Tribunal nos EUA vai decidir se pedir para dormir pode custar o emprego aos banqueiros

Julgamento da antiga analista da Centerview Partners arranca na próxima semana em tribunal federal de Nova Iorque e poderá ter implicações para todo o setor

Francisco Laranjeira

A garantia de nove horas de sono por noite parece um luxo em Wall Street. No caso de Kathryn Shiber, foi o centro de uma batalha judicial que promete reabrir o debate sobre as condições de trabalho na banca de investimento. O ‘Financial Times’ relatou que o julgamento da antiga analista da Centerview Partners arranca na próxima semana em tribunal federal de Nova Iorque e poderá ter implicações para todo o setor.

Shiber, então com 21 anos, começou a trabalhar na empresas nova-iorquina de fusões e aquisições em 2020. Diagnosticada com distúrbio de humor e ansiedade, acordou com a empresa um regime que lhe garantia nove horas de sono ininterrupto por noite. Em troca, estaria disponível para trabalhar nos restantes períodos, sete dias por semana.

Menos de três semanas depois de o acordo ter sido implementado, foi despedida. Shiber avançou com um processo por discriminação com base em deficiência, invocando legislação federal e estadual.

Segundo o ‘Financial Times’, o juiz federal Edgardo Ramos considerou que existe uma “controvérsia genuína” sobre se a disponibilidade permanente e horários imprevisíveis constituem uma função essencial do cargo de analista. A decisão de deixar o caso avançar para julgamento é vista como invulgar, já que muitas ações baseadas na Lei dos Direitos dos Americanos com Deficiência (ADA) são rejeitadas numa fase inicial.

Para Katherine Macfarlane, professora de Direito na Universidade de Syracuse, é “incrivelmente invulgar” que um processo deste tipo chegue a julgamento. A académica questiona a própria premissa de que estar disponível 24 horas por dia possa ser considerado um requisito essencial, sublinhando que tal expectativa excluiria um grande número de pessoas.

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A Centerview sustenta que os analistas juniores, tal como em toda a indústria, trabalham longas horas e em horários imprevisíveis, e que essa é uma consequência inerente à profissão. A empresa argumenta que a garantia de nove horas de sono foi pensada como solução temporária e que não existia “nenhuma adaptação razoável” que permitisse à analista desempenhar a função mantendo oito a nove horas de descanso contínuo.

Um dos pontos centrais do julgamento será determinar se a disponibilidade às três da manhã é realmente indispensável para o cargo ou se se trata de uma norma cultural profundamente enraizada em Wall Street. Outra questão será saber se a empresa cumpriu o chamado “processo interativo”, isto é, se discutiu de forma adequada as necessidades médicas da trabalhadora e tentou acomodá-las.

O caso ganha ainda mais relevância num contexto em que as condições de trabalho na banca de investimento têm sido alvo de críticas. Em 2021, analistas da Goldman Sachs tornaram públicas as longas jornadas e a falta de sono durante a pandemia, o que levou algumas instituições a introduzirem limites de horas e fins de semana “protegidos”.

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Shiber, licenciada pelo Dartmouth College, trabalhava num projeto de elevado perfil ligado à Duke Energy quando ocorreu o episódio que precipitou o conflito. Após se desligar do trabalho depois da meia-noite sem avisar superiores, foi repreendida e comunicou formalmente a sua necessidade médica de descanso. Dias depois, foi despedida.

A analista exige indemnizações que incluem salários futuros estimados para a próxima década, retroativos e compensação por sofrimento emocional, num total que pode ascender a vários milhões de dólares. Segundo documentos judiciais citados pelo ‘Financial Times’, desde a sua saída da Centerview terá ganho 582 mil dólares, incluindo um período no grupo financeiro da Google.

Fundada em 2006, a Centerview é considerada uma das empresas de M&A mais prestigiadas dos Estados Unidos, com receitas anuais superiores a 2 mil milhões de dólares.

O julgamento promete colocar em causa não apenas a decisão de despedimento, mas a própria cultura de trabalho em Wall Street — e questionar até que ponto a ambição e o prestígio justificam expectativas permanentes de disponibilidade total.

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