A seis meses das eleições intercalares nos Estados Unidos, Donald Trump enfrenta o nível mais elevado de desaprovação dos seus dois mandatos. Segundo os dados divulgados, 62% dos norte-americanos rejeitam a sua gestão, num momento particularmente sensível do calendário eleitoral.
Apesar desse cenário, o Presidente mantém um apoio sólido dentro do Partido Republicano, com 85% dos eleitores republicanos a aprovarem o seu desempenho. O problema surge fora desse núcleo duro: entre os eleitores independentes, tradicionalmente decisivos nas disputas mais equilibradas, a taxa de aprovação caiu para 25%, revelando um afastamento significativo do grupo que foi determinante para o seu regresso à Casa Branca em 2024.
Não se trata de uma rutura abrupta, mas de um movimento mais discreto e estrutural. Num sistema bipartidário como o norte-americano, onde a fidelidade partidária é elevada, as maiorias constroem-se sobretudo no centro político. É precisamente aí que o desgaste se torna mais relevante.
Estabilidade nos extremos, erosão no centro
O padrão repete um fenómeno já observado nas intercalares de 2018, quando a deslocação do voto independente permitiu aos democratas recuperar a Câmara dos Representantes com mais de 40 lugares, apesar de Trump conservar uma base republicana sólida.
Entre os eleitores sem identificação partidária clara, os democratas surgem agora com vantagem de 49% contra 32% dos republicanos. Embora esta diferença não seja estrutural, revela-se suficiente para influenciar disputas em distritos competitivos.
Importa sublinhar que, nos Estados Unidos, as mudanças eleitorais raramente se traduzem numa transferência direta de votos entre partidos. O mais comum é a desmobilização: eleitores que hesitam, adiam decisões ou reduzem o envolvimento político. Esse comportamento, menos visível do que uma mudança declarada de partido, pode ser determinante no apuramento final.
Economia deixa de ser trunfo
O eixo central do desgaste situa-se na economia. Trump construiu o seu regresso ao poder com a promessa de controlar a inflação e estabilizar o custo de vida, num contexto em que o bolso dos eleitores assumia prioridade absoluta.
Contudo, a aprovação da sua gestão económica deteriorou-se, sobretudo nos indicadores mais sensíveis. Apenas 27% aprovam a forma como lida com a inflação e 23% avaliam positivamente a sua atuação face ao aumento do custo de vida.
Num país onde o desempenho económico é tradicionalmente o principal critério de voto, estes números têm um peso que ultrapassa a mera avaliação técnica: afetam diretamente a credibilidade política. Acresce que o Partido Republicano tem, historicamente, beneficiado de uma perceção de maior competência económica (aquilo que na ciência política norte-americana se designa por “issue ownership”). Essa vantagem praticamente desapareceu, deixando o eleitorado dividido.
Para muitos independentes, esse empate equivale a retirar o benefício da dúvida ao Presidente.
Guerra com o Irão agrava pressão
A política externa acrescentou um novo fator de instabilidade. A guerra com o Irão intensificou a pressão sobre os preços da energia, transferindo a dimensão geopolítica para o quotidiano dos eleitores.
O aumento do combustível tornou-se um símbolo desse impacto: pela primeira vez desde 2022, o preço ultrapassou os quatro dólares por galão. A intervenção militar é rejeitada por 66% dos norte-americanos, sendo maioritariamente vista como um risco económico adicional.
Para o eleitorado menos ideologizado, a ligação entre decisões externas e aumento do custo de vida produz efeitos políticos rápidos. A experiência quotidiana prevalece sobre indicadores macroeconómicos e, neste momento, a perceção dominante continua a ser de encarecimento generalizado.
Desgaste pessoal e dúvidas sobre liderança
Para além da economia, cresce o desgaste na avaliação pessoal do Presidente. As sondagens indicam dúvidas crescentes sobre a sua acuidade mental, estado de saúde e processo de tomada de decisão.
Mais de 70% dos norte-americanos não o consideram honesto e uma maioria também não o vê como um líder forte, uma combinação particularmente prejudicial num contexto de incerteza interna e externa.
Este tipo de avaliação enquadra-se no que os analistas designam por “valence politics”: não se discute tanto o conteúdo das propostas, mas a perceção de competência, estabilidade e credibilidade. É precisamente nesse domínio que o enfraquecimento de Trump se torna mais evidente.
Vantagem democrata, mas sem domínio claro
Na corrida ao Congresso, os democratas detêm atualmente uma vantagem de cinco pontos percentuais, diferença que sobe para nove pontos entre os eleitores mais mobilizados. Ainda assim, essa margem não garante uma maioria confortável.
O motivo é claro: o afastamento de Trump não se traduz automaticamente em adesão ao Partido Democrata. Uma parte relevante do eleitorado continua a considerar os democratas excessivamente liberais, o que limita a capacidade de absorver todo o descontentamento.
Entre 27% e 33% dos eleitores declaram não confiar em nenhum dos dois partidos para gerir questões essenciais, sinalizando um aumento da desfiliação política.
O quadro atual não aponta para uma mudança abrupta de maiorias, mas evidencia uma fragilidade crescente. Os democratas mostram maior predisposição para votar, enquanto no campo republicano se observa uma clivagem entre o núcleo mais alinhado com Trump e setores menos mobilizados.
Esta combinação (desafeição no centro e assimetria na mobilização) pode amplificar perdas marginais nos distritos decisivos.





