Ucrânia: Costa diz que UE está a preparar-se para “potenciais” negociações com Putin

A União Europeia está a preparar-se para um eventual envolvimento direto em futuras negociações com o presidente russo, Vladimir Putin, numa tentativa de ganhar protagonismo diplomático no processo destinado a pôr fim à guerra na Ucrânia.

Pedro Zagacho Gonçalves

A União Europeia está a preparar-se para um eventual envolvimento direto em futuras negociações com o presidente russo, Vladimir Putin, numa tentativa de ganhar protagonismo diplomático no processo destinado a pôr fim à guerra na Ucrânia. A possibilidade foi admitida pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, que revelou estar já em contacto com os 27 líderes da União para avaliar de que forma o bloco poderá organizar-se politicamente para, no momento considerado oportuno, abrir um canal de diálogo com Moscovo.

A revelação surge numa altura em que várias capitais europeias olham com crescente inquietação para a falta de progressos nas negociações lideradas pelos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, temendo que a União Europeia acabe afastada de decisões centrais sobre o futuro da Ucrânia e venha posteriormente a ser confrontada com um acordo que não ajudou a construir — e com o qual poderá não concordar.

De acordo com o Financial Times, num evento no Instituto Universitário Europeu, em Florença, António Costa confirmou que Bruxelas está a refletir internamente sobre esse cenário e sobre a melhor forma de preparar uma eventual intervenção diplomática europeia. “Estou a falar com os 27 líderes nacionais [da UE] para ver qual é a melhor forma de nos organizarmos e identificar aquilo de que efetivamente precisamos para discutir com a Rússia quando chegar o momento certo para o fazer”, afirmou.

O presidente do Conselho Europeu foi mais longe e sublinhou que essa preparação conta com o aval político de Kyiv. Segundo António Costa, durante a cimeira de líderes europeus realizada em Chipre no mês passado, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, terá incentivado os parceiros europeus a posicionarem-se para desempenhar um papel construtivo em futuras negociações. “Na cimeira da UE em Chipre, Zelensky convidou-nos a estarmos preparados para contribuir positivamente para uma negociação”, revelou.

Bruxelas quer estar pronta, mas evita interferir no processo liderado por Trump
Apesar da abertura para um futuro diálogo direto com Moscovo, António Costa fez questão de sublinhar que a União Europeia não pretende perturbar, nesta fase, o processo diplomático atualmente conduzido pela administração norte-americana. “Vamos evitar perturbar o processo liderado pelo presidente Trump”, afirmou, reconhecendo simultaneamente um obstáculo central: até ao momento, não existe qualquer sinal por parte do Kremlin de que Vladimir Putin esteja disponível para se sentar à mesa com representantes da União Europeia.

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“Sim, existe potencial [para negociar com Putin]. Mas, neste momento, ninguém viu qualquer sinal da Rússia de que queira efetivamente envolver-se em negociações sérias”, declarou.

Essa constatação evidencia o dilema europeu: por um lado, Bruxelas procura não ser marginalizada num eventual acordo de paz; por outro, continua sem uma abertura concreta de Moscovo para reconhecer a União Europeia como interlocutor direto num processo negocial.

Europa receia ficar de fora de um acordo sobre a Ucrânia
A posição histórica da União Europeia tem sido clara desde o início da invasão russa: não pode haver decisões sobre a Ucrânia sem a participação da própria Ucrânia. Esse princípio continua a orientar a estratégia europeia, mas a lentidão das conversações e a ausência de resultados tangíveis nas rondas diplomáticas já realizadas aumentaram a preocupação entre vários governos europeus.

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Entre muitos líderes da UE existe receio de que conversações trilaterais entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia possam avançar para compromissos substanciais sem envolvimento europeu direto, criando um cenário em que Bruxelas seria chamada apenas a aceitar ou financiar parte de um entendimento já fechado.

