O chanceler alemão, Olaf Scholz, não foi informado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o seu plano de paz para a Ucrânia, apesar do papel central da Alemanha no apoio militar e financeiro a Kiev. A revelação surge após o anúncio inesperado da administração Trump de que iniciaria negociações de paz diretas com a Rússia, contornando os líderes europeus e impondo cedências territoriais a Kiev, ao mesmo tempo que insistia que a Europa deveria assumir a maior parte do apoio à Ucrânia.
Horas antes da comunicação oficial dos Estados Unidos, Scholz ainda expressava confiança na continuidade do apoio norte-americano a Kiev. Em declarações ao Politico, no âmbito do Berlin Playbook Podcast, o chanceler revelou que as suas interações com Trump e os seus assessores apontavam para um compromisso estável de Washington com a Ucrânia.
“As conversações que tive com [Trump] e que os meus assessores também tiveram com os seus assessores levam à conclusão de que podemos esperar e assumir que os EUA continuarão a apoiar a Ucrânia”, afirmou Scholz.
No entanto, mais tarde, Trump anunciou a abertura imediata de negociações com o presidente russo, Vladimir Putin. O secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, reforçou que a adesão da Ucrânia à NATO estava fora de questão e que a Europa deveria fornecer “a esmagadora maioria do apoio letal e não letal” a Kiev.
Hegseth também comunicou aos seus homólogos da NATO, reunidos em Bruxelas, que a Ucrânia não conseguirá recuperar todos os territórios ocupados pela Rússia e descartou qualquer envolvimento de tropas norte-americanas numa eventual operação de manutenção da paz.
O gabinete do chanceler alemão ainda não respondeu a pedidos de comentário sobre estas mudanças na posição de Washington.
Alemanha rejeita solução sem envolvimento dos EUA
Questionado sobre a possibilidade de a Alemanha enviar tropas para uma missão de paz na Ucrânia, Scholz sublinhou que qualquer solução teria de contar com os Estados Unidos.
“É muito claro para mim que não pode haver uma solução que não inclua os EUA, porque a unidade transatlântica deve ser sempre garantida”, afirmou o líder alemão.
A revelação de que Scholz, chefe do governo da maior economia da União Europeia, desconhecia os planos dos Estados Unidos levanta dúvidas sobre a sua convicção de que a unidade transatlântica se manteria intacta.
A Alemanha é, a seguir aos EUA, o maior fornecedor de apoio militar à Ucrânia e acolheu cerca de 1,2 milhões de refugiados ucranianos desde o início da invasão russa, há quase três anos.
“Temos apoiado a Ucrânia ao longo destes anos”, frisou Scholz. “Esta é a base para criar a perspetiva de uma solução pacífica que não seja uma paz imposta à Ucrânia. Esse deve continuar a ser o princípio: que as decisões não sejam tomadas sobre as cabeças dos ucranianos.”
Nos próximos dias, as atenções estarão voltadas para a Conferência de Segurança de Munique, onde o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, irão reunir-se com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy.
Além disso, Vance terá um encontro com Friedrich Merz, o líder da oposição conservadora alemã e favorito para suceder a Scholz como chanceler após as eleições parlamentares de 23 de fevereiro. Será o primeiro contacto de alto nível entre um membro da nova administração Trump e os conservadores alemães, que estão bem posicionados para assumir o governo.
Entretanto, o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, criticou a abordagem de Trump às negociações com Moscovo, acusando a administração norte-americana de ter feito “concessões públicas a Putin antes mesmo de as negociações começarem”.
“Na minha opinião, teria sido melhor discutir questões como a possível adesão da Ucrânia à NATO ou as perdas territoriais na mesa de negociações – e não antecipadamente”, afirmou Pistorius, membro do Partido Social-Democrata de Scholz, antes da reunião dos ministros da Defesa da NATO em Bruxelas.
A mudança na posição de Washington coloca agora pressão adicional sobre os aliados europeus, que poderão ser forçados a redefinir a sua estratégia de apoio à Ucrânia, num contexto de crescente incerteza sobre o papel dos Estados Unidos no conflito.














