Trump realizou mais ataques militares num ano do que Biden em todo o seu mandato

Segundo o ‘Armed Conflict Location and Event Data Project’, uma organização sem fins lucrativos que acompanha a violência armada a nível global, Washington ordenou quase 600 ataques militares individuais nos primeiros 12 meses do novo mandato presidencial

Francisco Laranjeira

Os Estados Unidos realizaram mais ataques militares unilaterais em território estrangeiro durante o primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump do que ao longo de todo o mandato de quatro anos de Joe Biden, de acordo com dados de uma organização internacional de monitorização de conflitos analisados pela ‘Newsweek’.

Segundo o ‘Armed Conflict Location and Event Data Project’, uma organização sem fins lucrativos que acompanha a violência armada a nível global, Washington ordenou quase 600 ataques militares individuais nos primeiros 12 meses do novo mandato presidencial, abrangendo operações em três continentes contra grupos terroristas, regimes autoritários e cartéis de droga. De acordo com a ‘Newsweek’, este número supera o total de ataques registados durante os quatro anos da administração Biden.

Uma política externa mais agressiva

A utilização mais recente e controversa da força ocorreu há menos de duas semanas, quando os Estados Unidos lançaram ataques contra instalações militares em Caracas e, numa operação paralela de forças especiais, capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a sua esposa. A operação, descrita por críticos como uma potencial violação do direito internacional, enquadra-se no processo movido por Washington contra Maduro por alegado narcoterrorismo e tráfico de droga.

Apesar de se ter apresentado como um “presidente da paz”, Donald Trump tem vindo a intensificar a retórica e a ação militar contra adversários históricos dos Estados Unidos, como Cuba e o Irão. Em paralelo, tem pressionado a Dinamarca a abdicar do controlo da Gronelândia, território considerado estratégico no Ártico face à crescente influência da China e da Rússia.

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Especialistas citados pela ‘Newsweek’ consideram improvável qualquer ação militar americana contra um aliado da NATO por causa da Gronelândia, cenário que significaria, na prática, o colapso da Aliança Atlântica. Já um novo ataque contra o Irão surge como uma possibilidade mais realista, num contexto de protestos internos que ameaçam o regime do líder supremo Ali Khamenei.

Números que marcam uma viragem

Entre 20 de janeiro de 2025 e 5 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram 573 ataques aéreos e com drones, segundo a ACLED. Durante os quatro anos da presidência de Joe Biden, foram registados 494 ataques. Quando contabilizadas operações conjuntas com aliados da coligação internacional, como na Síria e no Iraque contra o Estado Islâmico, o total no segundo mandato de Trump sobe para 658, aproximando-se rapidamente dos 694 ataques realizados durante toda a administração anterior.

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No último ano, operações militares americanas foram registadas em pelo menos nove países. A ACLED contabiliza cerca de 1.008 eventos militares envolvendo os EUA no estrangeiro, que terão resultado em aproximadamente 1.093 mortes. Em comparação, durante o mandato de Biden foram registadas 1.648 operações e cerca de 1.518 mortes.

Entre os dados divulgados contam-se mais de 110 alegados traficantes de droga mortos em operações em águas internacionais no Mar das Caraíbas e no Pacífico Oriental, bem como entre 40 e 100 militares, incluindo forças de segurança cubanas, que poderão ter morrido nos recentes ataques cirúrgicos na Venezuela.

Mais de 80% dos ataques aéreos americanos no último ano tiveram como alvo os rebeldes houthis no Iémen, provocando mais de 530 mortos. A crise no Mar Vermelho teve origem durante a presidência de Biden, na sequência da guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza.

Alertas sobre o direito internacional

Na análise citada pela ‘Newsweek’, a ACLED descreve a estratégia do novo mandato de Trump como uma política de “atacar primeiro e perguntar depois”, sublinhando uma abordagem mais rápida e com menos constrangimentos institucionais do que em administrações anteriores.

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A diretora-executiva da organização, Clionadh Raleigh, alertou para uma mudança de paradigma na política externa americana, sublinhando que a ideia de que apenas a “moralidade pessoal” do presidente limita a ação militar representa um afastamento das normas internacionais, das instituições multilaterais e das alianças tradicionais. Segundo a responsável, países como a Venezuela, a Colômbia, Cuba ou a Gronelândia estão a ser enquadrados não como Estados soberanos, mas como problemas estratégicos a gerir.

A posição da Casa Branca

A Casa Branca rejeita estas críticas. Em declarações à ‘Newsweek’, a secretária de imprensa adjunta, Anna Kelly, afirmou que o primeiro instinto de Donald Trump continua a ser a diplomacia. Segundo a responsável, o presidente tem recorrido à sua experiência negocial para garantir melhores acordos comerciais, reforçar os compromissos de defesa dos aliados da NATO e pôr fim a vários conflitos armados.

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