Donald Trump participa este domingo, por vídeo, num grande encontro de oração no National Mall, em Washington, integrado nas celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos. O evento, chamado “Rededicate 250: A National Jubilee of Prayer, Praise & Thanksgiving”, é apresentado pelos organizadores como uma “rededicação” do país enquanto “uma nação sob Deus”, mas está a ser criticado por democratas e organizações laicas, que o acusam de promover uma narrativa nacionalista cristã sobre a história americana.
A iniciativa é organizada pela Freedom 250, estrutura ligada à programação presidencial para o semiquincentenário americano, que culmina a 4 de julho de 2026, data dos 250 anos da Declaração de Independência. O programa decorre durante várias horas e inclui música de culto, orações, testemunhos e discursos de responsáveis políticos republicanos, membros da administração Trump e líderes religiosos conservadores.
Entre os participantes anunciados estão o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson. Do lado religioso, o programa inclui figuras próximas de Trump e do universo evangélico conservador, como Franklin Graham, Paula White-Cain, Robert Jeffress e Samuel Rodriguez, além do cardeal Timothy Dolan, do bispo Robert Barron e do rabino ortodoxo Meir Soloveichik, o único líder não cristão destacado no alinhamento citado pela ‘PBS’.
Os promotores apresentam o encontro como um momento de fé e unidade nacional. Numa das mensagens associadas à iniciativa, Trump defende que os Estados Unidos foram “sustentados e fortalecidos pela oração” e apela à rededicação do país enquanto “uma nação sob Deus”. A página oficial do evento descreve a jornada como uma celebração da presença de Deus na vida nacional americana ao longo de 250 anos e um pedido de orientação para os próximos 250.
Os críticos veem outra coisa: uma tentativa de fundir identidade americana e identidade cristã, com chancela política da Casa Branca. O congressista democrata Jared Huffman acusou o evento de “sequestrar” uma celebração que deveria ser ampla e unificadora, transformando-a numa narrativa MAGA que reescreve a história dos Estados Unidos. Para organizações defensoras da separação entre Igreja e Estado, o problema não é a oração em si, mas o facto de um evento com apoio político oficial privilegiar uma leitura religiosa específica da identidade nacional.
A polémica surge num momento em que a administração Trump tem reforçado a ligação a setores cristãos conservadores. Vários participantes no Rededicate 250 integram também a Comissão de Liberdade Religiosa nomeada por Trump, enquanto uma força-tarefa da administração acusou recentemente o governo de Joe Biden de discriminação contra cristãos, num relatório criticado por grupos progressistas.
O debate tem ainda uma dimensão constitucional. Historiadores recordam que os fundadores dos Estados Unidos tinham crenças religiosas diversas e que a Constituição não estabelece uma religião oficial. A Primeira Emenda é frequentemente invocada como base da separação entre Igreja e Estado, princípio que os críticos dizem estar a ser colocado em causa por iniciativas que apresentam os Estados Unidos como uma nação essencialmente cristã.
O tema divide também a opinião pública. Uma sondagem do ‘Pew Research Center’, realizada em abril e citada pela ‘PBS’, indicou que cerca de dois em cada dez adultos americanos defendem que o Governo federal deve declarar o cristianismo como religião oficial do país; entre republicanos, essa posição sobe para cerca de um quarto. Ao mesmo tempo, 43% dos inquiridos dizem que o Governo não deve oficializar o cristianismo, mas deve promover valores cristãos, enquanto 38% defendem que não deve fazer nenhuma das duas coisas.
Para os apoiantes, o encontro deste domingo é uma celebração legítima da fé na história americana e uma forma de preparar espiritualmente o aniversário dos 250 anos dos Estados Unidos. Para os opositores, é um sinal de que a celebração nacional está a ser usada para normalizar uma leitura política e religiosa estreita do país. A disputa em torno do Rededicate 250 mostra que, nos Estados Unidos de Trump, até a comemoração da independência se transformou num campo de batalha cultural.







