O papel da China na guerra da Ucrânia voltou a ser alvo de debate internacional após a troca de mensagens entre os presidentes Xi Jinping e Volodymyr Zelenski, no passado dia 24 de agosto, Dia da Independência da Ucrânia. Xi sublinhou que, nos últimos 33 anos desde o estabelecimento das relações diplomáticas, “as relações entre China e Ucrânia se desenvolveram de forma constante e a cooperação em diversos campos produziu resultados notáveis”, manifestando disponibilidade para “guiar as relações bilaterais para um desenvolvimento sustentado e de longo prazo”. Zelenski respondeu enfatizando o interesse num “diálogo bilateral de longo prazo com respeito mútuo e pelo bem da paz, estabilidade e prosperidade” (fonte: El Confidencial).
Desde o início da invasão russa em 2022, a China alegou neutralidade, mas esta postura tem sido posta em causa por vários países ocidentais e pela própria Ucrânia. Ao longo dos últimos três anos, Pequim continuou a adquirir petróleo e gás russo, forneceu tecnologia ao exército de Moscovo e apoiou encontros diplomáticos, como a reunião entre Donald Trump e Vladímir Putin em Alaska. O jornal alemão Die Welt revelou que a China terá mostrado disponibilidade para enviar tropas de paz à Ucrânia, desde que sob mandato das Nações Unidas.
O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, declarou que os garantes de segurança na Ucrânia deveriam incluir os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, Estados Unidos, França, Rússia e Reino Unido. Vladimir Putin apontou diretamente a China como elemento-chave durante o encontro com Trump. Estas propostas visam garantir presença internacional no país após um eventual acordo de paz, uma exigência reiterada por Kiev.
Reações de Kiev e dúvidas sobre a fiabilidade chinesa
O Governo ucraniano tem mostrado reticências face à possível participação chinesa. Zelenski afirmou que “apenas precisamos de garantias de segurança de países dispostos a ajudar-nos”. Os Estados Unidos apontam que a discrepância entre a retórica pacifista de Pequim e a sua cooperação com Moscovo é demasiado grande para ser ignorada. Em agosto, Kiev sancionou 39 pessoas e 55 empresas, incluindo 10 chinesas, por fornecerem componentes para os drones Shahed russos.
Analistas como Ruslan Trad, editor de Defesa e Segurança do jornal búlgaro Capital e investigador do Atlantic Council, alertam que “não se pode confiar plenamente nas forças chinesas na Ucrânia. O seu verdadeiro propósito, se forem destacadas, não está claro”. Pequim, por seu lado, tem enviado pessoal a Kursk para recolher dados sobre a guerra, observando o conflito como fonte de informação militar, mas dificilmente como força amiga da Ucrânia.
Perspetivas europeias e papel do Sul Global
Alguns especialistas defendem que países do Sul Global, incluindo a China, deveriam assumir o papel de pacificadores na Ucrânia, em alternativa a forças da União Europeia, cuja vontade de intervir militarmente é limitada. Naman Karl-Thomas Habtom, investigador da Universidade de Defesa Sueca, considera que “um breve confronto com tropas indianas ou chinesas obrigaria Moscovo a ponderar as consequências económicas, de segurança e diplomáticas”, enquanto a UE, segundo ele, “carece de credibilidade e capacidade logística para sustentar um grande destacamento de forças de paz”.
Os Estados Unidos descartaram enviar soldados, mas comprometeram-se a fornecer ativos de inteligência, supervisão e integrar-se no escudo de defesa aérea europeu. Donald Trump anunciou ainda a coordenação de garantias de segurança para a Ucrânia pós-guerra, mantendo uma presença indireta na supervisão da paz.
A postura de espera de Pequim, em coordenação estratégica com Moscovo, permite-lhe apoiar indiretamente a Rússia, mantendo controlo flexível sobre as negociações de paz e influenciando a arquitetura de segurança global sem intervenção direta no conflito. Além da China, outros membros do grupo BRICS+ e da ASEAN mostraram abertura para participar em esforços de estabilização pós-guerra, enquanto a União Africana acumula experiência em missões de manutenção de paz.
A Rússia, porém, estabeleceu limites claros: em quaisquer negociações, pretende integrar-se diretamente e não aceitar tropas ocidentais ou da NATO. O presidente finlandês, Alexander Stubb, alertou para a diferença de visão entre Europa e Moscovo sobre garantias de segurança, enquanto Samuel Charap, analista da RAND Corporation, considera que esta abordagem pode dificultar o fim do conflito.





