UE procura mostrar ‘músculos’ ao mundo em cimeira decisiva para a Ucrânia… mas o problema chama-se Trump

Em causa está o uso de cerca de 210 mil milhões de euros em ativos russos congelados desde a invasão da Ucrânia, em 2022, para financiar a reconstrução do país. O desacordo entre os Estados-membros vai além da questão financeira e reflete visões opostas sobre a nova ordem internacional e sobre a forma como a UE deve reagir à influência dos EUA

Francisco Laranjeira
Dezembro 17, 2025
11:48

A cimeira de líderes da União Europeia marcada para esta quinta-feira em Bruxelas será um teste decisivo à coesão do bloco, num momento em que divergências internas sobre o financiamento da Ucrânia expõem fraturas profundas e a pressão da administração americana ameaça agravar divisões já existentes.

Em causa está o uso de cerca de 210 mil milhões de euros em ativos russos congelados desde a invasão da Ucrânia, em 2022, para financiar a reconstrução do país. O desacordo entre os Estados-membros vai além da questão financeira e reflete visões opostas sobre a nova ordem internacional e sobre a forma como a UE deve reagir à influência dos EUA. “Eles querem enfraquecer-nos”, afirmou um alto responsável europeu envolvido nos preparativos da cimeira, citado pelo jornal ‘POLITICO’.

Financiamento da Ucrânia expõe fraturas políticas

Os líderes europeus chegam a Bruxelas pressionados a apresentar resultados concretos, sobretudo no que diz respeito ao apoio financeiro a Kiev. Ao mesmo tempo, vários Governos defendem que a UE deve afirmar a sua autonomia face às tentativas da Casa Branca de influenciar decisões estratégicas do bloco. Este contexto coincide com a ascensão de líderes críticos da linha dominante em Bruxelas, de Viktor Orbán, na Hungria, a Andrej Babis, na República Checa.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, alertou que a União Europeia sofrerá “graves danos por anos” se falhar um acordo sobre o financiamento da Ucrânia, sublinhando que tal demonstraria incapacidade de agir num momento crucial para a defesa da ordem política europeia.

Segundo quatro responsáveis europeus envolvidos nas negociações, a administração Trump tem pressionado diretamente alguns Governos considerados mais próximos de Washington para rejeitarem o plano de utilização dos ativos russos congelados, de acordo com o ‘POLITICO’.

Bélgica no centro do impasse

Na última cimeira europeia, em outubro, a falta de consenso ficou associada à oposição da Bélgica, país que alberga a maior parte dos ativos russos congelados na Europa. Dois meses depois, diplomatas admitem que o verdadeiro obstáculo já não é Bruxelas, mas sim a influência exercida por Washington.

A Comissão Europeia e várias capitais intensificaram os contactos com o primeiro-ministro belga, Bart de Wever, procurando oferecer garantias que permitam ultrapassar as reservas de Bruxelas, relacionadas com o risco financeiro para os contribuintes belgas. Ainda assim, o ambiente deteriorou-se nos últimos dias. Um alto responsável europeu descreveu a reunião preparatória dos ministros dos Assuntos Europeus como desanimadora, admitindo que as perspetivas de acordo pioraram.

Déficit ucraniano e risco geopolítico

A urgência é reforçada pela situação financeira da Ucrânia, que enfrenta um défice orçamental de 71,7 mil milhões de euros no próximo ano. Caso os fundos não sejam libertados até abril, Kiev poderá ser forçada a cortar despesas públicas, com impacto no moral da população e na capacidade de resistência militar, quase quatro anos após o início da invasão russa em larga escala.

Enquanto a Bélgica justifica a sua posição com preocupações orçamentais, outros Estados-membros encaram o tema como uma questão estratégica. A campanha de influência americana, conduzida fora dos canais institucionais da UE, levou países como Itália, Bulgária, Malta e República Checa a juntarem-se ao grupo de dissidentes.

O fracasso das negociações seria visto como uma catástrofe para a credibilidade internacional da União Europeia, tanto perante a administração Trump — que na sua Estratégia de Segurança Nacional admite apoiar forças eurocéticas — como perante o presidente russo, Vladimir Putin.

“Já não são líderes do mundo livre”

O tom da crise ficou evidente nas declarações de Manfred Weber, líder do Partido Popular Europeu, que afirmou que os Estados Unidos “já não são líderes do mundo livre” e que a administração Trump “está a afastar-se da Europa”.

Uma Ucrânia sem recursos financeiros teria menos margem nas negociações de paz, comprometendo a possibilidade de uma solução duradoura. A primeira-ministra da Estónia, Kristen Michal, sublinhou que Kiev precisa de saber que “a Europa apoia a Ucrânia, aconteça o que acontecer”, e que não deve ser forçada a aceitar um mau acordo.

Um rascunho de um plano de paz negociado entre Washington e o Kremlin prevê que parte dos ativos russos congelados seja usada para financiar esforços de reconstrução liderados pelos EUA. Libertar esses ativos no âmbito de um empréstimo europeu permitiria à Ucrânia decidir onde aplicar os fundos, com França a defender que a prioridade seja dada à indústria europeia de Defesa.

Em paralelo, Donald Trump tem pressionado o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, para ceder territórios estratégicos na região de Donbas à Rússia, áreas que Moscovo ainda não controla.

Maioria qualificada como último recurso

Face ao bloqueio, cresce em Bruxelas a discussão sobre o recurso a uma votação por maioria qualificada para aprovar o empréstimo, contornando a oposição de alguns países. No entanto, vários responsáveis alertam que essa opção poderia aprofundar divisões internas e lançar a UE numa crise institucional.

Outra alternativa passa por empréstimos bilaterais limitados. A primeira-ministra da Letónia, Evika Siliņa, defendeu que a participação da Bélgica é importante, mas admitiu avançar por maioria qualificada se essa for a única solução, alertando para o risco de Bruxelas se isolar politicamente.

Para a Ucrânia, o empréstimo financiado por ativos russos continua a ser a melhor resposta ao rombo financeiro, sendo também uma condição para o apoio do Fundo Monetário Internacional. Ainda assim, Zelensky mostrou-se pragmático, afirmando que o essencial é que o dinheiro chegue, independentemente do formato, considerando o montante dos ativos congelados um verdadeiro “divisor de águas”.

Com as negociações técnicas num impasse, caberá agora aos líderes europeus, na cimeira desta quinta-feira, encontrar uma solução política para um dos dossiers mais sensíveis da atualidade europeia.

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