Um Ensino Superior que se deve ajustar às necessidades atuais de estudantes e empresas

Por Tânia Carraquico, Vice-Presidente do ISEC Lisboa (Instituto Superior de Educação e Ciências de Lisboa)

De acordo com as estatística oficiais, apesar de a taxa de desemprego jovem ter recuado na Europa em 2021, a mesma continua muito alta, sobretudo no sul da Europa, incluindo Portugal, onde se fixou nos 15,9% – mais do dobro da taxa de desemprego e acima da média comunitária.

Estes dados estatísticos, para além de bastante elevados, constituem uma séria ameaça ao desenvolvimento e crescimento económico e à estabilidade social. Por outro lado, ainda no ano de 2021, em Portugal, a taxa de desemprego dos licenciados rondou os 4%, numa demonstração clara de que a formação superior ainda vale a pena e constitui a melhor arma contra o desemprego.

Apesar destes números, por um lado, as empresas e indústrias, e em particular as PME, têm cada vez mais dificuldades em recrutar profissionais especializados, designadamente nas áreas mais ligadas às tecnologias, mas não só. E, noutra perspetiva, ainda há cursos de ensino superior em que não há candidatos ou em que os candidatos não esgotam as vagas existentes. Parece evidente, pois, a existência de um desajuste entre a oferta formativa colocada no mercado pelas instituições de ensino superior, os desejos dos estudantes e as necessidades desse mesmo tecido empresarial.

As exigências do mundo atual sobre as instituições de ensino superior mudaram e, como tal, a forma de dar resposta às necessidades laborais e aos desejos dos estudantes também tem de evoluir. E rápido.

Historicamente, as instituições de ensino superior desenvolvem programas de graduação e pós-graduação abrangentes, que levam anos a ser desenvolvidos e a passar por extensos processos avaliativos e de acreditação até poderem entrar em funcionamento. No entanto, este longo ciclo de desenvolvimento de cursos coloca as instituições de ensino superior em risco de se tornarem obsoletas, à medida que o mercado corre à frente dos seus programas.

Urge criar recursos fortes, confiáveis e responsivos às necessidades emergentes. Isso pode ser encontrado de diversas formas. Desde logo, trazer as empresas e a indústria para dentro da instituição, como forma de garantir a adequabilidade da oferta formativa às suas reais necessidades. Mas também aos desejos dos estudantes de ingressar no mundo laboral assim que terminam os seus estudos. E isto passa também pelo estabelecimento de protocolos de colaboração com empresas. Mas, mais que isso, pelo verdadeiro envolvimento das mesmas no desenho dos cursos e na definição dos conhecimentos, competências e atitudes a conferir pelos mesmos aos futuros graduados, pela realização de projetos de licenciatura, dissertações de mestrado e teses de doutoramento nas organizações e pela cocriação de conhecimento.

Depois, o estabelecimento de programas de certificação de curto prazo – microcredenciais –, oferecidos por programas de educação profissional dentro das instituições de ensino superior. Esses programas podem apoiar o desenvolvimento das carreiras, conferindo aos trabalhadores a capacidade para crescer e adaptar-se aos novos desafios e, ao mesmo tempo, atender às crescentes necessidades de contratação de empresas. O conteúdo desses programas deve ser projetado para ser prático, aplicado e pertinente às necessidades atuais do mercado.

Para permanecerem relevantes, as instituições de ensino superior têm que atualizar o currículo e adaptar os modelos de aprendizagem mais rapidamente, para assim combinar o melhor dos dois mundos: a experiência e a qualidade típicas de uma instituição de ensino superior; e, a flexibilidade e adaptabilidade de uma estrutura empresarial inovadora.

Desta forma as instituições de ensino superior darão resposta às necessidades da economia, mas também aos anseios dos estudantes, que procuram, não só a empregabilidade, mas também novos desafios. Cientes de que não lhes basta continuar a ser apenas solucionadores de problemas, mas antes querendo constituir-se como engenheiros de novas realidades.

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