Trump corta mais 4.000 soldados na Europa e abre nova fissura na defesa da NATO

Decisão foi tomada pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth, e comunicada ao Comando Europeu dos Estados Unidos, afetando uma brigada de combate em regime de rotação que tinha como destino a Polónia

Francisco Laranjeira

A Administração Trump travou o envio de cerca de 4.000 soldados americanos para a Europa, numa nova redução da presença militar dos Estados Unidos no continente poucos dias depois de ter sido anunciada a retirada de 5.000 militares de bases na Alemanha. Segundo o jornal espanhol ‘ABC’, a decisão foi tomada pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth, e comunicada ao Comando Europeu dos Estados Unidos, afetando uma brigada de combate em regime de rotação que tinha como destino a Polónia.

Os militares deveriam integrar a Operação Atlantic Resolve, lançada por Washington em 2014, após a anexação da Crimeia pela Rússia, para reforçar a presença americana no flanco oriental da NATO. A brigada tinha como missão trabalhar com forças aliadas, em particular na Polónia, durante uma rotação de nove meses. A imprensa americana identificou a unidade como a 2ª Brigada Blindada de Combate da 1ª Divisão de Cavalaria, uma força baseada em Fort Hood, no Texas.

A decisão surge num momento de particular tensão entre Washington e aliados europeus. Na semana passada, o Pentágono confirmou a retirada de cerca de 5.000 soldados da Alemanha, num processo que deverá decorrer ao longo dos próximos seis a 12 meses. O movimento foi anunciado depois de Trump ter ameaçado reduzir tropas no país, na sequência de declarações do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a guerra dos Estados Unidos com o Irão.

Varsóvia procurou minimizar o impacto da decisão. O ministro polaco da Defesa, Władysław Kosiniak-Kamysz, afirmou que a mudança não diz respeito especificamente à Polónia, mas se insere na revisão mais ampla da presença militar americana na Europa. A Polónia tem atualmente cerca de 10.000 militares americanos no seu território e já se tinha disponibilizado para acolher tropas retiradas da Alemanha, mas a suspensão desta rotação sugere que Washington não pretende, pelo menos para já, compensar essa saída com uma transferência direta para o flanco leste.

A preocupação europeia vai além do número de soldados. O eventual recuo americano coloca pressão sobre capacidades críticas, incluindo defesa aérea, mísseis de longo alcance e sistemas de ataque terrestre. Na Alemanha, o ministro da Defesa, Boris Pistorius, já tinha reconhecido lacunas nas capacidades de defesa e a necessidade de avaliar como compensar atrasos ou cancelamentos em programas de armamento americano.

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O problema é particularmente visível na defesa antiaérea. A Suíça anunciou que está a estudar alternativas aos sistemas Patriot americanos, depois de Washington ter informado Berna de novos atrasos e aumento de custos. Os cinco sistemas encomendados em 2022, que deveriam chegar entre 2026 e 2028, poderão só ser entregues cinco a sete anos mais tarde, devido às exigências militares dos Estados Unidos na guerra com o Irão.

Para antigos responsáveis militares americanos, a redução da presença avançada pode também prejudicar os próprios Estados Unidos. Ben Hodges, antigo comandante do Exército americano na Europa, tem defendido que as forças dos EUA não estão no continente apenas “para proteger os europeus”, mas para garantir capacidade de projeção para a Europa, África, Médio Oriente e Ártico. “Não se pode defender os Estados Unidos apenas a partir do Texas, da Carolina do Norte ou da Flórida. É necessária uma presença avançada”, afirmou.

A nova decisão de Trump reforça, por isso, a pressão sobre os aliados europeus para acelerarem o investimento em defesa e reduzirem a dependência de Washington. Para a NATO, o sinal é claro: a presença militar americana na Europa, que aumentou após a invasão russa da Ucrânia, está agora a regressar a níveis mais próximos dos anteriores a 2022, num momento em que a ameaça russa continua no centro das preocupações de segurança do continente.

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