O impasse nas negociações entre Ucrânia e Rússia em Genebra vai muito além de um simples bloqueio diplomático. Especialistas, indicou esta quinta-feira o jornal espanhol ’20 Minutos’ apontam para uma estratégia deliberada de Moscovo para esvaziar o processo negocial — ao mesmo tempo que Kiev denuncia pressões externas e recusa qualquer cedência territorial.
Oleksandr Kraiev, especialista em relações internacionais e diretor do Programa Norte-Americano do Conselho de Política Externa da Ucrânia, considera que o sinal mais evidente da falta de intenção russa está na própria delegação enviada a Genebra. A presença de Vladimir Medinsky, antigo ministro da Cultura e figura recorrente nas rondas negociais, é interpretada como um indício de que o Kremlin não pretende alcançar um acordo substantivo.
Citado pelo ’20 Minutos’, Kraiev sustenta que Medinsky não surge para negociar soluções concretas, mas para prolongar discussões com argumentos históricos e narrativas ideológicas. Na sua análise, o padrão repete-se: quando este negociador está à mesa, o objetivo é ganhar tempo ou bloquear avanços, não aproximar posições.
A mesma visão é partilhada por Oleksandr Notevskyi, analista político da ‘Grunt Media’. Também ouvido pelo ’20 Minutos’, descreve as conversas como um exercício quase encenado, onde os debates se desviam para discursos simbólicos enquanto o essencial permanece intocado. Para Notevskyi, dificilmente a próxima ronda produzirá resultados políticos relevantes, dado o atual contexto e a postura russa.
Do lado ucraniano, a posição oficial mantém-se firme. Volodymyr Zelensky tem insistido que “não há vontade política” do Kremlin para implementar um cessar-fogo real e sublinha que a Ucrânia não cederá território. “Eles não nos perdoariam”, afirmou, referindo-se à opinião pública ucraniana. O presidente garante que Kiev quer que a guerra termine “o mais rápido possível”, mas apenas através de um acordo “justo”.
Ao mesmo tempo, Zelensky classificou como “injusta” a pressão exercida pelos Estados Unidos nas negociações. A análise publicada pelo ‘The Independent’ sugere que Kiev se encontra encurralada entre Moscovo e Washington: de um lado, a Rússia mantém a ocupação de cerca de 20% do território ucraniano e continua os ataques; do outro, os EUA — principais mediadores — têm condicionado o apoio político e militar a determinados entendimentos estratégicos.
Segundo o jornal britânico, a pressão para aceitar compromissos territoriais ou limitações de segurança aproxima-se, em certos momentos, de um ultimato. Washington prometeu ou disponibilizou cerca de 115 mil milhões de dólares (aproximadamente 106 mil milhões de euros) em apoio à Ucrânia, enquanto a Europa comprometeu quase o dobro desse valor. Ainda assim, as negociações recentes têm sido dominadas pelos EUA, sem participação formal europeia.
A narrativa russa de que a invasão visou proteger populações russófonas no leste da Ucrânia é igualmente contestada. O ‘The Independent’ recorda que muitos deslocados internos são precisamente falantes de russo que fugiram dos bombardeamentos de Moscovo. Além disso, a anexação de territórios pela Rússia começou em 2014, enquanto o pedido formal de adesão da Ucrânia à NATO só surgiu em 2019 — uma cronologia que desafia o argumento de que a expansão da Aliança Atlântica esteve na origem do conflito.
Para os especialistas ouvidos pelo ’20 Minutos’, o risco maior é que a Rússia consiga consolidar ganhos à mesa das negociações que não obteve plenamente no campo de batalha. Após quase quatro anos de guerra em larga escala, Moscovo acumula perdas humanas significativas — estimadas em cerca de 1,2 milhões entre mortos e feridos — e viu a NATO expandir-se com a entrada da Finlândia e da Suécia.
Neste cenário, a grande incógnita é o papel da Europa. Apesar de possuir instrumentos relevantes — incluindo sanções e ativos russos congelados — Bruxelas tem permanecido à margem das conversações mais recentes. A ausência europeia levanta dúvidas sobre o equilíbrio do processo e sobre quem moldará os contornos de um eventual acordo.
Entre acusações de “diplomacia vazia”, pressões internacionais e desconfiança mútua, Genebra deixou mais interrogações do que respostas. Para já, como sintetizam os analistas, a mesa das negociações parece servir mais para gerir perceções e calendários políticos do que para encurtar a distância entre Kiev e Moscovo.













