Desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, o sistema internacional parece ter entrado numa fase de maior fricção, mais imprevisível e menos assente nas velhas rotinas de cooperação entre aliados. As tensões comerciais voltaram ao centro da política externa americana, a relação com a Europa tornou-se mais nervosa e o conflito com o Irão reforçou a sensação de que a força continua disponível, mas a capacidade de ordenar o caos é cada vez menor.
Análises recentes apontam precisamente nessa direção: mais pressão sobre parceiros, mais diplomacia personalista e mais dúvida sobre a solidez da arquitetura internacional liderada por Washington.
Para Nuno Miguel Lemos, comentador televisivo e especialista em Política Internacional, o problema já não é apenas Donald Trump enquanto figura política. O que está em causa, defende, é uma transformação muito mais funda no modo como os Estados Unidos se relacionam com aliados, rivais e instituições. O resultado é um mundo mais tenso, mais transacional e menos seguro de si.
“Trump está a deixar uma ilusão de força e um legado muito mais tangível de desordem. A força existe, evidentemente. Os Estados Unidos continuam a ter superioridade militar, centralidade financeira e capacidade de coerção sobre quase qualquer actor. Mas uma coisa é ter poder para pressionar, outra é ter capacidade para estruturar uma ordem. E Trump tem sido muito mais eficaz na primeira do que na segunda.”
A frase resume o eixo central da análise de Nuno Miguel Lemos, que falou em exclusivo à ‘Executive Digest’: a América continua poderosa, mas a confiança na forma como usa esse poder está mais gasta. O especialista considera que os ganhos rápidos que Trump procura podem produzir efeitos táticos, mas deixam um custo sistémico mais pesado. “O seu legado não é o de uma América mais respeitada. É o de uma América mais temida, mais errática e menos previsível”, afirma.
Esse desgaste já não é apenas teórico. Nos últimos meses, vários aliados europeus passaram a falar de Washington em termos mais cautelosos, incorporando a incerteza americana como variável estratégica. Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, admitiu em março que a União Europeia já passou a integrar a “imprevisibilidade” dos Estados Unidos nos seus cálculos, enquanto a Reuters noticiou discussões sobre uma eventual redução de tropas americanas na Europa num momento de tensão renovada dentro da NATO.
Porque é que ninguém o trava? Porque Trump atua num momento em que os contrapesos estão mais fracos em quase todo o lado. Nos Estados Unidos, domina grande parte do Partido Republicano e impõe o ritmo do debate político. Entre os aliados, continua a haver dependência militar, económica e estratégica de Washington. E, no plano internacional, as instituições que deviam limitar a arbitrariedade das grandes potências estão mais fragilizadas, mais lentas e menos respeitadas. Trump aproveita esse vazio: não o criou sozinho, mas percebeu como explorá-lo melhor do que ninguém.
A Europa sob o chapéu que pode desaparecer
É neste ponto que a conversa deixa de ser abstrata e entra no terreno mais sensível para o continente europeu: a Defesa. Se Trump regressar reforçado politicamente, estará a Europa em condições de se proteger sozinha?
“A Europa não está hoje preparada para se defender sozinha, e também não estará em novembro, quer Trump regresse reforçado, quer saia politicamente enfraquecido. Está, aliás, muito longe de o conseguir fazer com verdadeira autonomia. Durante décadas, o continente habituou-se a viver sob o chapéu americano, e esse chapéu continua a ser muito bem recebido em Bruxelas, mesmo quando já devia estar claro que os chapéus também desaparecem, e por vezes desaparecem depressa.”
Na leitura do também comentador televisivo, a vulnerabilidade europeia não é apenas militar. É também mental e política. “Falta escala industrial, falta integração operacional, falta capacidade de comando e, sobretudo, falta uma cultura estratégica comum que permita pensar a segurança como responsabilidade própria e não como serviço contratado do outro lado do Atlântico.” A saída, diz, até existe, mas exige decisões que a Europa foi adiando durante demasiado tempo: mais integração na Defesa, financiamento conjunto, produção militar coordenada e um debate frontal sobre a extensão da dissuasão franco-britânica.
