Trump, Síria e um campo de golfe: a proposta insólita que terá ajudado a levantar sanções

Decisão da Casa Branca de levantar as sanções económicas à Síria sem impor novas condições poderá ter tido uma motivação tão inesperada quanto reveladora

Francisco Laranjeira

A decisão da Casa Branca de levantar as sanções económicas à Síria sem impor novas condições poderá ter tido uma motivação tão inesperada quanto reveladora. O jornal espanhol ‘ABC’, citando o ‘New York Times’, escreveu que o novo poder sírio recorreu a uma família de multimilionários para fazer ‘lobby’ nos Estados Unidos e explorar um dos pontos fracos mais conhecidos de Donald Trump: a vaidade.

A proposta era tão simples quanto simbólica: incluir nos planos de reconstrução do país um grande campo de golfe com o nome ‘Trump National Golf Course’.

De acordo com o mesmo relato, a família Al Khayyat, regressada à Síria após a queda de Bashar al-Assad e próxima do novo líder Ahmed al Sharaa, terá sido encarregada de abrir portas em Washington. O objetivo era claro: conseguir o levantamento das sanções americanas, vistas como um bloqueio à entrada dos milhares de milhões necessários para reconstruir um país devastado por treze anos de guerra civil.

Foi nesse contexto que os Al Khayyat terão contactado o congressista republicano Joe Wilson. A sugestão que receberam para captar a atenção de Trump passava por associar o seu nome a projetos imobiliários de grande visibilidade na Síria, em particular um campo de golfe e um complexo hoteleiro na costa.

A Casa Branca e a Fundação Trump negaram qualquer envolvimento direto do presidente americano nesses negócios, mas os acontecimentos posteriores acabariam por alimentar as suspeitas. No final do ano passado, Trump assinou um decreto para suspender temporariamente as sanções impostas à Síria desde 2024. Mais tarde, e depois de a banca internacional ter exigido garantias, o Congresso confirmou que esse levantamento passaria a ter caráter permanente.

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Ahmed al Sharaa tornou-se em 2025 no primeiro presidente sírio a viajar até aos Estados Unidos desde a independência do país. Nessa ofensiva diplomática, procurou apresentar-se como um líder disposto a romper com o passado e concentrado apenas na reconstrução nacional. Ainda assim, a sua chegada ao poder foi acompanhada por críticas ligadas à perseguição de minorias xiita, cristã e drusa, o que agravou as dúvidas sobre o rumo do novo regime.

Mais à frente, o ‘ABC’ destaca ainda outra dimensão desta história: os negócios internacionais da família Trump com os Al Khayyat. A investigação do ‘New York Times’ aponta para ligações empresariais entre a família síria e Ivanka Trump, bem como Jared Kushner, num macroprojeto turístico na Albânia. O caso reforça assim a ideia de que a diplomacia, os interesses privados e a reconstrução da Síria se cruzaram de forma muito mais próxima do que parecia à primeira vista.

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