Trump tenta em segredo aumentar controlo sobre a Gronelândia: as exigências que assustam as autoridades locais

Altos responsáveis da Administração Trump realizaram, nos últimos quatro meses, várias reuniões à porta fechada com negociadores da Gronelândia e da Dinamarca, país responsável pela política externa da ilha semiautónoma. As conversações começaram depois de Trump ter ameaçado anexar a Gronelândia, provocando uma crise diplomática internacional

Francisco Laranjeira

As autoridades da Gronelândia e da Dinamarca estão cada vez mais preocupadas com o interesse do presidente americano, Donald Trump, em aumentar a influência dos EUA sobre a ilha através da expansão militar e de um eventual controlo sobre investimentos estrangeiros, noticia o ‘The Independent’, citando informações avançadas pelo ‘New York Times’.

De acordo com a imprensa americana, altos responsáveis da Administração Trump realizaram, nos últimos quatro meses, várias reuniões à porta fechada com negociadores da Gronelândia e da Dinamarca, país responsável pela política externa da ilha semiautónoma. As conversações começaram depois de Trump ter ameaçado anexar a Gronelândia, provocando uma crise diplomática internacional.

A posição da ilha no Círculo Polar Ártico torna a Gronelândia especialmente relevante para Washington. Para os EUA, o território é estratégico por permitir reforçar a presença militar americana no Ártico, acompanhar rotas de navegação cada vez mais importantes e aceder a recursos naturais.

Segundo o ‘The Independent’, uma das propostas que mais desconforto gerou em Nuuk e Copenhaga passaria por permitir que os Estados Unidos aprovassem ou rejeitassem acordos de investimento estrangeiro na Gronelândia, com o objetivo de bloquear a entrada de países como a China ou a Rússia em áreas consideradas sensíveis.

Um responsável da Casa Branca citado pelo jornal confirmou que a Administração Trump está envolvida em conversações diplomáticas de alto nível com a Gronelândia e a Dinamarca sobre questões de segurança nacional na ilha, acrescentando que as discussões estão a evoluir positivamente.

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As negociações terão decorrido ao longo de cerca de cinco reuniões em Washington, nas quais responsáveis do Departamento de Estado apresentaram o desejo de Trump de alcançar um acordo antes de o presidente voltar a concentrar atenções na Gronelândia, depois da guerra com o Irão.

Entre as mudanças em discussão estará também a alteração de um acordo de longa duração que permite a permanência de tropas americanas na Gronelândia mesmo que a ilha venha a tornar-se independente da Dinamarca. Outras propostas incluem a expansão da presença militar dos EUA e a possibilidade de Washington explorar recursos naturais localizados sob o gelo gronelandês.

A ‘Associated Press’ noticiou que o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, recebeu esta semana Jeff Landry, governador republicano da Louisiana e enviado especial de Trump para o Ártico, numa reunião descrita como positiva, mas marcada por uma mensagem clara de Nuuk: a autodeterminação da Gronelândia não está em causa.

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“O povo da Gronelândia não está à venda. A autodeterminação da Gronelândia não é algo negociável”, afirmou Nielsen, em declarações citadas pela ‘Associated Press’.

A ‘Reuters’ avançou igualmente que o Governo da Gronelândia reconhece progressos nas negociações com os Estados Unidos, mas mantém a posição de que qualquer forma de compra ou anexação é inaceitável. A agência recorda que os EUA já têm presença militar na ilha, através da base espacial de Pituffik, mas pretendem reforçar a sua posição estratégica no território.

A tensão surge num momento em que o Ártico ganha importância crescente na disputa entre grandes potências. O degelo, a abertura de novas rotas marítimas e a procura por minerais críticos transformaram a Gronelândia num ponto central da competição entre Estados Unidos, China e Rússia.

Pipaluk Lynge, deputada no parlamento gronelandês, já tinha alertado que os responsáveis locais receiam que Trump não abandone facilmente os seus objetivos sobre a ilha. “É muito importante que nós, na Gronelândia, expressemos o nosso desejo de sermos uma nação soberana, o nosso desejo de sermos independentes e de sermos respeitados”, afirmou, em declarações citadas pelo ‘The Independent’.

O primeiro-ministro gronelandês admitiu que a ilha está aberta a cooperar com Washington dentro do quadro existente, nomeadamente em matéria de segurança e defesa, mas deixou claro que essa cooperação não significa aceitar maior controlo americano sobre decisões internas ou sobre o futuro político do território.

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Jeff Landry, enviado especial de Trump, disse aos meios de comunicação locais que viajou para a Gronelândia para “construir relações, observar, ouvir, aprender” e avaliar oportunidades para expandir a relação entre Gronelândia, Estados Unidos e Dinamarca.

Apesar disso, a mensagem de Nuuk mantém-se firme. A Gronelândia quer reforçar a cooperação com aliados, mas não aceita que a sua soberania seja tratada como moeda de troca. Para Copenhaga, a situação é igualmente delicada: a Dinamarca continua responsável pela política externa da ilha, mas a Gronelândia tem autonomia interna e aspirações independentistas que tornam qualquer negociação sobre o seu futuro particularmente sensível.

As conversações ainda não resultaram num acordo final. Mas a disputa confirma que a Gronelândia voltou ao centro da política externa americana e que, para Trump, a ilha é muito mais do que um território remoto do Ártico: é uma peça estratégica na disputa por segurança, recursos naturais e influência global.

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