“Um míssil atingiu a nossa cozinha. Estou exausta de ter medo”: Menina ucraniana de 12 anos conta horror vivido na guerra em diário

Yeva Skalietska tem 12 anos. É ucraniana e teve que fugir de Kharkiv com a avó, com quem vivia. Juntas viveram o horror do início o de desenrolar da guerra. Viram a própria casa ser destruída por mísseis e bombas de fragmentação. A adolescente registou tudo o que acontecia, em cada dia do conflito, num diário, que agora vai ser publicado na Ucrânia sob o nome ‘Não Sabes o que a Guerra É”.

Pedro Zagacho Gonçalves

Yeva Skalietska tem 12 anos. É ucraniana e teve que fugir de Kharkiv com a avó, com quem vivia. Juntas viveram o horror do início o de desenrolar da guerra. Viram a própria casa ser destruída por mísseis e bombas de fragmentação. A adolescente registou tudo o que acontecia, em cada dia do conflito, num diário, que agora vai ser publicado na Ucrânia sob o nome ‘Não Sabes o que a Guerra É”.

O El Mundo teve acesso a uma primeira versão da obra e transcreve alguns excertos emocionantes do relato da pequena Yeva.

O diário começa 10 dias antes do início da invasão da Rússia à Ucrânia. No dia 14 de fevereiro de 2022, Yeva celebrava o seu 12.º aniversário, com direito a festa e balões. A ucraniana explica que vive com a avó Irina, e que a mãe a vem visitar algumas vezes. Está na Turquia, mas voltou para a Ucrânia para celebrar o aniversário com a menor.
“24 de fevereiro. Dia 1. a noite de 23 para 24 de fevereiro foi muito normal. Eu dormi profundamente. Mas, por algum motivo, de repente acordei muito cedo. Resolvi sair do quarto para tentar dormir na sala. Deitei-me no sofá, fechei os olhos e adormeci de novo. Às 5h10, fui acordada por um forte som metálico que ecoou pelas ruas. Meu primeiro pensamento foi um carro a ser destruído para sucata, mas isso teria sido muito estranho porque eu não moro perto de ferros-velhos. Então, entendi que era uma explosão. A avó estava parada perto da janela, olhando para a fronteira russa. Ela estava a ver mísseis Grad voando sobre os campos. De repente, um enorme foguete passou pelos céus e explodiu com tanta força que senti meu coração congelar”, conta a menina sobre o início da guerra na Ucrânia.

A avó foi para junto de Yeva e questionou-se “Putin está mesmo a começar uma guerra com a Ucrânia?”. A menina conta que, após essa noite, o tema dominou todos os dias seguintes.

“Cresci a ouvir falar de guerra, mas nunca estive em uma. Eu senti-me apavorada. Não tivemos tempo para pensar. Ninguém estava preparado para a guerra. Sabíamos que tínhamos de sair de casa e chegar à cave. As minhas mãos tremiam, os meus dentes batiam. O medo tomou conta de mim. Percebi que estava a ter o meu primeiro ataque de pânico. A avó tentou acalmar-me, dizendo que ela tinha de se concentrar. Ante, ela pendurou um crucifixo de ouro no meu pescoço. No chat da escola começou uma conversa sobre o que estava acontecendo”, revela a menina Ucraniana.

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Quatro dias depois, a 28 de fevereiro, Yeva foi acordada às 3h00 com o barulho de aviões militares a largarem bombas e ouviu disparos de artilharia. Tornou-se habitual procurarem refúgio na cave de vizinhos, ou dos outros avós. Até que chegou um dos dias mais dolorosos para a família, o dia em que viram a casa destruída por um míssil.
“1 de março. Dia 6. Recebemos notícias traumáticas. Um vizinho ligou para nos dizer que um míssil caiu na nossa cozinha. O pessoal de emergência diz que foi uma submunição de bomba de fragmentação (proibida pela Convenção de Genebra). Eles precisam entrar com urgência para verificar se não há mais submunições não detonadas. A cozinha está destruída e tudo o resto são destroços, é muito doloroso. Atacar minha casa é o mesmo que atacar uma parte de mim. Sinto como se meu coração estivesse a ser esmagado. É um lugar cheio de memórias! Lágrimas rolam pelo meu rosto, e é apenas uma pequena parte da mágoa que sinto. Eu não me importo tanto com os objetos quanto com as memórias que eles guardam. Passei minha infância lá e acabou de ser tudo destruído! (…) Aos poucos, eles estão a transformar Kharkiv em ruínas. (…) Será que vai sobrar alguma coisa do nosso apartamento quando acabar a guerra?”, questiona a menina ucraniana.

Com uma clareza impressionante para uma menina de 12 anos, Yeva relata o dia em que uma amiga da avó viu o marido morrer à sua frente, atingido por uma bomba, as vezes que não tinham dinheiro, as refeições que ficaram por comer porque quase não havia comida.

Em março, avó e neta conseguiram, com a ajuda do pai e de um voluntário, passar a fronteira, de comboio, para a Hungria. “Tivemos que ficar ali, com os olhos em lágrimas, a implorar ‘por favor, deixem-nos entrar’. E deixaram! Disseram que mesmo sem a autorização da minha mãe, e mesmo com a avó sem passaporte, deixavam-nos entrar no país, porque as leis normais não se aplicam em tempo de guerra”, conta Yeva, que depois seguiu para Dublin, na Irlanda.

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“Não suporto a palavra ‘refugiado’. Nunca consegui. Quando a avó começou a referir-se a nós como refugiadas, imediatamente pedi-lhe que parasse. Fico envergonhada. E eu finalmente entendi o porquê. Tenho vergonha de admitir que não tenho casa… É insuportável, pois fomos obrigadas a fugir do nosso apartamento para nos refugiarmos na cave. Meu sonho é que um dia tenhamos novamente a nossa casa”, escreve no diário a menina ucraniana, cheia de esperança.

“Um dia, estou exausta de jogar bowling no meu aniversário e, de repente, estou exausta de ter de me esconder num abrigo ou numa cave repetidas vezes; exausta de ter medo. Talvez, daqui a muitos anos, eu veja meus parentes novamente. Mas, por enquanto, virei a página e estou a fazer novos amigos. A coisa mais importante que quero dizer é que acredito que só uma grande fé em Deus pode fazer milagres”, conta no diário Yeva, quando se assinalavam mais de 65 dias de guerra na Ucrânia.

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