A guerra desencadeada por Benjamin Netanyahu contra o Irão representa, para muitos analistas, a prova de que nos enganámos ao pensar que o mundo era governado pelas grandes fortunas e não pelos políticos. O conflito, que durante décadas parecia um cenário apenas hipotético, tornou-se realidade. E este novo capítulo da geopolítica global tem um nome incontornável: Donald Trump. Durante 15 anos, o jornalista Ilya U. Topper, correspondente em Istambul do jornal El Confidencial, apostava todas as primaveras uma garrafa de raki, o tradicional licor anisado turco, em como o verão seguinte não traria uma guerra entre Israel e o Irão. A “guerra fictícia”, como lhe chamava, repetia-se nos discursos e nas ameaças, mas nunca se concretizava. A razão era simples: a geografia e os interesses globais mantinham o equilíbrio. O Irão, que controla o estratégico estreito de Ormuz, poderia facilmente cortar uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo, provocando um colapso económico global em poucas semanas.
Benjamin Netanyahu manteve, durante décadas, o discurso da ameaça iraniana, denunciando alegados programas nucleares em Teerão e apelando a ataques preventivos. Contudo, as administrações norte-americanas sempre travaram a iniciativa israelita, conscientes do risco para a estabilidade mundial. Até à chegada de Trump. Com Trump na Casa Branca, esse equilíbrio foi desfeito. Segundo Topper, o presidente norte-americano, alheio às complexidades geopolíticas, retirou os travões que mantinham a paz instável na região. “Estamos mais ou menos todos sentados em cima de um grande barril de pólvora, com um psicopata a disparar para a mecha a ver se pega”, escreveu o jornalista no El Confidencial.
O bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente, seria catastrófico. Embora a maioria do petróleo siga para mercados asiáticos — China, Japão, Índia e Coreia — o impacto económico seria global. A interdependência entre as economias tornaria inevitável um colapso planetário. Topper sublinha que, na visão simplista de Trump, o mundo parece reduzir-se ao alcance das redes sociais, sem lugar para análises estratégicas ou ponderação dos efeitos das suas decisões.
Para Netanyahu, a guerra eterna é o cimento que une uma sociedade israelita profundamente dividida. O ataque do Hamas, a 7 de outubro de 2023, salvou o seu governo de um iminente colapso interno, ao desviar a atenção de uma guerra civil latente entre direita liberal e ultradireita fundamentalista. Mas, como explica Topper, agora é necessário manter o estado de pânico constante para assegurar o poder. Se não basta o Hamas, há que provocar o Hezbollah, bombardear a Síria ou agora o Irão.
Topper identifica três possíveis desfechos para este novo conflito: o primeiro seria o regresso ao equilíbrio pela força da razão, com os conselheiros de Trump a convencê-lo a travar Netanyahu, restaurando algum equilíbrio e terminando o conflito com ambos os lados a proclamarem vitória, mas com muito mais mortes. O segundo cenário seria o abandono de Israel pelos EUA, com Trump a deixar Israel entregue à sua sorte, como sugeriu o comentador Tucker Carlson, o que exporia a perda de influência de Netanyahu sobre Washington. O terceiro e pior cenário seria uma escalada total: Trump enviaria a Sétima Frota, o Irão fecharia Ormuz, a China reagiria economicamente, o dólar entraria em colapso e o mundo mergulharia numa crise sem precedentes.
Independentemente do cenário, Topper traça um futuro sombrio para Israel: o reforço do nacionalismo, do fanatismo e da teocracia, numa espiral que acabará por implodir o país. A bomba que ameaça Israel não é a nuclear iraniana, mas sim a demográfica — o crescimento da população ultraortodoxa, em contraste com o declínio dos sectores liberais que sustentam a economia tecnológica e científica do país. Perante este quadro, o jornalista prevê o agravamento do êxodo dos israelitas mais qualificados e liberais, deixando o país entregue a uma radicalização crescente. “Será um espetáculo feio de se ver”, conclui.














