Trump tem aliados secretos dentro da NATO — e nem todos estão do seu lado

Em Ancara, o antigo magnata chega com uma lista de aliados indiretos que lhe dão sobretudo uma coisa: margem de pressão sobre os restantes membros da Aliança

Francisco Laranjeira

A NATO está reunida em Ancara para uma cimeira de dois dias marcada por uma missão central: manter Donald Trump dentro da Aliança, mostrando que a Europa e o Canadá estão dispostos a assumir uma fatia maior dos custos da sua própria defesa.

Segundo a ‘Newsweek’, os verdadeiros aliados de Trump dentro da NATO nem sempre são os líderes que o elogiam ou que partilham a sua orientação política. Muitas vezes, são os Governos, ameaças, setores industriais e dependências estratégicas que tornam a Aliança mais cara, mais vulnerável e mais fácil de renegociar em termos favoráveis a Washington.

A NATO continua a assentar no artigo 5º, o compromisso de defesa coletiva entre aliados, e reafirmou a Rússia como ameaça de longo prazo. Mas a pressão de Trump já mudou a fasquia: os membros comprometeram-se a caminhar para uma meta de investimento em defesa equivalente a 5% do PIB até 2035. Mesmo assim, o próprio Trump diz que o dinheiro já não é o ponto central. Depois de se reunir com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, afirmou: “Não precisamos do dinheiro deles. Não precisamos de nada. Só quero lealdade.”

A questão, sublinha a análise, é se Trump procura lealdade ou submissão. Em Ancara, o antigo magnata chega com uma lista de aliados indiretos que lhe dão sobretudo uma coisa: margem de pressão sobre os restantes membros da Aliança.

Um dos casos mais simbólicos é Giorgia Meloni. A primeira-ministra italiana parecia, à partida, uma ponte natural para Trump na Europa: lidera um Governo nacionalista de direita e cultivou uma relação pessoal com o líder americano. Mas tornou-se também um aviso para os restantes aliados. Trump criticou-a depois da cimeira do G7 em França, acusou Itália de falta de cooperação durante a guerra no Irão e voltou a atacá-la antes da cimeira de Ancara. A lição é clara: proximidade ideológica não garante proteção perante a imprevisibilidade de Trump.

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Outro aliado silencioso está na tecnologia. A dependência tradicional da NATO em relação aos Estados Unidos sempre passou por tropas, bases, armas nucleares e equipamento militar avançado. Agora, passa também por dados, computação em nuvem, inteligência artificial, software de campo de batalha e sistemas autónomos. A Europa tenta desenvolver alternativas próprias, mas continua longe de substituir o poder das grandes tecnológicas americanas e dos fornecedores de defesa dos Estados Unidos.

A pressão orçamental europeia também joga a favor de Trump. A meta dos 5% dá-lhe uma vitória política, mas cria uma tensão permanente dentro da Aliança. Cada atraso nos planos de investimento, cada debate interno sobre despesa pública e cada falha no cumprimento dos objetivos alimenta o argumento de que a Europa continua a depender dos Estados Unidos sem pagar o suficiente pela sua segurança.

Ao mesmo tempo, há países que reforçam a posição de Trump por comparação. Polónia, países bálticos e nórdicos surgem como exemplos de aliados que estão a aumentar a despesa em defesa e a levar a ameaça russa mais a sério. Para Washington, estes países servem de contraponto aos parceiros da Europa Ocidental que avançam mais devagar ou enfrentam maiores resistências políticas internas.

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Vladimir Putin é, neste quadro, o adversário que reforça a fatura apresentada por Trump. A guerra na Ucrânia justifica a existência da NATO e mantém viva a necessidade de dissuasão militar. Mas permite também a Trump perguntar por que razão devem os contribuintes americanos suportar uma parte tão pesada da defesa europeia quando a ameaça russa está no continente europeu.

Dentro da própria estrutura da NATO, há figuras que ajudam a traduzir a pressão de Trump numa linguagem institucional. Matt Whitaker, embaixador dos Estados Unidos junto da Aliança, tem insistido que Trump espera dos aliados uma resposta imediata e um caminho credível para a meta dos 5%. O seu papel é funcionar como uma espécie de intermediário: reforça a pressão de Washington, mas tenta apresentá-la como uma forma de tornar a NATO mais forte.

Mark Rutte desempenha uma função semelhante, mas a partir do topo da organização. O secretário-geral da NATO tem procurado transformar as exigências de Trump numa narrativa de sucesso para a Aliança. Na Casa Branca, chegou a apresentar gráficos que atribuíam ao líder americano o mérito por mais de um bilião de dólares em despesa adicional de aliados europeus e do Canadá desde 2017. Para a ‘Newsweek’, Rutte tornou-se o “tradutor” do trumpismo dentro da NATO: suaviza as ameaças, enquadra-as institucionalmente e devolve-as como prova de que a Aliança está a adaptar-se.

Também a indústria americana de defesa surge como uma das grandes beneficiárias. O discurso de Trump é muitas vezes apresentado como isolacionista, mas o fluxo de dinheiro conta outra história. Se os aliados europeus aumentarem a despesa militar, muitos dos novos contratos acabarão em empresas dos Estados Unidos. Para a Europa, trata-se de autonomia estratégica; para Trump, é procura externa para a indústria americana.

Xi Jinping é outro elemento central nesta equação. A ascensão da China como potência militar, tecnológica e estratégica permite a Washington deslocar o foco para o Pacífico e para o hemisfério ocidental. Quanto mais os Estados Unidos definem Pequim como o principal desafio global, mais fácil se torna para Trump dizer à Europa que deve financiar a sua própria segurança.

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No topo da lista surge a Turquia. Recep Tayyip Erdoğan recebe a cimeira em Ancara e oferece a Trump uma combinação rara de diplomacia pessoal, geografia estratégica, capacidade militar e margem negocial dentro da Aliança. O encontro ocorre num momento em que se discute a venda de caças F-35 à Turquia e o levantamento de sanções ao setor de defesa turco, ao mesmo tempo que Ancara tenta recuperar espaço no centro da arquitetura de segurança euro-atlântica.

Para Trump, a NATO é cada vez menos uma comunidade política de aliados e cada vez mais uma conta a cobrar, um mercado a abrir e uma dependência a reavaliar. A sua estratégia não procura necessariamente amigos ideológicos. Procura atores que lhe deem influência, argumentos e capacidade de pressão.

A cimeira de Ancara mostra precisamente isso: na NATO de Trump, a amizade conta menos do que a utilidade. O que importa é quem ajuda a transformar a Aliança numa negociação permanente — e quem lhe permite chamar “lealdade” ao que, na prática, é poder de negociação.

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