Polvos gigantes de até 19 metros revelam o verdadeiro “kraken” dos oceanos pré-históricos

E se os verdadeiros reis dos oceanos pré-históricos não fossem dinossauros, mas polvos gigantes inteligentes? Um novo estudo sugere exatamente isso.

Patrícia Moura Pinto

Durante décadas, a ciência assumiu que os grandes vertebrados marinhos dominavam os oceanos do período Cretáceo, há cerca de 145 a 66 milhões de anos. No entanto, uma nova investigação vem desafiar esta ideia e sugere que existiam predadores invertebrados gigantes – semelhantes ao mítico kraken – capazes de competir com alguns dos maiores monstros marinhos da época.

De acordo com o jornal ABC, um estudo recente publicado na revista Science revela a existência de cefalópodes pré-históricos gigantes que não só atingiam dimensões impressionantes, como também desempenhavam um papel ativo na cadeia alimentar.

Estes animais pertenciam a um grupo de polvos com barbatanas e viveram no Pacífico Norte entre 100 e 72 milhões de anos atrás. Entre as espécies identificadas estão Nanaimoteuthis jeletzkyi e Nanaimoteuthis haggarti, sendo esta última particularmente impressionante: podia atingir cerca de 19 metros de comprimento, ultrapassando até alguns dos maiores predadores marinhos conhecidos.

Este tamanho colocava estes polvos ao nível – ou até acima – de gigantes como os mosassauros, tradicionalmente considerados os dominadores dos oceanos do Cretáceo.

Mas não era apenas o tamanho que os tornava formidáveis. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos invertebrados, que desenvolveram carapaças como defesa, estes cefalópodes seguiram um caminho evolutivo diferente: perderam a concha, tornando-se mais ágeis, com melhor visão e, sobretudo, com maior capacidade cognitiva.

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Uma das grandes dificuldades em estudar polvos pré-históricos é a ausência de ossos, o que dificulta a fossilização. Ainda assim, os cientistas conseguiram reunir provas através das suas mandíbulas, conhecidas como “bicos”, estruturas duras que resistem ao tempo.

A análise de dezenas de bicos fossilizados encontrados no Japão e no Canadá revelou sinais claros de desgaste extremo. As pontas, inicialmente afiadas, estavam arredondadas e danificadas nos exemplares adultos, indicando um uso intensivo.

De acordo com o jornal ABC, este desgaste é consistente com um comportamento alimentar conhecido como durofagia – ou seja, a capacidade de esmagar presas com carapaças duras ou esqueletos ósseos. Isto sugere que estes animais não eram presas fáceis, mas sim predadores ativos que se alimentavam de organismos robustos.

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Predadores eficazes e sofisticados

Os investigadores acreditam que estes polvos gigantes utilizavam os seus longos tentáculos para capturar e imobilizar presas de grande dimensão, esmagando-as depois com uma mordida poderosa.

Outro detalhe relevante descoberto no estudo foi o desgaste assimétrico dos bicos, mais acentuado num dos lados. Este fenómeno indica lateralização – uma preferência por usar um lado do corpo – característica associada a cérebros mais desenvolvidos e comportamentos complexos.

Esta evidência reforça a ideia de que estes cefalópodes possuíam níveis elevados de inteligência, comparáveis aos dos polvos modernos, mas em escala muito maior.

As conclusões do estudo alteram significativamente a forma como entendemos os ecossistemas marinhos do Cretáceo. Em vez de um domínio exclusivo de grandes répteis marinhos e tubarões, emerge agora um cenário mais complexo, onde invertebrados gigantes também ocupavam posições de topo na cadeia alimentar.

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Estes polvos não eram apenas sobreviventes num ambiente hostil, mas verdadeiros protagonistas na dinâmica dos oceanos, assumindo papéis ecológicos anteriormente atribuídos apenas a vertebrados.

Esta descoberta reforça uma ideia fascinante da evolução: por vezes, abandonar a proteção física e investir em mobilidade e inteligência pode ser a chave para dominar um ecossistema inteiro.

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