Essa apreensão intensificou-se porque o último encontro trilateral entre representantes dos EUA, da Ucrânia e da Rússia aconteceu a 18 de fevereiro, sem que daí tenham resultado avanços visíveis. Desde então, o processo diplomático tem permanecido praticamente congelado.

Zelensky procura reanimar a via diplomática
Do lado ucraniano, Volodymyr Zelensky continua a procurar revitalizar os contactos diplomáticos. Esta semana, o presidente ucraniano anunciou que Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, chegou aos Estados Unidos para reuniões com enviados especiais da administração Trump, incluindo Steve Witkoff.

Segundo Zelensky, o objetivo é claro: “reanimar o processo diplomático”, que tem estado bloqueado desde o início da guerra desencadeada por Trump contra o Irão, conflito que acabou por desviar atenções políticas e estratégicas de Washington da frente ucraniana.

O presidente ucraniano acrescentou ainda que Kyiv tem mantido coordenação permanente com os norte-americanos. “Mantivemos comunicação constante com o lado americano e sabemos dos contactos relevantes dos nossos parceiros com o lado russo”, afirmou.

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Ao mesmo tempo, Zelensky insistiu que qualquer esforço negocial deve servir para aproximar uma paz sustentável. “Estamos a trabalhar para garantir que isto ajuda a aproximar uma paz digna e garante segurança”, declarou.

Cessar-fogo falhado agrava tensão
Enquanto decorrem movimentações diplomáticas, a realidade no terreno continua marcada pela violência.

Nos últimos dias, Rússia e Ucrânia trocaram propostas concorrentes relativas à suspensão de ataques. Vladimir Putin anunciou uma breve trégua para coincidir com o desfile do Dia da Vitória, marcado para 9 de maio em Moscovo, esperando que a Ucrânia também suspendesse operações nesse período.

Zelensky respondeu com iniciativa própria e anunciou unilateralmente um cessar-fogo a 6 de maio. Segundo o gabinete presidencial ucraniano, a intenção era demonstrar que, se Moscovo consegue garantir uma pausa militar para proteger o seu desfile comemorativo, também poderia alargar essa trégua ao conjunto da linha da frente.

A iniciativa procurava igualmente expor aquilo que Kyiv considera uma contradição estratégica do Kremlin: exigir segurança para celebrações em Moscovo enquanto continua operações ofensivas em território ucraniano.

No entanto, pouco depois, forças russas lançaram novos ataques contra cidades ucranianas, provocando 27 mortos e pelo menos 120 feridos, num sinal claro de que, apesar dos contactos diplomáticos e das discussões sobre tréguas temporárias, o conflito permanece longe de qualquer desanuviamento real.

Falta consenso europeu sobre quem pode falar com Moscovo
Mesmo que a União Europeia avance para um contacto direto com Putin, persistem questões fundamentais dentro do próprio bloco.

Alguns líderes, entre os quais o primeiro-ministro belga Bart De Wever, já admitiram publicamente a necessidade de abrir um canal de diálogo com o Kremlin. No entanto, não existe consenso entre os 27 sobre quem deverá representar a União, em que momento esse contacto deverá ocorrer ou que proposta concreta deverá ser apresentada a Moscovo.

O gabinete de Zelensky confirmou a conversa entre o líder ucraniano e António Costa, mas sublinhou que qualquer iniciativa europeia terá de ser coordenada de forma a transmitir uma voz unida da Europa e aumentar a pressão política sobre a Rússia.

Esse ponto poderá revelar-se decisivo: sem unidade interna, a União Europeia terá dificuldade em afirmar-se como mediador credível; com uma posição comum, poderá ganhar peso diplomático num processo que até agora tem sido dominado por Washington, Moscovo e Kyiv.

Para já, a porta permanece apenas entreaberta. Mas, pela primeira vez em muitos meses, Bruxelas assume publicamente que está a preparar-se para a possibilidade de, quando surgir a oportunidade, sentar-se frente a frente com Vladimir Putin.

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