerto, mais importante se torna impedir o deslaçar da comunidade. Aquilo que é a nossa natureza e que nos define organicamente como humanidade está a ser desafiado ao limite. É urgente que despertemos para esta realidade.

Os estudos feitos por todo o mundo sugerem impactos irreversíveis nos hábitos sociais. Alguns exemplos recolhidos no nosso país: a maioria dos portugueses admite que evitar espaços ou eventos com muita gente é um comportamento que veio para ficar; 40% admite que passará mais tempo em casa nos próximos anos; cerca de 42% assume que irá menos a lojas físicas; um em cada quatro portugueses recorrerá mais a serviços online. Há centenas de sinais que, conjugados, trarão uma transformação profunda à sociedade que conhecíamos. Apesar de estarmos no “olho do furacão” são tendências que seguramente ficarão acoradas e, como tal, não podemos ignorar esse contexto.

Permitam-me um pequeno paralelismo.

Se há traços comuns entre a vida pessoal e a empresarial, a gestão da incerteza é um dos mais críticos e omnipresentes. Para sermos bem-sucedidos devemos reduzir ao máximo a imprevisibilidade do caminho, preparando planos de contingência (ou mitigantes) para diferentes contextos que se nos colocarão.

Na Galp sempre trabalhámos cenários prospectivos que desafiam até ao limite a resiliência das nossas opções, com diferentes níveis, obstáculos e incertezas críticas para a nossa estratégia e desenvolvimento de negócio. Trabalhamos dessa forma porque, por mais traquejado que seja o nosso saber de experiência feito, a ilusão da certeza absoluta sobre o amanhã não passa disso: uma ilusão. Isso é verdade numa multinacional como a Galp ou numa startup. E é igualmente verdade na vida diária de cada um de nós.

Aqui na vida comum, e em complementaridade às equipas especializadas que nos ajudam a definir cenários sobre possíveis amanhãs, ferramentas como a educação, a partilha de conhecimento e a atenção ao próximo serão sempre a energia mais poderosa para preparar esse futuro.

Para isso precisamos, claro, do que controlamos: a competência, o compromisso e o planeamento, que serão sempre a base das nossas conquistas. Mas precisamos de cuidar das constantes da vida. A família, os amigos, os colegas, a comunidade, que reduz a imprevisibilidade do futuro, porque nos acolhe, apoia no sucesso e diz presente quando tudo falha. E neste mundo de repente cheio de limitações à nossa natureza sensitiva e orgânica é ainda mais importante, até como sentido do nosso propósito comum.

Que 2020 seja também o ano em que despertámos para a importância dessa rede.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 175 de Outubro de 2020

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