A guerra no Irão terminou há cerca de dois meses, mas o seu encerramento político e diplomático está apenas agora a começar. Numa análise publicada no ’20 Minutos’, Juan Rodríguez Garat, almirante reformado da Marinha, parte de uma pergunta inevitável: afinal, quem venceu este conflito? A resposta, pelo menos para já, parece ser simples: ninguém.
O argumento central é que a guerra não alterou de forma significativa o equilíbrio regional. O ‘status quo’ manteve-se em grande parte intacto e nenhum dos principais protagonistas pode reivindicar uma vitória limpa, duradoura ou estratégica.
Trump pode dizer que venceu?
Donald Trump tem procurado apresentar o desfecho como uma vitória, sobretudo por ter desbloqueado o Estreito de Ormuz e garantido a sua utilização como via livre de portagens. Mas esse argumento é frágil: o estreito já era, por natureza, uma passagem internacional que deve permanecer aberta à navegação, à semelhança de Gibraltar.
O presidente americano também reivindica avanços no fim do programa nuclear iraniano. Essa promessa, porém, continua dependente de negociações futuras e está longe de poder ser apresentada como resultado fechado.
A guerra, neste ponto, parece ter produzido mais espetáculo político do que uma transformação estrutural. Trump pode ter conseguido apresentar uma narrativa de força, mas ainda não demonstrou que obteve uma mudança real e irreversível no comportamento do regime iraniano.
E o Irão, pode declarar vitória?
O regime iraniano também poderá tentar apresentar-se como vencedor. Resistiu ao ataque de duas grandes potências e, salvo alterações de última hora, será obrigado sobretudo a negociar o seu programa nuclear, algo que já faz há duas décadas sem nunca revelar plenamente a sua natureza.
Além disso, o arsenal de mísseis balísticos e a liderança do chamado Eixo da Resistência contra Israel parecem não ter ficado verdadeiramente em causa. À primeira vista, Teerão perdeu pouco do ponto de vista político.
Mas essa leitura ignora o preço pago. As forças armadas iranianas saem do conflito fragilizadas, mal equipadas e desacreditadas. A indústria militar sofreu danos relevantes e o principal trunfo estratégico do país, o controlo sobre o Estreito de Ormuz, mostrou ser importante, mas insuficiente para travar a ofensiva conduzida pelos Estados Unidos e por Israel.
Netanyahu também não sai vencedor
Benjamin Netanyahu também dificilmente poderá reclamar uma vitória plena. O apoio americano, essencial para a estratégia israelita, parece ter acabado por limitar a margem de manobra do primeiro-ministro israelita.
Segundo a leitura do ’20 Minutos’, as decisões recentes de Netanyahu não resultam de perda de controlo, mas do receio de que um entendimento entre Washington e Teerão o impeça de alcançar uma vitória decisiva no Líbano. Esse desfecho poderia afetar as suas hipóteses políticas e o legado que pretende deixar.
A guerra, vista por esse prisma, terá servido também interesses internos: uma tentativa de encontrar em Teerão uma saída para dificuldades políticas e judiciais em Israel. Mas o custo potencial para a região e para o mundo tornou essa estratégia demasiado arriscada para poder ser chamada de vitória.
O fracasso dos três pode ser a vitória de todos
“Na leitura de Rodríguez Garat, Trump, Netanyahu e o regime iraniano perseguiram objetivos próprios, mas nenhum conseguiu transformar o conflito numa vitória clara.
Trump terá encarado a guerra como um espetáculo de força para reforçar a sua imagem. Netanyahu procurou uma saída política e estratégica numa ofensiva regional. O regime iraniano continuou a usar o seu próprio povo e a instabilidade regional como instrumentos de poder.
Se nenhum destes objetivos saiu plenamente triunfante, talvez a conclusão seja menos pessimista do que parece. O fracasso dos três protagonistas em impor uma vitória total pode ter evitado um desfecho ainda mais perigoso.
Nesse sentido, a resposta à pergunta inicial muda ligeiramente. Quem venceu a guerra? Nenhum dos líderes envolvidos. E talvez seja precisamente por isso que todos os restantes ganharam alguma coisa.



