UE avisa Trump: proibição das exportações de gasóleo “minaria a confiança”

A Comissão Europeia rejeitou categoricamente a possibilidade de os Estados Unidos proibirem as exportações de gasóleo e advertiu que uma medida desse tipo não traria benefícios e poderia prejudicar a confiança da União Europeia em Washington enquanto parceiro considerado fiável.

Pedro Zagacho Gonçalves

A Comissão Europeia rejeitou categoricamente a possibilidade de os Estados Unidos proibirem as exportações de gasóleo e advertiu que uma medida desse tipo não traria benefícios e poderia prejudicar a confiança da União Europeia em Washington enquanto parceiro considerado fiável.

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A posição foi transmitida esta sexta-feira pela porta-voz da Comissão Europeia para a Energia, Anna-Kaisa Itkonen, que afirmou, durante uma conferência de imprensa, que Bruxelas se opõe “por completo” a um eventual veto às exportações norte-americanas de gasóleo.

“Uma decisão desse tipo não beneficiaria ninguém e minaria a nossa confiança nos Estados Unidos como parceiro fiável”, declarou a responsável, reforçando a oposição da Comissão a qualquer medida que impeça a saída de gasóleo dos Estados Unidos para outros mercados.

A questão surge num momento de pressão sobre os mercados energéticos internacionais, com os preços dos combustíveis elevados e preocupações relacionadas com o fornecimento de petróleo e de produtos refinados.

França quer reunir líderes do G7
A tensão em torno do abastecimento energético deverá também ser discutida pelos líderes do G7. A porta-voz-chefe da Comissão Europeia, Paula Pinho, revelou que França pretende convocar “tão cedo quanto possível” uma teleconferência entre os líderes do grupo, cuja presidência é atualmente exercida por Paris.

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O encontro poderá realizar-se ainda durante a tarde desta sexta-feira e terá como objetivo coordenar as medidas a adotar para aliviar a pressão sobre os preços e assegurar o fornecimento de petróleo bruto e de produtos refinados entre os países do G7 e a nível mundial.

A possibilidade de uma resposta europeia a Washington foi igualmente colocada à Comissão Europeia. Questionada sobre eventuais represálias caso os Estados Unidos avancem com a proibição das exportações de gasóleo, Itkonen apelou a que a situação seja analisada “passo a passo”.

A responsável voltou a sublinhar que, neste momento, a posição de Bruxelas é clara: a União Europeia rejeita qualquer proibição das exportações de gasóleo por considerar que essa medida não seria útil para ninguém.

Bruxelas avalia situação do mercado de gasóleo
Antes destas declarações, especialistas em energia da Comissão Europeia e dos Estados-membros tinham realizado uma reunião por videoconferência para analisar a situação dos mercados e o abastecimento de petróleo, com especial atenção ao gasóleo.

Após o encontro do Grupo de Trabalho da União da Energia, a Comissão Europeia indicou que, por enquanto, o fornecimento de gasóleo na União Europeia permanece estável, embora os preços continuem elevados devido às tensões existentes no mercado mundial.

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“Ao mesmo tempo, os preços continuam elevados, reflexo das tensões no mercado mundial”, indicou a Comissão num comunicado divulgado depois da reunião.

A sessão permitiu aos responsáveis europeus e nacionais partilhar informação sobre a evolução dos mercados e analisar possíveis medidas perante o atual cenário energético.

Estas reuniões têm ocorrido regularmente desde o agravamento dos preços dos combustíveis fósseis associado ao bloqueio do estreito de Ormuz, na sequência do ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, a 28 de fevereiro.

Trump admite proibir exportações durante 90 dias
A reunião técnica desta sexta-feira aconteceu depois de Donald Trump ter colocado, na semana passada, a possibilidade de os Estados Unidos proibirem durante 90 dias as exportações de gasóleo norte-americano.

A hipótese foi recebida com surpresa em Bruxelas e a Comissão Europeia classificou-a como uma “muito má ideia”.

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A eventual suspensão das exportações norte-americanas surge num momento em que vários meios de comunicação social têm noticiado pressão da administração Trump sobre países europeus para que utilizem as suas reservas estratégicas de gasóleo.

A proposta conta com o apoio público do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent. Na quinta-feira, Bessent defendeu, numa publicação na rede social X, que os parceiros europeus deveriam “disponibilizar imediatamente volumes adicionais” para responder às atuais perturbações.

A posição norte-americana coloca assim em discussão a utilização das reservas estratégicas europeias num contexto de pressão sobre o mercado mundial de combustíveis.

UE já recorreu às reservas de emergência em março
Os países europeus já tinham recorrido às suas reservas de emergência em março, no âmbito de uma libertação coordenada pela Agência Internacional da Energia (AIE).

A Comissão Europeia rejeita, contudo, a ideia de que uma eventual decisão sobre novas libertações de reservas possa resultar de uma pressão direta de Washington.

A porta-voz de Energia da Comissão sublinhou que qualquer decisão desse tipo deverá ser tomada no âmbito da AIE, organização sediada em Paris.

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“Como membros da AIE, participaremos nesse quadro. E o papel da Comissão Europeia é coordenar a decisão dos seus Estados-membros caso a AIE adote uma resolução nesse sentido”, explicou Itkonen.

A posição coloca a eventual libertação de reservas dentro de um processo coordenado internacionalmente, em vez de a apresentar como uma resposta direta às exigências da administração norte-americana.

Bruxelas mantém contactos com Washington e Estados-membros
Questionada sobre a possibilidade de o Grupo de Trabalho de Energia da União Europeia voltar a reunir-se ainda esta sexta-feira para acompanhar a evolução da situação, Itkonen não confirmou uma nova reunião.

A responsável afirmou, contudo, que a Comissão Europeia mantém uma “intensa coordenação” e “contactos estreitos” tanto com a administração dos Estados Unidos como com os Estados-membros da União Europeia.

Bruxelas tem prevista uma nova reunião de especialistas em energia para 15 de outubro. A Comissão admite, porém, antecipar o encontro caso a evolução da situação o justifique.

O eventual veto norte-americano às exportações de gasóleo permanece, assim, no centro das preocupações europeias num contexto de preços elevados e de tensão nos mercados energéticos. Para Bruxelas, além dos efeitos sobre o abastecimento, uma proibição das exportações dos Estados Unidos poderia ter uma consequência política adicional: enfraquecer a confiança da União Europeia em Washington enquanto parceiro fiável.

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