Trump admite afastar-se da Ucrânia e acusa Europa de estar “fraca” e “em decadência”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu que poderá retirar o apoio a Kiev, afirmando que a Rússia mantém “a vantagem” na guerra e que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deve aceitar o seu plano de paz, que exige a cedência de território a Moscovo.

Pedro Zagacho Gonçalves

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu que poderá retirar o apoio a Kiev, afirmando que a Rússia mantém “a vantagem” na guerra e que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deve aceitar o seu plano de paz, que exige a cedência de território a Moscovo. As declarações surgem numa entrevista longa, por vezes incoerente, concedida ao Politico, cuja transcrição foi divulgada esta terça-feira.

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Trump afirmou que Zelensky precisa de “entrar em campo para jogar”, uma expressão que reforça a pressão sobre a liderança ucraniana. A incapacidade do presidente norte-americano em mencionar outras cidades ucranianas além de Kiev, aliada a múltiplos erros sobre o rumo do conflito, marcou a entrevista, durante a qual voltou a defender que Moscovo mantém a “vantagem”.

No mesmo diálogo, Trump endureceu o discurso contra os parceiros europeus, que acusa de fragilidade e decadência. “A Europa está fraca, está a decair, está a destruir-se”, afirmou, ligando essa alegada degradação à imigração e recuperando argumentos frequentemente associados à teoria conspirativa da “substituição”.

O presidente dos EUA descreveu alguns líderes europeus como “realmente estúpidos” e insistiu que a política migratória do continente é “um desastre”. Sobre o futuro das relações transatlânticas, sugeriu que os países europeus poderão tornar-se aliados menos fiáveis, dizendo que a mudança demográfica faria com que “se tornem muito mais fracos e muito diferentes”.

As declarações surgem após a divulgação, na semana passada, da nova estratégia de segurança nacional dos EUA, que a administração Trump redigiu com referências a uma suposta “eliminação civilizacional” causada pela migração, e com sinais de simpatia por partidos da direita radical europeia.

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Líderes europeus classificam posições de Washington como provocação
As palavras de Trump e do vice-presidente norte-americano, JD Vance — que já tinha causado indignação durante a Conferência de Segurança de Munique em fevereiro — provocaram protestos entre dirigentes europeus.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, rejeitou frontalmente a tese de que a democracia europeia precise de intervenção de Washington, sublinhando que várias partes do documento estratégico dos EUA são “inaceitáveis” do ponto de vista europeu. “Se fosse preciso salvar a democracia, saberíamos fazê-lo sozinhos”, afirmou durante uma visita a Mainz.

Também a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, classificou o texto como uma “provocação”, enquanto o presidente do Conselho Europeu, António Costa, criticou o que considera ser uma ameaça direta de interferência política: “O que não podemos aceitar é a ameaça de interferir na política europeia”, alertou, lembrando que os discursos de Vance e os comentários frequentes de Trump “se tornaram agora doutrina oficial dos Estados Unidos”.

Trump multiplica ataques raciais e volta a visar Sadiq Khan
A entrevista incluiu ainda comentários racializados sobre grandes cidades europeias. Trump apontou Paris e Londres como exemplos de transformação indesejada, afirmando que ambos os centros urbanos são hoje “muito diferentes” porque recebem pessoas “de todas as partes do mundo”, incluindo “do Congo”, e sugerindo que entre esses migrantes estariam até indivíduos oriundos de “prisões”.

O presidente voltou a criticar o autarca de Londres, Sadiq Khan, a quem chamou “horrível, vicioso, nojento e incompetente”. Khan respondeu pouco depois, afirmando que Trump está “obsessivamente fixado” nele, acrescentando: “Não faço ideia porque é que o presidente Trump está tão obcecado com o presidente da câmara de Londres”.

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Trump evita descartar envio de tropas para a Venezuela
No plano internacional, Trump também recusou excluir a hipótese de enviar tropas norte-americanas para a Venezuela com o objetivo de derrubar o presidente Nicolás Maduro. “Não quero excluir nem incluir. Não falo sobre isso”, disse, afirmando que não discutiria estratégias militares.

Sem visão para a Europa, mas com críticas ferozes
Apesar das críticas contundentes, Trump afirmou não ter “uma visão” para o continente europeu, dizendo que a sua prioridade é apenas a política nacional: “A minha visão é a América Primeiro. Tenho olhos, ouvidos e conhecimento. Vejo o que está a acontecer e acho horrível o que se passa na Europa”.

O presidente norte-americano confirmou ainda ter apoiado líderes europeus controversos, incluindo Viktor Orbán, embora tenha insistido que deseja apenas uma “Europa forte”.

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