A possibilidade de os Estados Unidos abandonarem a NATO deixou de ser um cenário distante e passou a integrar os planos de contingência europeus. A ameaça partiu de Donald Trump, que exige um maior envolvimento dos aliados europeus no conflito com o Irão e admite retirar o apoio à Aliança caso não haja resposta.
De acordo com o ‘Wall Street Journal’, a Europa já está a preparar cenários alternativos, incluindo uma eventual NATO sem Washington ou uma redução significativa do apoio americano — hipótese descrita como uma “NATO europeia”.
Ultimato de Trump aumenta tensão na Aliança
A pressão intensificou-se após Trump ter dado um ultimato de dois dias aos aliados europeus para apresentarem soluções para desbloquear o Estreito de Ormuz. A falta de resposta concreta agravou o mal-estar, com o presidente americano a classificar a NATO como “inútil” e um “tigre de papel” que não responde quando necessário.
Em paralelo, o líder americano admite retirar tropas de países que não apoiaram a sua estratégia no Médio Oriente, incluindo o eventual encerramento de bases militares na Europa, com Espanha e Alemanha entre os principais alvos.
Europa discute reforço militar e até exército comum
Perante este cenário, cresce a discussão sobre uma maior autonomia estratégica europeia. Espanha já defendeu a criação de um exército europeu “já”, posição que encontra eco em países como França e Portugal.
A União Europeia trabalha também em medidas de emergência para responder ao impacto económico da crise energética associada ao conflito, que já implicou gastos adicionais de cerca de 22 mil milhões de euros.
Presença militar dos EUA em risco
Atualmente, os Estados Unidos mantêm cerca de 84 mil militares na Europa no âmbito da NATO. Alemanha e Itália concentram a maior presença, enquanto países como a Polónia reforçaram significativamente os contingentes após a invasão da Ucrânia.
Em Espanha, bases como Rota e Morón acolhem milhares de soldados americanos, mas o Governo espanhol recusou apoiar diretamente a operação no Irão, incluindo a utilização dessas infraestruturas, o que aumentou a tensão com Washington.
Desigualdade nos gastos com defesa agrava divisões
Outro ponto de fricção é o financiamento da NATO. Apesar de pressionar os aliados, os Estados Unidos reduziram o peso da sua contribuição para a Aliança, passando de 64% para 60%.
Na Europa, países como Espanha e Portugal continuam entre os que menos investem em defesa em percentagem do PIB, enquanto Polónia e Estados bálticos lideram os esforços, alguns já acima dos 4%.
NATO enfrenta um dos momentos mais críticos
As declarações de Trump e a crescente divergência entre aliados colocam a NATO num dos momentos de maior tensão interna das últimas décadas. A possibilidade de uma reconfiguração da segurança europeia — com menor dependência dos Estados Unidos — deixou de ser apenas teórica.
O futuro da Aliança Atlântica dependerá agora da capacidade dos aliados responderem às exigências de Washington — ou de se prepararem para um cenário sem ele.





