O regresso de Donald Trump à Casa Branca alterou drasticamente o equilíbrio entre os Estados Unidos e a Europa, colocando o continente num cenário de tensão sem precedentes desde 1945. A tradicional posição secundária dos aliados europeus deu lugar a confrontos comerciais e estratégicos, evidenciados na guerra tarifária e na controvérsia em torno da Gronelândia.
A estratégia de segurança dos EUA, publicada a 4 de dezembro último, descreve a União Europeia como um parceiro enfraquecido. Para Trump, a UE foi criada para “prejudicar” os EUA, e os dias de vassalagem pacífica terminaram. Recentemente, oito países europeus e da NATO – Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Países Baixos, Noruega, Suécia e Reino Unido – enviaram tropas para a Gronelândia no exercício “Arctic Endurance”. O objetivo, destacou o site ’20Minutos’, era demonstrar união e defesa dos interesses da Dinamarca, num gesto que Trump respondeu com ameaças de tarifas caso avançasse com seu plano de anexação.
O presidente americano afirmou que a ilha ártica será dele “por bem ou por mal”, mantendo a possibilidade de ação militar aberta, apesar de ter referido também a compra da Gronelândia.
Capacidade militar europeia
Apesar de avanços na Política Europeia Comum de Segurança e Defesa (PCSD) e do plano “Rearm Europe”, com orçamento de 800 mil milhões de euros para quatro anos, a Europa continua sem uma força armada unificada. A soma dos exércitos nacionais dos Estados-membros revela que o continente possui quase 5 milhões de militares, comparados a 2,2 milhões nos EUA (1,4 milhão ativos e 817.450 reservistas).
No que diz respeito a tanques, os Estados Unidos têm 6.645 unidades, enquanto a Europa dispõe de 3.145. Quanto a veículos blindados de combate, a Europa possui 361.806 contra 295.000 dos EUA. Em termos de forças aéreas, os americanos têm 1.574 aeronaves de combate, 66 bombardeiros e 261 veículos aéreos não tripulados, comparadas às cerca de 7.000 aeronaves europeias de diversos tipos. No domínio naval, os EUA detêm 14 submarinos nucleares de mísseis balísticos, 53 submarinos de mísseis guiados, 11 porta-aviões e 31 navios de assalto anfíbio; a Europa possui mais fragatas e submarinos, mas a capacidade global é inferior.
Armas nucleares e orçamento de defesa
A maior parte das ogivas nucleares mundiais concentra-se nos EUA e na Rússia, representando 90% do total global, com os americanos detendo mais de 5.200 ogivas, segundo o SIPRI.
Em termos financeiros, os EUA planeiam aumentar o orçamento militar para 1,5 triliões de dólares até 2027, enquanto a UE, incluindo Reino Unido e Noruega, gasta atualmente cerca de 547 mil milhões de dólares com defesa, representando aproximadamente 1,9% do PIB da União. Entre 2021 e 2024, os gastos europeus cresceram mais de 30%, refletindo preocupação com a Rússia e com a necessidade de reforçar a defesa coletiva.
O continente enfrenta agora um desafio complexo: responder a pressões de um aliado histórico que se transforma em concorrente geopolítico, sem dispor de uma força militar unificada. A crise da Gronelândia expõe a dependência europeia face aos EUA e destaca a necessidade de coordenação estratégica, investimento em defesa e debate sobre a criação de uma força europeia verdadeiramente integrada.






