A recente troca de ataques entre os Estados Unidos e o Irão, que ocorreu em dois dias consecutivos apesar da existência formal de um cessar-fogo, está a mergulhar o conflito numa nova fase marcada pela incerteza estratégica, pela pressão política e pela ausência de objetivos claros. A avaliação é de Rui Henrique Santos, especialista em relações internacionais, professor universitário, investigador e politólogo, em entrevista exclusiva à Executive Digest.
Para o especialista, a situação atual desafia qualquer definição tradicional de conflito armado ou de trégua diplomática. Embora os confrontos militares tenham regressado e a retórica agressiva tenha aumentado de tom, as negociações entre Washington e Teerão continuam formalmente em curso.
“O cessar-fogo aparentemente ainda se mantém e ainda se mantêm as negociações”, afirmou Rui Henrique Santos, sublinhando que, apesar da escalada militar, “quer os Estados Unidos, quer o Irão, não abandonaram o cessar-fogo” e continuam a existir contactos diretos e indiretos através de mediadores.
Um conflito sem definição clara
Segundo o politólogo, a principal característica da atual crise é precisamente a sua natureza contraditória.
“Número um, em que fase é que estamos? Não é uma guerra, não é um cessar-fogo, é o que ainda não sabemos”, resumiu.
A situação torna-se ainda mais paradoxal quando confrontada com as declarações da administração norte-americana. Rui Henrique Santos recorda que tanto Donald Trump como outros responsáveis da sua equipa chegaram a afirmar que a guerra tinha terminado no início de maio.
“Se não há uma guerra, se se mantém o cessar-fogo, até que ponto é possível perceber o que está a acontecer?”, questionou.
Na sua análise, os acontecimentos dos últimos dias demonstram que ambas as partes estão a utilizar a pressão militar como instrumento negocial.
“As duas partes estão a tentar sinalizar uma à outra que estão disponíveis para escalar do ponto de vista militar e essa disponibilidade demonstra que querem obter mais daquilo que está a ser negociado”, explicou.
Escalada militar para ganhar vantagens negociais
O especialista considera que tanto Teerão como Washington procuram alcançar através da pressão militar objetivos que, na realidade, só poderão ser concretizados à mesa das negociações.
“Qualquer delas quer escalar para tentar ganhar objetivos que apenas podem ser ganhos do ponto de vista negocial”, afirmou.
Na perspetiva de Rui Henrique Santos, o Irão procura evitar concessões excessivas, enquanto Donald Trump enfrenta uma pressão crescente para alcançar um entendimento que possa ser apresentado como superior ao acordo nuclear alcançado durante a administração Obama.
“Os Estados Unidos querem obter mais face àquilo que Donald Trump percebe neste momento que é hipoteticamente uma fragilidade da sua parte em não conseguir um acordo melhor do que aquilo que Obama fez em 2015”, referiu.
Ao mesmo tempo, alerta, nenhuma das partes tem interesse numa escalada descontrolada devido aos elevados custos políticos, militares e económicos.
“As partes neste momento têm mais a perder, não só do ponto de vista militar, mas acima de tudo da sua política interna e da sua política externa”, salientou.
A ressão crescente sobre Donald Trump
Questionado sobre as constantes mudanças de tom do Presidente norte-americano, que alterna entre promessas de ataques e previsões de acordos iminentes, Rui Henrique Santos identifica múltiplas fontes de pressão sobre a Casa Branca.
Uma delas é a situação económica interna dos Estados Unidos.
“Donald Trump já não tem como esconder a situação da inflação e a situação do custo de vida”, observou.
Outra prende-se com a relação cada vez mais complexa com Israel e com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.
Embora exista a perceção pública de uma forte coordenação entre ambos, o especialista lembra que o relacionamento pessoal tem sido marcado por vários episódios de tensão ao longo dos últimos anos.
“Existe aqui uma relação pessoal instável e que pode afetar o relacionamento maior entre os Estados Unidos e Israel”, afirmou.
Rui Henrique Santos recordou que Trump criticou Netanyahu em diversas ocasiões desde 2020 e manifestou desagrado quando o líder israelita felicitou rapidamente Joe Biden pela vitória nas eleições presidenciais norte-americanas.
Além disso, cresce o desconforto entre os apoiantes mais fiéis do Presidente norte-americano.
