Trump tóxico? Marine Le Pen rejeita apoio de Donald Trump para evitar danos à imagem do seu partido em França

Marine Le Pen recusou recentemente um gesto de apoio público por parte de representantes próximos de Donald Trump, numa tentativa deliberada de evitar que a impopularidade do presidente norte-americano em França prejudicasse o União Nacional (RN) nas eleições presidenciais de 2027.

Pedro Gonçalves
Junho 25, 2025
18:16

Marine Le Pen recusou recentemente um gesto de apoio público por parte de representantes próximos de Donald Trump, numa tentativa deliberada de evitar que a impopularidade do presidente norte-americano em França prejudicasse o União Nacional (RN) nas eleições presidenciais de 2027. A informação foi avançada por duas fontes à agência Reuters e sublinha a crescente tensão entre o universo político de Trump e os líderes da extrema-direita europeia, nomeadamente os que procuram moderar a sua imagem pública.

De acordo com essas fontes, a oferta de apoio partiu de uma delegação do Departamento de Estado dos EUA, liderada por Samuel Samson — jovem conservador associado ao trumpismo e membro da secção norte-americana para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho. Durante uma visita a Paris no final de maio, Samson terá mantido reuniões com dirigentes seniores do RN, embora sem a presença de Le Pen ou do atual presidente do partido, Jordan Bardella.

O objetivo do encontro seria discutir formas de apoio público norte-americano à líder da extrema-direita francesa, que, neste momento, procura reverter uma condenação por uso indevido de fundos europeus — uma sentença que, se não for anulada, a impede de concorrer às presidenciais de 2027.

A resposta da direção do RN foi clara: recusar qualquer apoio público. A preocupação é que um gesto vindo da esfera de Trump, cuja imagem continua extremamente negativa junto do eleitorado francês, acabasse por enfraquecer os esforços de “normalização” do partido que Le Pen tem conduzido ao longo da última década. Uma das fontes ouvidas pela Reuters indicou mesmo que Jordan Bardella, atualmente com 28 anos, é visto como uma aposta viável para 2027 caso Le Pen fique impedida de se candidatar. Uma associação direta a Trump poderia comprometer essa possibilidade.

Apesar das convergências ideológicas entre Trump e o RN — como o combate à imigração, o nacionalismo económico e a desconfiança face à União Europeia —, os dirigentes do partido francês continuam a privilegiar uma estratégia de distanciamento tático face a figuras polarizadoras do cenário internacional. O receio é que o apoio de Washington afaste eleitores moderados e comprometa a trajetória ascendente do partido junto das classes médias francesas.

A tensão entre Washington e a extrema-direita europeia
Este episódio ocorre num momento em que o Departamento de Estado norte-americano, através da estrutura dirigida por Samuel Samson, tem intensificado a retórica em defesa da liberdade de expressão e contra aquilo que classifica como práticas de “lawfare” — o uso do sistema judicial para perseguir adversários políticos. Um conceito frequentemente invocado por Trump nas suas batalhas legais.

No início de junho, essa mesma estrutura publicou na rede social X (antigo Twitter) que representantes dos EUA se haviam reunido em Paris com “funcionários franceses, partidos políticos e outros atores para reafirmar o compromisso partilhado com a liberdade de expressão, a escolha democrática e a liberdade religiosa”. No mesmo comunicado, alertaram para os riscos de manipulação política da justiça, numa alusão indireta ao caso de Le Pen e em linha com a narrativa de Trump.

Este caso revela um paradoxo crescente no seio da extrema-direita ocidental: embora partilhem orientações ideológicas, vários partidos europeus optam por manter distância de Trump para proteger a respetiva viabilidade eleitoral interna. No caso francês, Le Pen e Bardella estão decididos a evitar que qualquer associação com o trumpismo ameace o esforço de décadas para apresentar o RN como uma alternativa credível ao centro político tradicional.

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