Trump de olho? Gronelândia é hoje palco de eleições municipais

As eleições municipais, dos conselhos de aldeia e dos conselhos paroquiais realizam-se hoje, na Gronelândia, um território semiautónomo da Dinamarca. O escrutínio decorre num momento de particular atenção política e diplomática, marcado por recentes declarações do presidente norte-americano Donald Trump, que reiterou o seu interesse na anexação do território.

Pedro Gonçalves

As eleições municipais, dos conselhos de aldeia e dos conselhos paroquiais realizam-se hoje, na Gronelândia, um território semiautónomo da Dinamarca. O escrutínio decorre num momento de particular atenção política e diplomática, marcado por recentes declarações do presidente norte-americano Donald Trump, que reiterou o seu interesse na anexação do território.

Desde 1 de janeiro de 2025, os eleitores gronelandeses residentes no estrangeiro puderam exercer o seu direito de voto por via postal em representações diplomáticas dinamarquesas. Em particular, os votantes na Lituânia tiveram a possibilidade de votar na Embaixada da Dinamarca em Vilnius e no Consulado Honorário em Klaipeda, nos dias úteis.



A realização das eleições ocorre um dia após o novo primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, ter respondido de forma contundente às recentes declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controlo do território.

“O Presidente Trump diz que os Estados Unidos vão ter a Gronelândia. Deixem-me ser claro: os Estados Unidos não vão conseguir isso. Não pertencemos a ninguém. Somos nós que determinamos o nosso próprio futuro”, escreveu Nielsen numa publicação no Facebook.

Nielsen, eleito a 11 de março pelo partido Democratas da Gronelândia, defende uma independência gradual da Dinamarca, mas rejeita qualquer aproximação aos Estados Unidos. O político, de 33 anos, tornou-se o mais jovem primeiro-ministro da história do território.

Trump insiste na intenção de anexar a Gronelândia
Em entrevista à NBC, Trump garantiu estar convicto de que os EUA vão conseguir a Gronelândia: “Sim, 100%”. O presidente revelou ainda que existem negociações em curso sobre a possibilidade de anexação, assegurando que há uma “possibilidade de o conseguir sem força militar”. “Não tiro nada de cima da mesa”, declarou.

Segundo Trump, a questão da Gronelândia não está relacionada com a guerra na Ucrânia e a tensão com a Rússia. “Não penso nisso de todo. Não quero saber. A Gronelândia é um assunto separado, muito diferente. É paz internacional. É segurança e força internacional”, afirmou.

Visita de J.D. Vance levanta tensões diplomáticas
A polémica foi intensificada por uma recente visita ao território por parte do vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance. Embora anunciada inicialmente como uma visita de carácter privado, a deslocação incluiu uma passagem pela base militar norte-americana de Pituffik (antiga base de Thule), localizada no noroeste da Gronelândia. Durante a visita, Vance criticou abertamente a Dinamarca, afirmando que “nao fez um bom trabalho com a Gronelândia” e que “não investiram o suficiente nas pessoas da Gronelândia e na arquitetura de segurança desta massa terrestre incrível e linda”.

As declarações foram mal recebidas pelo governo dinamarquês. No sábado, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, respondeu com um tom de desagrado: “Estamos abertos a críticas, mas deixem-me ser honesto, não gostamos do tom”, afirmou. “Não é assim que se fala com aliados próximos, e eu ainda considero que a Dinamarca e os EUA são aliados próximos”.

Protestos contra pressão norte-americana
A polémica também desencadeou reações entre os cidadãos dinamarqueses, que no domingo organizaram uma manifestação em frente à embaixada dos Estados Unidos na Dinamarca. Segundo os organizadores, citados pelo jornal gronelandês Sermitisiaq, o protesto visava contestar a crescente pressão dos EUA sobre a Gronelândia. “Não é apenas sobre a visita indesejada da administração norte-americana, mas isto é transgressivo”, afirmaram os organizadores.

Com as urnas abertas hoje em todo o território, as eleições municipais na Gronelândia decorrem sob um clima de incerteza política e diplomática. O resultado do escrutínio pode ter implicações significativas para a futura relação do território tanto com a Dinamarca como com os Estados Unidos. Resta saber se os eleitores darão o seu apoio a partidos que favorecem uma maior autonomia e independência ou se preferem manter os laços históricos com Copenhaga.

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