O eventual acordo de Donald Trump com o Irão pode ter um efeito paradoxal para Vladimir Putin: valida a ideia de que a pressão e a ameaça podem arrancar concessões, mas retira à Rússia parte da utilidade estratégica que ganhou durante a crise no estreito de Ormuz, escreve a ‘Newsweek’.
O entendimento inicial deverá ser assinado na Suíça esta sexta-feira, após mediação do Paquistão. O objetivo é pôr fim à guerra, reabrir o estreito de Ormuz, suspender o bloqueio naval americano ao Irão e criar uma janela de 60 dias para negociações nucleares.
A comparação usada pela revista americana é cinematográfica. No clímax de “O Bom, o Mau e o Vilão”, três homens armados formam um triângulo, cada um a tentar sobreviver fazendo os outros hesitar. No novo impasse diplomático, Washington quer reabrir Ormuz, Teerão quer alívio e Moscovo quer que a crise continue a tornar a Rússia útil.
Para Putin, o resultado pode ser bom para a sua visão do poder, mau para as receitas energéticas russas e feio para a sua capacidade de influência a longo prazo. A Rússia beneficia do caos, mas perde margem quando há acordo.
A lição perigosa: a pressão funciona
O estreito de Ormuz transportou cerca de 20,9 milhões de barris por dia de petróleo e outros líquidos petrolíferos na primeira metade de 2025, o equivalente a cerca de um quinto do consumo mundial de líquidos petrolíferos e a mais de um quarto do comércio marítimo de petróleo.
A mesma passagem concentrou cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito em 2024, sobretudo a partir do Qatar. Para Moscovo, a lição estratégica é simples: dependência é poder.
O Irão não precisou de derrotar diretamente os Estados Unidos para ganhar peso negocial. Bastou tornar a estabilidade suficientemente cara para que a diplomacia se tornasse urgente.
Segundo a ‘Newsweek’, esta lógica interessa a Putin porque pode ser replicada noutros tabuleiros. Gasodutos, rotas de cereais, navegação no mar Negro, território ocupado, ameaças nucleares e civis sequestrados podem transformar-se em instrumentos de negociação quando o outro lado valoriza a calma acima de tudo.
Um modelo que Moscovo pode querer copiar na Ucrânia
O quadro inicial para o Irão prevê uma janela de 60 dias para negociações nucleares depois do prolongamento do cessar-fogo e da reabertura de Ormuz. Esse modelo, primeiro congelar a crise e só depois discutir a solução final, é precisamente o tipo de ritmo diplomático que Putin gostaria de ver aplicado à Ucrânia.
Um cessar-fogo que deixasse a Rússia na posse de território ucraniano daria a Moscovo tempo, uma forma indireta de normalização e uma plataforma para negociações intermináveis sobre o estatuto final das zonas ocupadas.
O risco está na transformação da coerção militar em ponto de partida diplomático. No caso iraniano, o refém era uma passagem marítima essencial para o comércio de energia. Na Ucrânia, são território e pessoas.
Trump falou com Putin em 14 de junho sobre o Irão e a Ucrânia, de acordo com relatos russos citados no texto. Para Moscovo, não é necessário que Washington copie integralmente o modelo iraniano. Basta que os Estados Unidos passem a tratar impasses criados pela força como bases negociáveis.
O prémio energético que ajudou Moscovo
A crise no Irão deu, ainda que por pouco tempo, uma vantagem aos atores energéticos russos sujeitos a sanções. A subida do risco em Ormuz aumentou o valor estratégico de cada barril disponível no mercado.
Depois do acordo de prolongamento do cessar-fogo, os preços do crude caíram mais de 4%, sinal de que os mercados tinham incorporado um prémio de risco relevante associado ao estreito de Ormuz.
Antes desse alívio, os preços mais altos do petróleo tinham ajudado a aumentar as receitas de exportação da Rússia, mesmo com a economia russa limitada por falta de mão-de-obra, restrições de capacidade em tempo de guerra e baixa produtividade.
Numa crise em que cada barril parecia geopoliticamente útil, os responsáveis russos ligados à energia ganharam peso. O petróleo russo, mesmo sancionado, tornou-se menos tóxico para compradores preocupados com o abastecimento. Intermediários, comerciantes cinzentos e navios opacos também beneficiaram de um mercado mais ruidoso.
Mas o acordo ameaça desligar essa emergência. E, com ela, parte da vantagem temporária de Moscovo.
A descida do petróleo tira margem a Putin
A estabilização de Ormuz ajuda consumidores e importadores, mas prejudica Putin. Preços mais baixos reduzem a almofada financeira do orçamento russo e tornam mais fácil aplicar outros instrumentos de pressão contra Moscovo.
O Bank of Finland Institute for Emerging Economies alertou que uma descida dos preços de exportação do crude russo reduziria receitas orçamentais e deixaria o crescimento do PIB russo cerca de um ponto percentual abaixo do cenário-base em 2025 e 2026.
O orçamento russo para 2026 já assentava em pressupostos otimistas sobre preços de exportação de petróleo, crescimento e cobrança fiscal, segundo o Centre for Eastern Studies.
