O acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos voltou a ficar em risco depois de uma nova ronda de negociações entre Conselho, Comissão Europeia e Parlamento Europeu ter terminado sem entendimento, noticia o ‘El Confidencial’.
Ao fim de seis horas de reuniões, os negociadores decidiram abandonar a mesa sem acordo, adiando novamente a ratificação do pacto politicamente fechado entre Bruxelas e Washington no verão de 2025.
A decisão reacendeu a tensão com Donald Trump, que voltou a ameaçar a UE com tarifas mais elevadas, incluindo uma taxa de 25% sobre os automóveis europeus. Essa ameaça contraria o entendimento alcançado no verão, que previa um teto tarifário para setores estratégicos.
Na noite desta quinta-feira, Trump falou ao telefone com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e deixou depois uma mensagem pública nas redes sociais.
“Foi feita a promessa de que a UE cumpriria a sua parte do acordo e, como combinado, reduziria as suas tarifas a zero”, escreveu o presidente americano. Trump afirmou ainda ter dado a Bruxelas prazo até ao 250º aniversário dos Estados Unidos para cumprir o entendimento, sob pena de as tarifas subirem “para níveis muito mais elevados”.
Bruxelas tenta acalmar Washington
A Comissão Europeia tem procurado evitar uma escalada comercial com os Estados Unidos e insiste que continua empenhada na aplicação do acordo.
Ursula von der Leyen afirmou, esta semana, que Bruxelas mantém o compromisso com a implementação do pacto e que estão a ser feitos “progressos significativos” para reduzir tarifas até ao início de julho.
A presidente da Comissão Europeia abordou o tema com Trump e Maroš Šefčovič, comissário europeu do Comércio, também discutiu o acordo com Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, durante um encontro em Paris.
O esforço de Bruxelas tem um objetivo claro: acalmar uma Casa Branca cada vez mais impaciente com a lentidão do processo europeu de ratificação.
O acordo, negociado politicamente em julho de 2025 durante uma visita de Trump ao seu campo de golfe em Turnberry, na Escócia, e formalizado numa declaração conjunta em agosto, previa que os 27 aceitassem uma tarifa geral de 15% em troca de um teto para setores-chave.
Em contrapartida, a União Europeia eliminaria tarifas sobre produtos industriais americanos e comprometer-se-ia a comprar energia e equipamento militar aos Estados Unidos.
Parlamento Europeu exige mais garantias
O problema é que o acordo continua a enfrentar resistências em Bruxelas.
O Parlamento Europeu e alguns Estados-membros exigem salvaguardas adicionais antes de darem luz verde ao pacto. A preocupação central é simples: muitos eurodeputados duvidam que Washington cumpra a sua parte e receiam que Trump continue a usar novas ameaças tarifárias mesmo depois da ratificação.
Essa desconfiança aumentou depois de uma decisão do Supremo Tribunal americano ter posto em causa a base jurídica usada pela Administração Trump para justificar a ameaça de “tarifas recíprocas” que antecedeu o acordo do verão.
Do lado europeu, há quem veja o pacto de Turnberry como o melhor acordo possível para dar estabilidade às empresas e proteger setores vulneráveis, em especial a indústria automóvel alemã, frequentemente visada por Trump.
Mas há também quem considere que a União Europeia não pode aprovar o texto sem mecanismos de proteção mais fortes.
Três cláusulas para travar abusos
O Parlamento Europeu já suspendeu por várias vezes o processo interno relativo ao acordo, primeiro devido às ameaças de Trump contra a Dinamarca no contexto da Gronelândia e, mais tarde, devido à decisão do Supremo Tribunal americano.
Agora, os eurodeputados exigem três cláusulas especiais.
A primeira é uma cláusula de ativação, segundo a qual a União Europeia só começaria a aplicar o acordo quando os Estados Unidos fizessem o mesmo.
A segunda é uma cláusula de caducidade, que faria o acordo expirar em março de 2028, caso não fosse adotada nova legislação.
A terceira é uma cláusula de salvaguarda, que permitiria à Comissão Europeia suspender o pacto se Washington violasse os compromissos assumidos.
Estas exigências são defendidas em particular por Bernd Lange, eurodeputado social-democrata alemão, presidente da Comissão do Comércio Internacional do Parlamento Europeu e negociador-chefe da instituição neste processo.
Automóveis voltam ao centro da ameaça
A indústria automóvel europeia está novamente no centro da tensão comercial.
Trump voltou a ameaçar impor tarifas de 25% sobre veículos europeus, num movimento que atingiria de forma especial a Alemanha e os seus fabricantes.
Para a Comissão Europeia, evitar essa escalada é uma prioridade. Bruxelas considera que o acordo de Turnberry, apesar das concessões feitas, oferece previsibilidade às empresas e impede uma guerra comercial mais ampla.
Mas, segundo o ‘El Confidencial’, as ameaças periódicas da Casa Branca têm precisamente o efeito contrário ao pretendido por Bruxelas: reforçam a posição dos eurodeputados que exigem mais garantias antes de aprovar qualquer pacto.
Maroš Šefčovič deixou também um aviso a Washington, defendendo que os Estados Unidos devem corresponder às expectativas e respeitar o que foi acordado em Turnberry.
“É muito importante que os Estados Unidos correspondam às expectativas e também honrem o que foi acordado em Turnberry”, afirmou o comissário europeu do Comércio, referindo-se ao regresso às tarifas inclusivas de 15%.
UE entre a pressão de Trump e o medo de ceder demasiado
O impasse deixa a União Europeia numa posição difícil.
Por um lado, a Comissão quer evitar uma nova guerra comercial com os Estados Unidos e proteger setores estratégicos, sobretudo o automóvel.
Por outro, o Parlamento Europeu e alguns Estados-membros recusam aprovar um acordo que consideram frágil, sem garantias suficientes de cumprimento por parte de Washington.
A questão já não é apenas comercial. Tornou-se também política.
Para Bruxelas, o desafio é mostrar que consegue negociar com Trump sem aceitar um acordo que deixe a União Europeia vulnerável a novas ameaças tarifárias.
Para Washington, a paciência está a esgotar-se.
E, enquanto o pacto continua bloqueado, os automóveis europeus voltam a ser usados como instrumento de pressão numa disputa comercial que ameaça reabrir uma crise entre os dois lados do Atlântico.













