A visita de Trump a Pequim não deve ser lida como o nascimento de uma nova ordem mundial. Para Sandra Balão, especialista em relações internacionais, o encontro com Xi Jinping deve antes ser visto como uma tentativa de gerir uma rivalidade estratégica que já se tornou estrutural.
A cimeira pode reduzir a tensão imediata entre as duas maiores potências do mundo, mas dificilmente resolverá o conflito de fundo. Do comércio à tecnologia, de Taiwan ao Irão, passando pelos chips, pelas terras raras, pelas cadeias de abastecimento e pela posição da Europa, o que está em causa é uma competição prolongada por poder, influência e capacidade de bloqueio.
A leitura da diretora do Strategy & Strategic Studies Department do ISCSP, da Universidade de Lisboa, em exclusivo à ‘Executive Digest’, é clara: Washington continua a ser o pilar do sistema internacional, mas Pequim tornou-se indispensável em áreas onde hoje se decide parte importante da autonomia estratégica das grandes potências.
A nova ordem, se existir, não nasce de uma fotografia entre Trump e Xi. Está a formar-se nos pontos de estrangulamento da economia global, nas fábricas de semicondutores, nos minerais críticos, nas rotas energéticas, no Estreito de Taiwan e na capacidade de cada potência impedir a outra de avançar.
“Uma manobra estratégica”, não uma nova ordem
Sandra Balão afasta a ideia de que a visita de Trump a Pequim possa marcar, por si só, o início de uma nova arquitetura geopolítica. O encontro deve ser interpretado, antes de mais, como “uma manobra estratégica com o objetivo de gerir a rivalidade estratégica”.
Os indícios, explica, apontam para uma cimeira destinada a estabilizar uma relação extremamente competitiva em várias frentes: comércio, tecnologia, Taiwan e Irão. Nenhuma das partes, contudo, parece estar em posição de resolver o conflito estrutural que separa os Estados Unidos da China.
Ou seja, a cimeira pode produzir mecanismos de contenção, compromissos parciais ou canais de comunicação mais diretos, mas não elimina a lógica de competição. O resultado mais provável será uma estabilização temporária, não uma reconciliação.
A especialista antecipa, por isso, uma espécie de pausa tática: acordos limitados, mecanismos do tipo “linha direta” e uma incerteza controlada. Os fatores de fundo — competição militar, controlo tecnológico, risco de sanções e desconfiança mútua — continuarão intactos.
A pergunta central: quem manda na ordem global?
A questão decisiva é saber quem tem hoje maior capacidade para condicionar a ordem internacional. Os Estados Unidos de Trump continuam a ser centrais em termos militares, financeiros, diplomáticos e institucionais. Mas a China de Xi Jinping tornou-se demasiado importante para ser tratada apenas como potência desafiante.
Pequim é hoje indispensável em setores como minerais críticos, cadeias de abastecimento tecnológico, produção industrial e energia. Não substituiu Washington como potência dominante, mas passou a ter capacidade para travar, atrasar ou remodelar partes essenciais do sistema.
É aqui que a leitura de Sandra Balão se torna mais forte: o mundo não está apenas a trocar uma hegemonia por outra. Está a entrar numa fase de interdependência contestada, em que duas potências rivais continuam ligadas entre si, mas usam essa ligação como instrumento de pressão.
Quem tem hoje mais capacidade para condicionar a ordem internacional: os Estados Unidos ou a China?
“A resposta continua a ser os Estados Unidos em termos sistémicos, mas a China tornou-se cada vez mais indispensável em domínios específicos, especialmente em minerais críticos e em segmentos da cadeia de abastecimento tecnológico. Não parece que uma potência tenha substituído a outra, mas que a ordem está a caminhar para uma interdependência contestada, em que Washington continua a ser o pilar do sistema, enquanto Pequim pode obstruir, atrasar ou remodelar setores-chave.”
Esta é a chave da cimeira. Trump ainda chega a Pequim como líder da potência central do sistema. Mas Xi recebe-o como líder de uma potência que já não precisa de dominar tudo para condicionar muito.
Taiwan, o ponto onde a ambiguidade pode falhar
Entre todos os temas em cima da mesa, Taiwan continua a ser o ponto de maior risco militar. A política americana depende há décadas de uma ambiguidade calculada: suficiente para dissuadir Pequim de avançar, mas sem assumir compromissos tão explícitos que tornem inevitável uma escalada.
Sandra Balão alerta para três sinais que devem ser observados durante e depois da visita. O primeiro é qualquer alteração na retórica dos Estados Unidos sobre compromissos de defesa. O segundo é qualquer sinal da China sobre novas atividades militares coercivas. O terceiro é qualquer entendimento que altere o ritmo ou o alcance da venda de armas e das mensagens militares dirigidas à região.
O equilíbrio é frágil. Se Washington se afastar demasiado da ambiguidade e assumir compromissos mais firmes, pode aumentar o risco de confronto. Mas se Pequim interpretar a cimeira como sinal de hesitação americana, o risco também aumenta.
É esta tensão que torna Taiwan mais do que uma questão regional. O Estreito é hoje um teste à credibilidade dos Estados Unidos, à paciência estratégica da China e à capacidade do sistema internacional para conter uma crise com potencial global.
Irão expõe distância estratégica entre Washington e Pequim
A guerra no Irão introduz outra camada de complexidade. À primeira vista, poderia abrir espaço para alguma coordenação entre Estados Unidos e China, sobretudo se ambos quiserem evitar perturbações graves nos mercados petrolíferos e nos fluxos energéticos.
Mas Sandra Balão rejeita a ideia de que o conflito aproxime naturalmente Washington e Pequim. Pelo contrário: expõe a distância estratégica entre ambos.