A descida do petróleo não derrota a Rússia por si só. Mas torna mais fácil aplicar sanções, reforçar limites de preço e aumentar a pressão sobre a economia de guerra russa sem provocar pânico nos mercados internacionais de energia.
A frota-sombra fica mais exposta
O caos é terreno favorável à logística opaca. A calma, pelo contrário, dá mais margem a inspetores, seguradoras e governos.
A frota-sombra russa, usada para transportar petróleo fora dos canais tradicionais e contornar sanções, beneficiou da confusão criada pela crise energética. Segundo o Center for Research on Energy and Clean Air, as exportações marítimas russas de petróleo aumentaram 19% em janeiro de 2026, com 49% transportadas por petroleiros-sombra sancionados.
O Kyiv School of Economics Institute estimou que 178 petroleiros carregados da frota-sombra russa, com crude e produtos petrolíferos, saíram de portos russos ou realizaram transferências entre navios em dezembro de 2025. Desse total, 89% tinham mais de 15 anos.
A União Europeia incluiu no 20º pacote de sanções contra a Rússia medidas adicionais contra a frota-sombra, restrições a infraestruturas portuárias associadas à evasão de sanções e a base para uma futura proibição de serviços marítimos ligados ao crude e aos produtos petrolíferos russos.
Se Ormuz reabrir e permanecer estável, os carregamentos russos perdem a névoa protetora da crise. Os mesmos navios que pareciam úteis durante o pânico passam a parecer mais fáceis de fiscalizar.
Irão menos dependente de Moscovo
Outro efeito negativo para Putin está na posição do próprio Irão. Rússia e Irão assinaram em Moscovo, em 17 de janeiro de 2025, um Tratado de Parceria Estratégica Abrangente, cobrindo áreas como segurança, energia, finanças, transportes e indústria.
Mas analistas do Institute for the Study of War notaram, na altura, que o pacto não incluía uma cláusula de defesa mútua. Essa limitação torna-se agora mais relevante.
A Rússia parecia alinhada com o Irão, mas não salvou Teerão da pressão que levou ao novo quadro negocial. Um Irão profundamente sancionado precisa de Moscovo. Um Irão com maior margem de manobra pode procurar alternativas, sobretudo junto da China, dos países do Golfo, da Europa ou de intermediários capazes de oferecer investimento, e não apenas simpatia política.
Moscovo poderá ainda tentar posicionar a Rosatom ou outras instituições russas como atores técnicos úteis em futuras negociações nucleares. A Rosatom já afirmou que continuará a cumprir obrigações de fornecimento de combustível e peças para a central nuclear iraniana de Bushehr, mantendo também trabalhos nas unidades dois e três.
Ainda assim, um Irão parcialmente reabilitado fica menos dependente da Rússia como intermediária antiocidental.
O foco volta à economia de guerra russa
O efeito mais difícil para Putin pode ser a perda de cobertura estratégica. Durante a crise de Ormuz, os Governos ocidentais tinham razões para agir com cautela: apertar demasiado o cerco ao petróleo russo podia acrescentar outro choque a um mercado energético já assustado.
Com Ormuz estabilizado, esse argumento perde força. E isso é mais perigoso para Moscovo do que a simples perda do prémio petrolífero, porque altera o ambiente em torno da economia de guerra russa.
Preços mais baixos do crude reduzem a almofada orçamental de Moscovo. Mercados marítimos mais calmos tornam mais fácil fiscalizar a frota-sombra. Menos pânico sobre a energia do Golfo dá à Ucrânia mais margem para continuar a atacar refinarias, depósitos, portos e infraestruturas de oleodutos russos sem ser responsabilizada por uma subida global dos preços.
A Ucrânia já tem atacado a cadeia de valor energética russa, incluindo plataformas petrolíferas, estações de bombagem, infraestruturas elétricas, locais de armazenamento, portos e refinarias, segundo uma análise do Baker Institute citada no texto.
A mesma análise sublinha que as vendas de crude e produtos refinados são a principal fonte externa de receitas da Rússia e financiam em larga medida o esforço de guerra.
O acordo corta em duas direções
O acordo de Trump com o Irão tem, por isso, dois efeitos opostos para Putin. Ajuda-o ideologicamente, porque parece recompensar a pressão e a coerção. Mas prejudica-o materialmente, porque retira a emergência que tornou o petróleo, os navios e os canais indiretos da Rússia mais valiosos.
A parte mais perigosa para Moscovo está no reposicionamento do foco ocidental. Se Ormuz estabilizar, os governos ocidentais ganham mais espaço para apertar sanções, baixar limites de preço, colocar navios em listas negras e pressionar seguradoras. Se o Irão ficar menos isolado, a Rússia perde peso como intermediária antiocidental.
A crise energética pode, assim, deixar de ser abrigo para Putin e tornar-se exposição. A pergunta que fica é se Washington e os aliados vão usar essa margem para fazer Moscovo pagar primeiro o custo de ter transformado a coerção em instrumento de negociação.













