Um importante programa financiado pelos Estados Unidos que ajudava o Nepal a monitorizar riscos climáticos, incluindo cheias e colapsos de glaciares, terminou em janeiro de 2025, na sequência do congelamento da ajuda externa decretado por Donald Trump na primeira semana do seu regresso à Casa Branca.
Mais de um ano depois, o Nepal enfrenta uma catástrofe provocada precisamente pelo colapso de um glaciar na região dos Himalaias, junto à fronteira com a China.
Segundo o ‘The Independent’, o programa SERVIR-Hindu Kush Himalaya (SERVIR-HKH) era desenvolvido conjuntamente pela NASA, pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD).
Recorria a dados de satélite, informação local e conhecimento científico para acompanhar riscos associados a cheias, lagos glaciares e abastecimento de água, além de monitorizar condições meteorológicas e alterações ambientais na região.
O financiamento dos EUA terminou no contexto dos cortes promovidos pela administração Trump e pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), que culminaram no encerramento efetivo da USAID. Segundo o jornal britânico, a ajuda internacional dos Estados Unidos caiu 57% num único ano.
Teria conseguido antecipar a catástrofe?
É uma pergunta para a qual não existe uma resposta segura.
Jeremy Konyndyk, antigo responsável pela resposta a catástrofes da USAID, reconheceu ser “difícil dizer” se o SERVIR-HKH ou outros programas da agência teriam conseguido antecipar este colapso em particular.
Mas acrescentou um dado relevante: era precisamente para acompanhar e antecipar este tipo de risco que existiam.
“Infelizmente, é difícil antecipar ou mitigar riscos climáticos que a nossa ideologia decretou que não existem”, escreveu Konyndyk, numa crítica à decisão da administração dos EUA de terminar programas relacionados com o clima.
Jean McLean, da Oxfam GB, também alertou para as consequências da retirada deste tipo de financiamento.
“Programas que combinam dados de satélite, conhecimento local e ciência climática podem desempenhar um papel fundamental para ajudar países como o Nepal a prepararem-se para acontecimentos cada vez mais perigosos”, afirmou.
Quando o financiamento desaparece, acrescentou, as comunidades vulneráveis ficam com menos instrumentos para antecipar e responder a futuras catástrofes.
Reconstrução pode custar até 5 mil milhões de dólares
A dimensão dos estragos no Nepal é já enorme.
As primeiras estimativas citadas pelo ‘The Independent’ apontam para custos de reconstrução entre quatro e cinco mil milhões de dólares, o equivalente a aproximadamente um décimo do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
O balanço final de vítimas mortais deverá ascender aos milhares.
A torrente de água, lama e grandes blocos de rocha soterrou aldeias e atingiu duramente infraestruturas energéticas. Cinco centrais hidroelétricas que estavam planeadas e nove já em funcionamento sofreram danos graves, segundo a Autoridade de Eletricidade do Nepal.
Mais de 900 trabalhadores ligados às hidroelétricas permaneciam desaparecidos à data da publicação da notícia. As centrais em funcionamento atingidas pela catástrofe representavam cerca de 8% da produção de eletricidade do Nepal.
Uma das regiões glaciares mais vulneráveis do planeta
O desastre terá sido desencadeado por um colapso glaciar na região Hindu Kush-Himalaias, junto à fronteira entre Nepal e China.
Trata-se de uma região que concentra o maior volume de gelo do planeta fora das zonas polares.
Os cientistas apontam as alterações climáticas como um importante fator de risco para este tipo de colapsos. O Nepal encontra-se particularmente exposto devido à dimensão dos seus glaciares e ao ritmo de aquecimento registado no território, que, segundo a informação citada pelo ‘The Independent’, é aproximadamente duas vezes superior à média mundial.
Tudo isto apesar de o país representar menos de 0,1% das emissões globais de gases com efeito de estufa.
O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, já pediu uma resposta internacional mais forte às alterações climáticas e apoio financeiro para ajudar o país a recuperar da catástrofe.
Daljeet Kaur, responsável pela área de justiça climática da Save the Children UK, sublinha precisamente esse desequilíbrio.
“O Nepal é um país que pouco contribuiu para o aumento das temperaturas globais e, ainda assim, é extremamente vulnerável aos seus impactos”, afirmou ao ‘The Independent’.
Para já, não é possível afirmar que a manutenção do SERVIR-HKH teria permitido prever o colapso que desencadeou a catástrofe. O que se sabe é que o programa utilizava tecnologia da NASA e conhecimento local para acompanhar precisamente cheias, glaciares e outros riscos ambientais numa das regiões mais vulneráveis do mundo — e deixou de receber financiamento dos Estados Unidos em janeiro de 2025.

