“A base MAGA cada vez está mais insatisfeita com o facto de os Estados Unidos estarem a fazer uma guerra quase a pedido de Israel”, destacou.
“Donald Trump é confrontado diariamente com o espelho”
Para o investigador, existe ainda uma dimensão mais profunda que ajuda a explicar o comportamento errático da administração norte-americana.
“A terceira dimensão, e eu acho que aí é a mais importante, é o espelho”, afirmou.
Segundo Rui Henrique Santos, Trump percebe que as constantes mudanças de posição podem estar a fragilizar a sua credibilidade internacional.
“Donald Trump reconhece que em cada dia que passa, a sua figura a dizer que vamos atacar, ou vamos resolver, ou hoje vamos atacar e depois vamos resolver, lhe dá mais fragilidade do que força”, explicou.
O especialista considera que o fracasso da estratégia inicial norte-americana contribuiu para esta situação.
“O Irão não cedeu completamente, porque era essa a sua ideia inicial: um ataque em força para se tentarem ganhar os objetivos pretendidos. Isso não aconteceu”, afirmou.
Como consequência, aliados, adversários e rivais internacionais estão atentos aos sinais de vulnerabilidade da Casa Branca.
“Neste momento está toda a gente alerta a tentar perceber as fraquezas e as fragilidades que Donald Trump tem”, declarou.
“A ficção é que se está a negociar um acordo”
Um dos aspetos mais relevantes da análise de Rui Henrique Santos prende-se com a natureza das atuais negociações.
Na sua opinião, a ideia de que Washington e Teerão estão prestes a alcançar um acordo é enganadora.
“Donald Trump está constantemente a falar de um acordo que é uma coisa que não existe”, afirmou.
Segundo explicou, aquilo que está verdadeiramente em discussão é apenas um memorando de entendimento preliminar.
“A ficção é que se está a negociar um acordo. Não há acordo nenhum. Aquilo que Donald Trump e o Irão já sinalizaram é que têm de fechar um memorando de entendimento”, sustentou.
Esse entendimento teria como principal objetivo aliviar a crise em torno do Estreito de Ormuz, um dos pontos mais sensíveis do comércio energético mundial.
Contudo, Rui Henrique Santos alerta para uma contradição fundamental. “Não se retira uma alavanca de coerção quando ela, hipoteticamente, pode ter funcionado”, argumentou.
Na sua leitura, se os Estados Unidos reduzirem a pressão antes de resolver a questão nuclear, poderão perder precisamente o principal instrumento de influência sobre Teerão.
O cenário mais provável: prolongamento do impasse
Questionado sobre os próximos meses, Rui Henrique Santos considera improvável tanto uma retirada norte-americana como uma intervenção militar terrestre de grande escala.
“Os Estados Unidos ou se vão embora, o que eu acho impensável; ou tentam uma operação militar com boots on the ground, que eu também considero impensável; ou então mantêm esta opção do meio”, afirmou.
É precisamente esta terceira hipótese que considera mais provável.
“Estamos hoje em dia a viver mais neste hiato, mais neste lapso de tempo, qual como o dia da marmota, em que diariamente vamos vivendo sempre alguma coisa nova, mas que não sai disto”, descreveu.
Ainda assim, existe uma variável que poderá alterar profundamente o rumo dos acontecimentos: Israel.
“A grande questão para Israel era derrubar o regime. E neste momento já percebeu que Donald Trump compreendeu que isso é impossível”, afirmou.
Eleições podem ditar os próximos passos
O calendário político surge igualmente como um fator determinante.
“Donald Trump quer resolver isto antes de chegar às eleições dele, que são em novembro. Netanyahu quer manter isto, ou até piorar, até outubro. Para o Irão, quer uma data quer outra são perfeitamente indiferentes”, explicou.
Essa divergência de interesses torna particularmente difícil antecipar a evolução do conflito.
No entanto, para Rui Henrique Santos, o principal problema continua a residir na ausência de uma estratégia claramente definida por parte de Washington.
“A administração norte-americana, como não consegue identificar os objetivos e não consegue neste momento saber que tipo de resolução vai dar, está numa política do dia-a-dia”, afirmou.
E concluiu com um alerta sobre a dificuldade de qualquer previsão sólida neste contexto.
“Não é possível fazer uma análise quando o ator fundamental dessa análise, que são os Estados Unidos, não tem objetivos definidos.”








