Mais de 10 dias depois do terramoto de magnitude 7,8 na escala de Richter que atingiu a Turquia e a Síria a 6 de fevereiro, continuam a ser encontradas pessoas vivas nos escombros, o que desafia completamente as expetativas de sobrevivência.
Mustafa, um menino de 13 anos, foi resgatado 228 horas, quase 10 dias, após o tremor de terra, o que deixou as equipas incrédulas. “Claro que pensámos que isto não seria possível porque resgatar alguém após 10 dias é uma grande surpresa”, disse o socorrista Özer Aydinli ao Correspondente Médico Chefe da CNN, Sanjay Gupta.
“Quando [os nossos amigos] disseram: ‘Encontrámos uma pessoa viva’, pensámos: ‘Não, eles devem estar a alucinar’. Não podíamos acreditar, mas é um milagre”, expressou Aydinli ao acrescentar: “A única coisa que podemos dizer é que se trata de um grande milagre”.
Em casos de catástrofes naturais como esta, a maioria dos salvamentos de pessoas vivas acontecem nos primeiros cinco ou seis dias, de acordo com vários estudos. No entanto, a situação na Turquia tem sido uma exceção à regra. Nas 48 horas que se seguem ao colapso de um edifício, a hipótese de salvar pessoas vivas é maior, tornando-se cada vez mais difícil com o passar dos dias.
Mustafa pode ter ficado preso no “triângulo da vida”, esclareceu Aydinli ao mencionar uma teoria que afirma que quando os edifícios caem, os tetos caem sobre objetos ou mobiliário no interior, o que deixa espaço viável ao lado da pessoa. “Depois de ver Mustafa, acredito absolutamente que haverá outros. É um milagre”, disse outro socorrista ao sublinhar que “parece cientificamente impossível, dado que já passaram 10 dias e a continuam a contar”.
Quanto tempo se consegue sobreviver nos escombros?
É possível sobreviver quatro minutos sem ar, quatro dias sem água e quatro semanas sem comida, segundo a “regra de quatros”. Porém, os “prazos rígidos e universais” podem ser imprecisos, visto que a sobrevivência pode ser prolongada em condições raras.
O acesso à água ou comida influencia o tempo em que os que ficam presos num edifício que colapsou conseguem esperar por ajuda. “Só precisam realmente de um pouco de ar, oxigénio, água e provavelmente um pouco de comida para sobreviver”, comentou a especialista em medicina de emergência e de catástrofes no Massachusetts General Hospital, Jarone Lee.
“Está também relacionado com o tipo de lesões que acontecem durante o colapso inicial, se apenas tiveram uma lesão menor ou uma lesão maior nos órgãos internos, como o fígado ou outros”, continuou. O estado básico de saúde de uma pessoa é fundamental, segundo Lee que aponta ainda outro fator, nomeadamente as condições médicas pré-existentes. No caso de uma pessoa que precise de medicamentos e fique sem acesso, tem menos probabilidade de sobreviver.
“Penso que os que continuarão a ser encontrados serão os mais jovens, provavelmente as crianças e outras pessoas mais robustas. As crianças também são geralmente mais pequenas e há sempre a possibilidade de estarem numa zona do colapso em que possam sobreviver mais tempo só porque são mais pequenas”, explicou a especialista.
As temperaturas frias ajudam também a aumentar o tempo que as pessoas conseguem aguentar estas situações porque podem impedir a desidratação bem como esgotamento causado por calor. No entanto, na Turquia e na Síria as temperaturas frias não estão a ajudar.
“Nos doentes traumatizados, a temperatura fria não é uma coisa boa para a fisiologia em geral. Após algum grau de hipotermia, a paragem cardíaca pode ser um problema”, mencionou o diretor médico do Colégio Americano de Cirurgiões, Girma Tefera, ao salientar que “os fatores de coagulação do sangue não funcionam bem e outras graves desordens fisiológicas acontecem”.
Ainda que o sismo tenha provocado a morte de mais de 43 mil pessoas, a Turquia está a experienciar “circunstâncias extraordinárias ou raras” no meio desta catástrofe. O prolongamento dos tempos de sobrevivência é ainda condicionado pelas tecnologias de busca e salvamento, o que inclui a utilização de cães, drones e reidratação no local.












