O Produto Interno Bruto (PIB) da Zona Euro estagnou no último trimestre de 2022, segundo dados publicados pelo Eurostat: a economia da zona euro teve um desempenho inferior e ‘congelou’ no início do inverno, embora continue a evitar por pouco a primeira fase de recessão técnica (dois trimestres consecutivos de contração). No entanto, para lá do impacto imediato, há dois indicadores que não deveriam ter passado despercebidas.
Segundo o jornal espanhol ‘El Economista’, a mais espetacular foi a revisão inédita do PIB da Irlanda – passou de 3,5% no quatro trimestre de 2022 para apenas 0,3%. A Alemanha também foi corrigida, de -0,2% para -0,4% trimestralmente. Mas há mais: uma queda alarmante no consumos das famílias, de -0,9%, a maior num trimestre em toda a história da zona euro, exceto nos piores momentos da Covid-19, entre 2020 e 2021.
Na Irlanda, é comum os dados do PIB apresentarem métricas distorcidas devido à presença no país de grandes multinacionais devido à menor carga tributária. Mas uma revisão tão acentuada é impressionante. “O motivo da revisão é que a estimativa atualizada do PIB, para o quarto trimestre de 2022, baseou-se em dados de despesas e produção, enquanto a estimativa preliminar foi baseada predominantemente em dados de produção económica”, explicou o ‘Central Statistics Office of Ireland’.
A queda trimestral de 0,9% no consumo das famílias parece “ainda mais alarmante”, segundo o economista Jack Allen-Reynolds, da Capital Economics. “Pandemia à parte, esta é a maior queda trimestral no consumo da história da zona euro. E embora as exportações tenham subido 0,1% no trimestre, ainda é uma forte desaceleração em relação aos três trimestres anteriores.”
“A queda não foi igual em todos os países: Países Baixos e Bélgica, por exemplo, registaram um crescimento saudável, mas França, Alemanha e Itália, todas registaram quebras de cerca de 1%. Já Espanha desceu 2,4%”, apontou Bert Colijn, economista sénior do ING.
A liderar a queda está a grande quebra do consumo de bens não duradouros, que, segundo o especialista, é explicado “provavelmente devido ao grande ajustamento no consumo de energia, que é positivo”. No entanto, as quedas no consumo de serviços e bens semiduráveis são mais preocupantes. “O consumo de bens duráveis continuou a crescer, provavelmente porque os pedidos mais antigos estão agora a ser atendidos que os problemas da cadeia de abastecimentos e a escassez de insumos desapareceram”, disse.
Sobre a queda do investimento, Colijn apontou que “em geral, o menor apetite por investimentos das empresas provavelmente está relacionado às preocupações com o crescimento económico e às perspectivas incertas para os próximos meses, enquanto os juros mais altos também estão começando a afetar”.
A queda do PIB, para Colijn, deve-se “às exportações líquidas pois as importações caíram acentuadamente no quarto trimestre, enquanto o crescimento das exportações desacelerou para 0,1%. Isso significa que a principal contribuição positiva para o PIB no último trimestre de 2022 foi a forte queda nas importações, o que não é sinal de força”.
“Olhando para o futuro, acreditamos que a zona euro caminha para dois anos de crescimento muito fraco e que uma recessão é mais provável do que improvável. A confiança do consumidor permanece extremamente baixa, em linha com novas quedas nos gastos das famílias”, reforçou Allen-Reynolds da Capital Economics.