A China procura segurança energética, acesso à região e estabilidade suficiente para proteger os seus interesses. Os Estados Unidos procuram pressionar Teerão e gerir a escalada de forma compatível com a sua rede de alianças no Médio Oriente.
Pode haver coordenação tática para evitar um choque mais amplo nos mercados, mas isso não significa convergência estratégica. É uma diferença importante: duas potências podem querer evitar o mesmo colapso, mas por razões opostas.
A nova política de poder: chips, IA e terras raras
A visita de Trump a Pequim também deve ser lida à luz de uma mudança mais profunda: a geopolítica já não se joga apenas em fronteiras, bases militares, tratados ou alianças. Joga-se nas cadeias de abastecimento, nos semicondutores, na inteligência artificial, nas terras raras e nos recursos que determinam a capacidade industrial e militar dos Estados.
Neste novo tabuleiro, controlar tecnologia e minerais críticos pode valer tanto como controlar território. Quem domina os chips, os sistemas de IA, os materiais estratégicos e os pontos de estrangulamento logístico ganha capacidade para condicionar adversários, proteger a sua economia e projetar poder.
A China percebeu isso cedo. Os Estados Unidos também. A Europa, muitas vezes, percebe as consequências quando as regras já estão a ser definidas por outros.
Estamos perante uma nova forma de poder global, em que controlar tecnologia e minerais vale tanto como controlar território?
“Sim, trata-se de uma nova forma de política de poder. O controlo sobre os chips, a IA, as terras raras e os fatores de produção relacionados com a energia funciona agora como uma alavanca estratégica, a par do território e da força, porque estes ativos determinam a capacidade militar, a resiliência industrial e a coerção económica. Nesse sentido, a geopolítica é cada vez mais disputada através das cadeias de abastecimento, das normas e dos pontos de estrangulamento, em vez de apenas através das fronteiras e das bases.”
Esta é uma das grandes transformações do século XXI. A guerra económica deixou de ser apenas tarifas, sanções e bloqueios comerciais. Passou a incluir normas técnicas, controlo de exportações, acesso a minerais críticos e domínio sobre tecnologias que sustentam a próxima geração de poder militar e industrial.
A Europa fora da sala, mas dentro das consequências
A cimeira entre Trump e Xi é bilateral, mas as suas consequências não o são. A Europa não está à mesa, mas será diretamente afetada por qualquer entendimento entre Washington e Pequim.
As decisões dos Estados Unidos e da China sobre chips, normas tecnológicas, controlo de exportações e cadeias de abastecimento moldam a indústria europeia e o espaço regulatório da União Europeia. Mesmo quando Bruxelas não participa na negociação, terá de lidar com os seus efeitos.
Para Sandra Balão, a ausência europeia confirma uma perda de influência na definição da agenda estratégica mais importante entre Estados Unidos e China. Mas essa perda não deve ser exagerada. A União Europeia continua a ser relevante enquanto mercado, potência reguladora e parceiro em matéria de normas tecnológicas e controlos de exportação.
O problema é outro: a Europa tem cada vez mais peso na implementação das regras, mas menos capacidade para definir a negociação estratégica que lhes dá origem.
É uma posição desconfortável. Bruxelas regula, adapta, coordena e reage. Mas, nas grandes conversas sobre a hierarquia do poder global, continua demasiadas vezes fora da sala.
Rússia, o fator perturbador
Há ainda um terceiro ator que não deve ser ignorado: a Rússia. Não está ao nível dos Estados Unidos nem da China, mas continua a ter capacidade para influenciar resultados através da guerra, da energia, da cooperação militar, do acesso ao Ártico e da relação estratégica com Pequim.
Sandra Balão descreve Moscovo como “menos uma terceira superpotência e mais um multiplicador de força”. A expressão é importante porque coloca a Rússia no lugar certo: não é capaz de substituir Washington ou Pequim, mas pode complicar a estratégia americana e reforçar a influência chinesa num sistema internacional fragmentado.
A Rússia beneficia quando os Estados Unidos estão absorvidos pela competição com a China. E beneficia da relação com Pequim porque essa proximidade reduz o isolamento em que Moscovo se encontra desde 2022.
Mas esta não é uma parceria entre iguais. A Rússia é cada vez mais o ator estratégico secundário da relação, ainda que continue a ser militarmente disruptiva e diplomaticamente útil para a China.
A importância de Moscovo está precisamente aí: não em liderar uma nova ordem, mas em agravar crises regionais, pressionar a ordem global e obrigar Washington a dividir atenção, recursos e capacidade diplomática.
Uma cimeira para conter, não para resolver
A visita de Trump a Pequim pode produzir gestos de contenção. Pode reduzir a escalada imediata. Pode criar canais de comunicação, limitar danos nos mercados e abrir espaço para acordos parciais.
Mas não deverá resolver a rivalidade entre Estados Unidos e China. Essa rivalidade já não depende apenas de líderes, ciclos eleitorais ou cimeiras diplomáticas. Está inscrita na estrutura do sistema internacional: quem controla a tecnologia, quem garante energia, quem domina cadeias de abastecimento, quem protege aliados, quem define normas e quem tem capacidade para bloquear os outros.
Sandra Balão aponta para um mundo em que a ordem global não está simplesmente a ruir nem a ser substituída por outra já pronta. Está a tornar-se mais disputada, mais fragmentada e mais dependente de equilíbrios instáveis.
Trump e Xi podem tentar gerir essa rivalidade. Podem evitar que ela se transforme numa crise imediata. Mas dificilmente conseguirão apagá-la. A imagem final é a de uma cimeira que pode travar o relógio da escalada, mas não mudar o mecanismo que o faz avançar. E esse mecanismo chama-se competição estratégica.







