Trump faz lista de ‘bons’ e ‘maus’ na NATO para castigar aliados que falharam no Irão

Trabalho foi desenvolvido antes da visita do secretário-geral da NATO, Mark Rutte, a Washington este mês, e inclui uma visão geral do contributo de cada aliado para a aliança, distribuindo os países por patamares

Francisco Laranjeira

A Casa Branca terá preparado uma espécie de lista de aliados ‘bons’ e ‘maus’ dentro da NATO, numa tentativa de distinguir os países que ajudaram os Estados Unidos durante a guerra com o Irão daqueles que recusaram ou travaram pedidos de apoio. A notícia é avançada pelo ‘POLITICO’, que cita diplomatas europeus e um responsável americano da Defesa com conhecimento do plano.

Segundo a publicação, esse trabalho foi desenvolvido antes da visita do secretário-geral da NATO, Mark Rutte, a Washington este mês, e inclui uma visão geral do contributo de cada aliado para a aliança, distribuindo os países por patamares. A administração Trump mantém os detalhes em reserva, mas a lógica, segundo fontes ouvidas pelo ‘POLITICO’, passa por premiar os aliados considerados exemplares e penalizar os que ficaram aquém das expectativas americanas durante o conflito com Teerão.

A ideia não surge do nada. Em dezembro, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, já tinha defendido que os “aliados modelo” receberiam “favor especial”, enquanto os que não cumprissem a sua parte na defesa coletiva enfrentariam “consequências”. O Pentágono retomou depois essa linguagem na Estratégia Nacional de Defesa divulgada em janeiro, ao afirmar que iria priorizar cooperação com os aliados que estivessem a fazer a sua parte.

O que continua por esclarecer é a natureza dessas consequências. Fontes citadas pelo ‘POLITICO’ admitem que a Administração Trump ainda não parece ter ideias muito concretas sobre como punir os chamados ‘maus aliados’. Entre as hipóteses em análise estará a deslocação de tropas americanas de uns países para outros, mas mesmo essa opção levanta dúvidas, até porque retirar militares de uma base europeia e reinstalá-los noutra seria caro, demorado e logisticamente complexo.

No quadro desenhado em Washington, alguns países poderão sair beneficiados. Polónia e Roménia são apontadas como potenciais vencedoras, por continuarem nas boas graças de Trump e estarem disponíveis para acolher mais tropas americanas. A Polónia já suporta quase todos os custos associados aos cerca de 10 mil militares dos EUA estacionados no país, enquanto a base aérea de Mihail Kogălniceanu, na Roménia, foi ampliada e tem margem para receber mais presença americana.

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Do outro lado estarão os aliados que recusaram ou atrasaram pedidos de apoio americano na guerra com o Irão. O ‘POLITICO’ refere Espanha, Reino Unido e França entre os países que rejeitaram ou travaram solicitações de Washington, ao passo que Roménia e vários Estados – incluindo Portugal – autorizaram o uso das suas bases aéreas. A Bulgária terá também apoiado discretamente a logística americana no Médio Oriente. Espanha já vinha, aliás, sob pressão da Administração Trump por resistir à meta dos 5% do PIB em despesa militar defendida por Washington, enquanto países bálticos e Polónia continuam a ser elogiados por surgirem no topo da NATO em esforço de defesa.

A história surge num momento de relação cada vez mais tensa entre Trump e a NATO. Nas últimas semanas, o presidente americano voltou a atacar a aliança, questionou a utilidade do pacto e ameaçou reduzir ou retirar o compromisso dos Estados Unidos se os aliados não responderem às exigências de Washington. Rutte tentou conter o dano político, reconhecendo este mês que alguns aliados europeus foram postos à prova e falharam no dossiê iraniano, ainda que tenha insistido que a maioria cumpriu os compromissos assumidos.

Mais à frente, o ‘POLITICO’ nota que a ideia de castigar aliados dentro da NATO enfrenta resistência em Washington. No Capitólio, o senador republicano Roger Wicker avisou esta semana que não ajuda ver responsáveis americanos falarem das alianças com desdém e lembrou os benefícios políticos, estratégicos e morais que os Estados Unidos retiram desses compromissos. Há também antigos responsáveis que duvidam da capacidade da administração Trump para abrir mais uma frente hostil com a Europa enquanto continua atolada na crise desencadeada pela guerra com o Irão.

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A iniciativa mostra, ainda assim, até que ponto a guerra com o Irão se transformou num novo teste de lealdade dentro da NATO. Mais do que uma discussão sobre despesa militar, o que está agora em cima da mesa é a tentativa de Trump de reorganizar a aliança com base na utilidade política e militar de cada parceiro para os interesses imediatos de Washington.

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