Dois portugueses viveram durante décadas em exploração laboral em Espanha. Um permaneceu nessa situação durante 30 anos e outro durante 15, até serem resgatados pelas autoridades em maio de 2025. Os casos, divulgados pela Polícia Judiciária no âmbito da operação “Mãos Livres”, mostram que o tráfico de seres humanos também atinge cidadãos nacionais.
A situação não é isolada. Em junho de 2025, cinco vítimas foram retiradas de exploração laboral na região espanhola de Logronho e, dois anos antes, a “Operação Worker” permitiu resgatar 15 portugueses de condições classificadas pelas autoridades como “escravatura moderna”.
Embora Portugal seja sobretudo um país de destino para vítimas de tráfico, é também país de origem e de trânsito. Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna de 2025, foram registados 34 casos de cidadãos portugueses recrutados em território nacional: 20 para exploração laboral em Portugal e 14 no estrangeiro, sobretudo nos setores agrícola e vitivinícola, sendo Espanha o principal destino.
As vítimas são maioritariamente homens adultos, entre os 26 e os 64 anos, frequentemente marcados por pobreza, desemprego prolongado, exclusão social, consumo problemático de álcool, falta de habitação ou ausência de redes familiares. No caso mais recente, os dois homens apresentavam défice cognitivo, condição que facilitou o recrutamento e o controlo.
Nuno Gradim, técnico superior da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, explica à ‘Euronews’ que estas redes procuram pessoas em situação de grande vulnerabilidade, com poucas oportunidades e menor capacidade para resistir ao aliciamento. Em alguns casos, a gravidade da exploração ultrapassa juridicamente o tráfico de pessoas e pode configurar escravatura.
A exploração laboral é atualmente a principal finalidade do tráfico de seres humanos, incidindo sobretudo na agricultura, construção civil, agropecuária, indústria têxtil, restauração, trabalho doméstico e atividades desportivas. As falsas ofertas de emprego continuam a ser uma das principais portas de entrada.
Salários muito acima da média, alojamento gratuito, transporte pago e contratação imediata são alguns dos sinais de alerta. Também devem levantar suspeitas a ausência de contrato, documentos escritos numa língua desconhecida, viagens organizadas por terceiros ou o pagamento antecipado de despesas, que depois é transformado numa dívida usada para controlar a vítima.
A atual crise da habitação pode agravar o risco. Vanessa Branco, psicóloga e coordenadora de uma equipa especializada da Associação para o Planeamento da Família, alerta que alguém sem casa pode aceitar rapidamente uma proposta de emprego com alojamento incluído, sobretudo quando o trabalho decorre numa zona isolada.
As redes recorrem cada vez mais às redes sociais e à inteligência artificial para criar anúncios, páginas e empresas falsas com uma aparência credível. A tecnologia permite tornar os esquemas mais sofisticados e alcançar pessoas vulneráveis sem depender apenas de contactos pessoais ou do tradicional “passa a palavra”.
Depois do recrutamento, o controlo pode passar pela retenção de documentos, apropriação de salários, ameaças, violência, restrições à circulação e isolamento. Algumas vítimas desenvolvem uma ligação traumática ao explorador, que simultaneamente as agride e lhes fornece alimentação, casa ou uma aparência de proteção.
A identificação continua a ser um dos maiores desafios. Muitas vítimas não reconhecem a própria exploração, recusam ajuda ou acreditam não ter alternativa. Especialistas defendem que a prevenção exige maior sensibilização, cooperação entre países, identificação precoce e respostas sociais capazes de reduzir as vulnerabilidades que permitem a estas redes atuar.














