Durante décadas, a ciência assumiu que os grandes vertebrados marinhos dominavam os oceanos do período Cretáceo, há cerca de 145 a 66 milhões de anos. No entanto, uma nova investigação vem desafiar esta ideia e sugere que existiam predadores invertebrados gigantes – semelhantes ao mítico kraken – capazes de competir com alguns dos maiores monstros marinhos da época.
De acordo com o jornal ABC, um estudo recente publicado na revista Science revela a existência de cefalópodes pré-históricos gigantes que não só atingiam dimensões impressionantes, como também desempenhavam um papel ativo na cadeia alimentar.
Estes animais pertenciam a um grupo de polvos com barbatanas e viveram no Pacífico Norte entre 100 e 72 milhões de anos atrás. Entre as espécies identificadas estão Nanaimoteuthis jeletzkyi e Nanaimoteuthis haggarti, sendo esta última particularmente impressionante: podia atingir cerca de 19 metros de comprimento, ultrapassando até alguns dos maiores predadores marinhos conhecidos.
Este tamanho colocava estes polvos ao nível – ou até acima – de gigantes como os mosassauros, tradicionalmente considerados os dominadores dos oceanos do Cretáceo.
Mas não era apenas o tamanho que os tornava formidáveis. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos invertebrados, que desenvolveram carapaças como defesa, estes cefalópodes seguiram um caminho evolutivo diferente: perderam a concha, tornando-se mais ágeis, com melhor visão e, sobretudo, com maior capacidade cognitiva.
Uma das grandes dificuldades em estudar polvos pré-históricos é a ausência de ossos, o que dificulta a fossilização. Ainda assim, os cientistas conseguiram reunir provas através das suas mandíbulas, conhecidas como “bicos”, estruturas duras que resistem ao tempo.
A análise de dezenas de bicos fossilizados encontrados no Japão e no Canadá revelou sinais claros de desgaste extremo. As pontas, inicialmente afiadas, estavam arredondadas e danificadas nos exemplares adultos, indicando um uso intensivo.
De acordo com o jornal ABC, este desgaste é consistente com um comportamento alimentar conhecido como durofagia – ou seja, a capacidade de esmagar presas com carapaças duras ou esqueletos ósseos. Isto sugere que estes animais não eram presas fáceis, mas sim predadores ativos que se alimentavam de organismos robustos.
Predadores eficazes e sofisticados
Os investigadores acreditam que estes polvos gigantes utilizavam os seus longos tentáculos para capturar e imobilizar presas de grande dimensão, esmagando-as depois com uma mordida poderosa.
Outro detalhe relevante descoberto no estudo foi o desgaste assimétrico dos bicos, mais acentuado num dos lados. Este fenómeno indica lateralização – uma preferência por usar um lado do corpo – característica associada a cérebros mais desenvolvidos e comportamentos complexos.
Esta evidência reforça a ideia de que estes cefalópodes possuíam níveis elevados de inteligência, comparáveis aos dos polvos modernos, mas em escala muito maior.
As conclusões do estudo alteram significativamente a forma como entendemos os ecossistemas marinhos do Cretáceo. Em vez de um domínio exclusivo de grandes répteis marinhos e tubarões, emerge agora um cenário mais complexo, onde invertebrados gigantes também ocupavam posições de topo na cadeia alimentar.
Estes polvos não eram apenas sobreviventes num ambiente hostil, mas verdadeiros protagonistas na dinâmica dos oceanos, assumindo papéis ecológicos anteriormente atribuídos apenas a vertebrados.
Esta descoberta reforça uma ideia fascinante da evolução: por vezes, abandonar a proteção física e investir em mobilidade e inteligência pode ser a chave para dominar um ecossistema inteiro.



