Um ano depois do assassinato de Charlie Kirk, a organização Turning Point USA, criada para expandir o ideário conservador entre estudantes norte-americanos, aumentou significativamente o seu alcance e financiamento sob a liderança da viúva, Erika Kirk. No entanto, o crescimento da estrutura contrasta com uma dificuldade cada vez mais evidente: o movimento republicano está a perder capacidade de ligação ao eleitorado jovem que foi determinante para a reeleição de Donald Trump.
Charlie Kirk, que tinha 31 anos, morreu depois de ser atingido por um disparo no pescoço durante um debate público no campus da Universidade Utah Valley, em Orem. O suspeito, Tyler Robinson, foi formalmente acusado de homicídio e, na semana passada, um juiz do Utah decidiu que a acusação pode pedir a aplicação da pena de morte.
Um ano depois da morte do ativista, a convenção do Partido Republicano em Dallas prestou-lhe uma homenagem perante Erika Kirk. Josh Holstein, presidente do Partido Republicano da Virgínia Ocidental e antigo colega de Kirk, defendeu que é necessário voltar a falar diretamente aos eleitores mais jovens. “É preciso recordar aos jovens eleitores que aquilo que importa é a segurança do nosso país e a prosperidade para a juventude”, afirmou.
Apesar da homenagem e do crescimento da Turning Point USA, os próprios republicanos reconhecem que a organização e o partido já não conseguem estabelecer com os jovens a mesma ligação que Charlie Kirk conseguia criar. Entre as principais razões apontadas estão o aumento do custo de vida, depois de Trump ter prometido baixar os preços, a guerra com o Irão e o escândalo relacionado com o magnata sexual Jeffrey Epstein.
A mudança também está relacionada com a diferença de estilo entre Charlie Kirk e a sua mulher. Erika assumiu a liderança da organização num contexto de enorme exposição pública e, apenas 48 horas depois do assassinato, apresentou uma mensagem de mobilização que se tornou num dos principais lemas do movimento: “Não fazem ideia do que desencadearam neste país”.
Um mês depois, Erika recebeu das mãos de Donald Trump a Medalha Presidencial da Liberdade atribuída postumamente a Charlie Kirk. Na ocasião, recordou que o marido “amava os seus inimigos”. Viúva e mãe de dois filhos que ficaram órfãos, Erika passou a ocupar o centro de uma enorme onda de solidariedade e simpatia.
Uma organização que mudou de estilo após a morte de Charlie Kirk
O modelo de atuação da Turning Point USA também mudou profundamente depois da morte do seu fundador. A popularidade de Charlie Kirk assentava, em grande medida, no contacto direto com os jovens. O ativista organizava encontros abertos em universidades e escolas secundárias e aceitava debater com pessoas que defendiam posições completamente diferentes das suas.
Era precisamente esse tipo de atividade que estava a desenvolver no Utah quando foi assassinado.
Kirk defendia posições ultraconservadoras tanto no seu podcast como nos debates públicos. Entre outras afirmações, sustentava que “a mulher devia submeter-se ao homem”, acusava os democratas de quererem “uma América menos branca” e considerava as mortes provocadas por armas de fogo um “mal necessário”. Também chegou a afirmar que impediria a própria filha de abortar mesmo que tivesse sido violada.
Erika Kirk adotou uma estratégia diferente através do Turning Point Tour, assente em eventos fechados, com intervenções e discursos cuidadosamente definidos. A própria Erika passou a ser apresentada em grandes espetáculos, incluindo atuações acompanhadas por fogo de artifício, uma opção que provocou críticas e numerosos memes nas redes sociais por aquilo que alguns norte-americanos consideraram uma transformação do luto em espetáculo.
A mudança de imagem ocorreu num momento em que o próprio movimento MAGA, sigla de “Make America Great Again”, enfrentava dificuldades. A proximidade de Erika com o vice-presidente JD Vance foi alvo de críticas e a viúva chegou a referir-se a Vance como um possível substituto de Charlie Kirk apenas um mês e meio depois da morte do marido.
A ativista ultraconservadora Candace Owens acusou publicamente Erika Kirk de “trair” o marido, acrescentando uma nova fonte de tensão dentro do espaço conservador.
O custo de vida e a guerra com o Irão afastam os jovens
A Turning Point USA foi uma das estruturas importantes do movimento MAGA na tentativa de levar aos jovens o discurso da chamada “guerra cultural” conservadora, em oposição às posições progressistas associadas ao movimento “woke”. A organização assumiu posições particularmente críticas em relação ao feminismo, à inclusão e ao multiculturalismo.
