Enquanto os mísseis dos Estados Unidos continuam a atingir alvos no Irão e Donald Trump ameaça alargar os ataques a pontes, centrais elétricas e outras infraestruturas, o custo da guerra recai sobretudo sobre a população iraniana. Para os setores mais duros do regime, porém, um conflito prolongado poderá representar uma oportunidade política.
Trump apresentou-se durante anos como o presidente capaz de acabar com guerras e criticou os seus antecessores pelas longas intervenções militares no Iraque e no Afeganistão. Agora, corre o risco de ficar associado a uma nova “guerra sem fim”, escreve a ‘Newsweek’.
O Comando Central dos Estados Unidos confirmou novas vagas de ataques contra centros de comando, sistemas de defesa aérea e instalações ligadas a mísseis e drones iranianos, incluindo na região de Bandar Abbas.
Uma guerra que reforça a Guarda Revolucionária
O aparente paradoxo é explicado pela diferença entre os interesses da população iraniana e os da Guarda Revolucionária, a estrutura militar e política que ocupa uma posição central no regime de Teerão.
“Um conflito prolongado beneficia a Guarda Revolucionária porque fortalece todas as partes do seu modelo político”, afirmou Andreas Krieg, especialista em segurança no Médio Oriente e professor associado no King’s College London, citado pela Newsweek.
A guerra permite manter o país num estado permanente de mobilização, justificar a repressão interna, afastar as instituições civis das decisões e apresentar a Guarda Revolucionária como a única força capaz de defender o Irão.
O conflito preserva igualmente a principal fonte de influência internacional de Teerão: a possibilidade de perturbar a navegação no Estreito de Ormuz, ameaçar o abastecimento energético e provocar consequências económicas muito superiores à dimensão convencional das forças iranianas.
Mísseis baratos contra uma potência militar
Em termos convencionais, o Irão não dispõe de capacidade para competir com a máquina militar dos Estados Unidos. Mas não precisa de vencer uma guerra tradicional para impor custos elevados a Washington e aos seus aliados.
As reservas de mísseis e drones permitem-lhe ameaçar navios, infraestruturas energéticas e países do Golfo, demonstrando que a proximidade aos Estados Unidos também implica riscos.
O controlo do Estreito de Ormuz poderá ainda ser utilizado como moeda de troca. Teerão pode procurar garantir a passagem segura de navios de determinados países em troca de acordos comerciais, apoio diplomático ou condições económicas preferenciais.
A China tem um interesse direto na estabilidade da região, por depender de uma parte significativa das exportações energéticas do Médio Oriente. Pequim é também o principal comprador do petróleo iraniano, o que lhe dá razões para impedir o colapso do regime, mas igualmente capacidade para exigir preços mais baixos e condições mais favoráveis.
Trump entrou num conflito sem saída fácil
Os ataques aéreos podem danificar infraestruturas e agravar as dificuldades económicas da população, mas dificilmente eliminarão por completo os mísseis, os drones e as restantes capacidades ofensivas iranianas.
Também não existe garantia de que os bombardeamentos provoquem uma mudança de regime. Para desmantelar totalmente as estruturas militares iranianas seria provavelmente necessária uma longa e dispendiosa campanha terrestre, uma opção difícil de justificar perante o Congresso e a opinião pública dos Estados Unidos.
A Guarda Revolucionária acredita, por isso, que consegue suportar o sofrimento durante mais tempo do que Trump consegue tolerar a subida dos preços da energia, baixas militares, perturbações no comércio mundial e crescente contestação interna.
“Washington pode intensificar os ataques, mas não consegue alcançar os seus objetivos máximos a um custo aceitável”, explicou Krieg à ‘Newsweek’.
A oportunidade também pode transformar-se num desastre
A prolongação da guerra poderá fortalecer simbolicamente os setores mais duros, mas contém riscos profundos para o próprio regime.
O Irão precisa de receitas petrolíferas, acesso a reservas estrangeiras e atividade económica suficiente para pagar salários, manter subsídios e financiar a reconstrução.
Se os Estados Unidos avançarem para ataques contra instalações de produção e exportação de petróleo, a pressão sobre a população poderá atingir níveis sem precedentes.
Burcu Ozcelik, investigadora do Royal United Services Institute, considera que sucessivas vagas de bombardeamentos podem reforçar a imagem da Guarda Revolucionária como defensora da República Islâmica, mas sublinha que o país já está a sofrer consequências severas.
Uma população sem perspetivas económicas, confrontada simultaneamente com destruição, escassez e repressão, poderá tornar-se a maior ameaça à sobrevivência do regime.
Dependência crescente da China
A estratégia de resistência iraniana poderá ainda ter outro efeito contrário ao pretendido.
Ao procurar preservar a autonomia estratégica do país, a Guarda Revolucionária arrisca tornar Teerão cada vez mais dependente de Pequim.
A China tem atualmente razões económicas e geopolíticas para apoiar o Irão. Mas, caso conclua que os dirigentes iranianos não estão dispostos a fazer concessões para proteger o fluxo de energia, esse apoio poderá ser substituído por exigências de petróleo mais barato e condições comerciais mais duras.
O poder de negociação que Teerão procura alcançar através do Estreito de Ormuz poderia, assim, acabar por transformar-se numa relação de subordinação ao seu principal parceiro.
Os dois lados precisam de proclamar vitória
Uma saída diplomática exigiria que tanto Trump como a Guarda Revolucionária conseguissem apresentar o resultado como uma vitória.
O presidente dos Estados Unidos poderia aceitar um acordo caso conseguisse afirmar que a pressão militar obrigou o Irão a renunciar às armas nucleares e garantiu a reabertura da navegação no Estreito de Ormuz.
Para Teerão, qualquer entendimento teria de ser apresentado como prova de que a resistência obrigou Washington a recuar, preservou a soberania iraniana e permitiu obter algum alívio das sanções.
O problema é que, neste momento, não existe uma saída clara.
O memorando assinado anteriormente por Washington e Teerão deixou por resolver questões fundamentais, incluindo quem tem autoridade para definir as condições de passagem no Estreito de Ormuz e como devem ser resolvidos futuros incumprimentos.
Para a investigadora Burcu Ozcelik, a ausência de mecanismos de verificação e resolução de disputas torna difícil regressar às negociações depois do colapso do entendimento inicial.
“Nenhum dos lados está próximo de um verdadeiro acordo, mas nenhum quer também uma guerra total”, resumiu Andreas Krieg. O resultado mais provável é um ciclo prolongado de negociações, ameaças e ataques.
Trump prometeu retirar os Estados Unidos das guerras intermináveis. No Irão, porém, arrisca entregar aos setores mais duros do regime precisamente aquilo de que necessitam para justificar a sua permanência no poder: um inimigo externo, uma população mobilizada e uma guerra sem fim.



