Se isso não acontecer, o risco não é apenas uma Europa mais exposta. É um continente mais armado, mas também mais fragmentado. É precisamente essa possibilidade que torna a relação com Washington simultaneamente indispensável e cada vez menos confortável.
O Irão e a força que já não recompõe o mundo
A escalada com o Irão é, para Nuno Miguel Lemos, uma das provas mais claras da fase internacional em que entrámos. Mostrou um mundo mais perigoso, mas também revelou os limites das grandes potências. “Os Estados Unidos e Israel demonstraram que continuam a ter capacidade para destruir em larga escala, para decapitar estruturas, para bombardear com precisão e intensidade. O que não demonstraram foi capacidade equivalente para produzir um resultado político estável.”
É aqui que, no seu entender, se encontra uma das mudanças mais importantes do sistema internacional. A superioridade militar continua a existir, mas a ideia de que essa superioridade basta para reconstruir ordem perdeu credibilidade. “O mundo de hoje é mais perigoso precisamente porque as grandes potências ainda conseguem partir muita coisa, mas já não conseguem recompo-la com a mesma facilidade.”
A guerra central continua a chamar-se China
Apesar de o Irão dominar o presente, o especialista insiste que a batalha decisiva continua a ser outra. “A verdadeira batalha global de Trump sempre foi com a China, porque é aí que se decide a disputa central do século XXI: tecnologia, indústria, energia, cadeias de abastecimento e hierarquia estratégica.” Tudo o resto conta, mas surge como derivação ou ruído periférico em comparação com esse confronto estrutural.
Ainda assim, o problema, acrescenta, é que Trump nem sempre enfrentou Pequim da forma mais eficaz. A China, sublinha, joga num tempo mais longo, com maior capacidade de absorver desgaste e de explorar distrações do rival. Vários centros de análise têm vindo a mostrar como Pequim aproveitou a concentração americana noutras frentes para reforçar posições em áreas estratégicas, ao mesmo tempo que continua a transformar interdependências económicas em instrumentos de vantagem.
Instituições frágeis, não apenas um homem forte
Nuno Miguel Lemos rejeita a ideia de que todo o problema possa ser resumido a um só nome. Trump, diz, foi central, mas não inventou sozinho a crise da ordem internacional. O que fez foi acelerá-la e expo-la sem filtros. “Trump não criou o problema, mas funcionou como um revelador brutal dele. Expôs um défice de solidez política e moral que já existia, tanto em instituições nacionais como internacionais.”
O risco, alerta, é imaginar que basta a saída de cena de Trump para tudo voltar ao normal. “O que ele deixou à vista foi algo mais estrutural: instituições que ainda produzem linguagem, legitimidade formal e procedimento, mas que têm cada vez mais dificuldade em impor previsibilidade, disciplina e confiança num mundo que regressou à lógica mais nua do poder.”
2030: menos liberal, menos inocente
É por isso que o especialista prefere evitar a expressão “mundo trumpista”, embora reconheça que o futuro tenderá a absorver vários traços do trumpismo. “Acho que será, mais rigorosamente, um mundo menos liberal, menos inocente e mais fragmentado.” A interdependência será vista cada vez menos como sinónimo de prosperidade partilhada e cada vez mais como vulnerabilidade estratégica. A cooperação não desaparecerá, mas deixará de ser automática. E a força, económica ou militar, passará a estar mais presente no centro da negociação.
No fim, a ideia que fica é desconfortável, mas clara: a velha ordem liberal já não regressa como antes. O que Trump fez foi acelerar a sua decomposição, tornar visíveis os seus vazios e habituar o mundo a viver com menos previsibilidade. E é nesse terreno, mais áspero e mais cru, que os próximos anos vão ser jogados.