Contudo, as prioridades de muitos jovens norte-americanos mudaram durante os dois primeiros anos do mandato de Trump. Uma sondagem do Harvard Youth Poll, realizada entre o final de março e o início de abril, revelou que metade dos norte-americanos entre os 18 e os 29 anos afirmava que a inflação os afetava “muito”. Ao mesmo tempo, 45% diziam ter dificuldades para chegar ao final do mês ou dispor de pouca segurança financeira.
A guerra com o Irão também contribuiu para o afastamento. Segundo uma sondagem recente da YouGov/Economist, apenas 16% dos homens jovens aprovavam a guerra contra o Irão.
A posição de figuras conservadoras como Tucker Carlson contribuiu para aprofundar essa divisão, com críticas à decisão do Presidente e argumentos de que a política norte-americana teria sido excessivamente condicionada por interesses israelitas.
Erika Kirk é uma defensora firme de Israel, mas JD Vance revelou num livro publicado em junho que Charlie Kirk lhe tinha confidenciado, meses antes da sua morte, que muitos jovens conservadores consideravam que Israel tinha uma influência excessiva sobre a política externa dos Estados Unidos.
“As fraturas que estão a ocorrer entre os conservadores mais jovens e o Partido Republicano têm Israel como fator fundamental”, explicou Nicole Hemmer, professora de História na Universidade Vanderbilt, à Reuters, acrescentando que existe “um profundo mal-estar nessa matéria em relação a Trump” e muita indignação com a situação económica.
Apoio dos jovens a Trump está a cair
Os dados sobre o apoio dos homens jovens à Casa Branca mostram uma evolução desfavorável para o Partido Republicano. Atualmente, 32% dos homens entre os 18 e os 29 anos aprovam a atuação da Casa Branca, abaixo dos 43% registados em fevereiro de 2025, segundo dados da Reuters/Ipsos.
A descida é particularmente relevante tendo em conta o peso deste grupo nas eleições de 2024. Donald Trump conseguiu o apoio de 46% dos homens jovens nesse escrutínio, mais sete pontos percentuais do que em 2020, de acordo com dados do Pew Research.
Apesar da perda de apoio entre os jovens, a Turning Point USA acelerou o seu crescimento durante o último ano. Segundo Kolvet, a organização conta atualmente com mais de 3500 filiais em escolas secundárias de todo o país, um aumento de 180%, e mais de 1500 estruturas em universidades, o que representa um crescimento superior a 60%.
Kyle Spencer, autor do livro Raising Them Right, que acompanha a ascensão de Charlie Kirk, considera que o antigo líder provavelmente estaria melhor preparado para responder ao descontentamento existente entre a sua própria base. Na sua avaliação, “provavelmente ele estaria mais bem equipado” para gerir essa insatisfação, numa altura em que “o entusiasmo político atual está a deslocar-se mais para as vozes progressistas”.
Jovens podem ser decisivos nas eleições legislativas
A relação entre o Partido Republicano e os eleitores mais jovens poderá assumir particular importância nas eleições legislativas de novembro. Uma sondagem realizada pela Universidade de Tufts junto de 5549 jovens adultos revelou que 56% dos inquiridos entre os 18 e os 29 anos consideravam “extremamente provável” que fossem votar.
O resultado representa mais dois pontos percentuais do que a percentagem registada numa sondagem realizada para as eleições presidenciais de 2024, apesar de a participação eleitoral tender a ser superior nos escrutínios presidenciais.
Jack Posobiec, comentador conservador e antigo colega de Charlie Kirk na Turning Point, considera que este desafio seria precisamente o tipo de problema que o ativista saberia enfrentar. Durante a convenção republicana, defendeu que Kirk teria recorrido à estratégia que esteve na base do seu sucesso junto do movimento MAGA: falar diretamente com os jovens.
“Ele dir-lhes-ia: ‘O que é que o leva a interessar-se pelo socialismo?’ Não se pode simplesmente intimidar os jovens. É preciso ouvir aquilo que realmente sentem e compreendê-lo. E penso que existe uma desconexão na mensagem republicana quando se dirige a eles”, afirmou Posobiec.
Um ano depois da morte de Charlie Kirk, a Turning Point USA apresenta, assim, uma realidade marcada por dois movimentos aparentemente contraditórios. Por um lado, a organização cresceu de forma significativa, tanto em financiamento como em presença em escolas e universidades, sob a liderança de Erika Kirk. Por outro, os indicadores de apoio entre os jovens mostram um afastamento crescente em relação ao Partido Republicano e ao movimento MAGA.
O desafio para a organização passa agora por transformar o crescimento da sua estrutura numa capacidade renovada de mobilização de uma geração cujas preocupações estão cada vez mais centradas no custo de vida, na segurança económica e nas decisões de política externa dos Estados Unidos.














