UE não deve esperar grandes mudanças no pós-Merkel, dizem analistas

Qualquer que seja o desfecho das eleições na Alemanha, a União Europeia não deve esperar mudanças radicais no rumo das políticas de Berlim, mesmo que os conservadores da CDU deixem o poder, segundo analistas ouvidos pela Lusa.

Com as eleições legislativas de 26 de setembro a aproximarem-se, as sondagens apontam para uma vitória do Partido Social Democrata (SPD, socialistas), com Olaf Scholz a surgir como grande favorito à sucessão de Angela Merkel (União Democrata-Cristã, CDU, conservadores), que foi chanceler nos últimos 16 anos.

No entanto, em entrevistas à Lusa, analistas de ‘think tanks’ (grupos de reflexão) com sede em Bruxelas especializados em assuntos europeus consideram que a política alemã no ‘pós-Merkel’ não deverá sofrer mudanças de vulto.

Até porque o futuro Governo será formado inevitavelmente por uma coligação, com dois ou mais partidos, o que significa que terá de haver “compromissos” entre as diferentes posições dos parceiros, sejam eles socialistas, conservadores, verdes ou liberais, sustentam.

Guntram Wolff, diretor do Bruegel, ‘think tank’ especializado em assuntos económicos, observa por outro lado que mesmo uma vitória do SPD, o cenário que lhe parece “cada vez mais provável”, não deverá mudar substancialmente as posições de Berlim relativamente às regras orçamentais na UE, por exemplo, notando a propósito que Olaf Scholz foi o ministro das Finanças de Merkel (e vice-chanceler) durante os últimos três anos e meio.

No sentido oposto, admite que se por exemplo a CDU vier a fazer parte de uma coligação e o conservador Friedrich Merz, “da parte mais à direita do partido”, se tornar ministro das Finanças, tal constituiria “más notícias para a Europa”, mas mesmo neste caso “ele teria necessariamente de ser mais moderado” nas suas posições habitualmente estritas.

Por outro lado, observam, um outro indicador de que nenhum dos candidatos a chanceler está fortemente apostado em grandes mudanças na política europeia é o facto de esta ter estado basicamente “ausente” da campanha eleitoral, o que admitem ser “preocupante”, ainda que habitual na cena política.

“Normalmente, não se fala muito de política europeia em nenhum país. Penso que a única exceção foi com [o Presidente francês, Emmanuel] Macron em 2017, que decidiu fazer disso um tema de campanha e, no caso dele, funcionou. Este ano, a campanha alemã foi muito focada nos candidatos, mais do que nos conteúdos. E se a política foi pouco importante, a europeia foi ainda menos, o que é preocupante porque o próprio Governo alemão terá um papel importante a desempenhar na Europa e creio que os eleitores alemães não têm essa noção”, comenta Sophie Pornschlegel, analista política do centro de estudos European Policy Centre (EPC).

Na mesma linha, os analistas apontam que a Europa não deve recear um novo governo eurocético, pois “todos os candidatos [com possibilidade de se tornarem chanceler] são pró-europeus”, como observa a analista política do EPC.

Sophie Pornschlegel considera que a principal “ameaça” à União Europeia não são estas eleições alemãs, mas sim as presidenciais francesas de 2022, face à possibilidade de vitória de Marine Le Pen (extrema-direita).

No cômputo geral, o diretor do Bruegel acredita que o cenário mais provável resultante das eleições é “uma continuação, com políticas muito semelhantes”, eventualmente um pouco mais “integracionistas”, caso os Verdes obtenham um resultado forte – como indiciam as sondagens – e tenham uma presença de força na futura coligação, ideia partilhada por outros analistas.

“Um governo que tenha uma forte participação dos Verdes seria o que provavelmente mais mudanças traria relativamente ao «Merkelismo»”, observou por seu lado Daniela Schwarzer, da Open Society Foundation num debate organizado na terça-feira em Bruxelas pelo European Council on Foreign Affairs (ECFR).

Na sua opinião, uma coligação com uma forte presença dos Verdes e liderada por um socialista “poderia trazer alguma mudança” no aprofundamento da integração da UE, mas também Schwarzer adverte que não devem ser esperadas mudanças de fundo em termos de orientação de política económica, recordando que o atual governo, com Scholz como ministro das Finanças “bloqueou reformas” na UE e revelou “falta de ambição” no aprofundamento da união bancária, por exemplo.

Uma matéria na qual admitem que um governo sem conservadores pode ser incisivo é na questão da defesa do Estado de direito em Estados-membros da UE, como Polónia e Hungria, matéria na qual não raras vezes Merkel foi acusada de ser pouco interventiva.

Todos são unânimes é em considerar que estas eleições serão históricas, pois assinalam o fim da «era Merkel», e que o futuro chanceler não terá uma missão fácil em suceder-lhe.

“Angela Merkel tem uma taxa de popularidade na Alemanha na ordem dos 80%, após 16 anos no poder, o que é incrível”, nota Pornschlegel, para quem “há que dar tempo ao próximo chanceler”, tendo em conta, por exemplo, que “a Merkel de 2005 não era a mesma Merkel que conhecemos agora, foi construindo a sua experiência”.

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