Depois de um 2025 marcado por fortes ganhos nos mercados globais, impulsionados pela resiliência dos resultados empresariais, pelo entusiasmo em torno da inteligência artificial (IA) e por um renovado apetite pelo risco, o cenário para 2026 deverá ser substancialmente mais exigente para os investidores.
A análise é de Nigel Green, fundador e CEO do deVere Group, no PWN, que alerta que a robustez registada este ano não deve ser encarada como um prenúncio do que está para vir. Embora antecipe uma continuação da subida dos mercados, o responsável considera improvável que esta aconteça com a mesma confiança refletida em muitas previsões de fim de ano.
Segundo Nigel Green, o próximo ciclo será marcado por três grandes fatores de pressão: a dificuldade em transformar o investimento em IA em lucros consistentes, a excessiva concentração dos mercados num número reduzido de grandes empresas e a volatilidade gerada por políticas económicas imprevisíveis.
Inteligência artificial: entre inovação e instabilidade
O volume de investimento em inteligência artificial ao longo de 2024 e 2025 foi sem precedentes, abrangendo infraestruturas, equipamentos, investigação e implementação. Apesar de o potencial da IA para transformar a produtividade e os modelos de negócio continuar a ser amplamente reconhecido, as expectativas do mercado atingiram níveis que irão colocar as empresas sob forte escrutínio em 2026.
“O crescimento das receitas não acompanha, de forma linear, o crescimento do investimento”, sublinha Nigel Green, acrescentando que a geração de lucros em IA é irregular, dispendiosa e sujeita a riscos de calendário. Após dois anos de forte despesa, os investidores exigem agora resultados concretos, e não apenas promessas. As empresas que não conseguirem demonstrar retornos mensuráveis poderão enfrentar correções significativas nas suas avaliações.
Concentração excessiva como risco estrutural
Outro fator de preocupação é a elevada concentração dos retornos bolsistas num pequeno grupo de empresas de grande capitalização. Esta liderança estreita cria a perceção de um mercado sólido ao nível dos índices, mas frágil na sua base.
De acordo com o CEO do deVere Group, esta situação distorce os sinais do mercado e reduz a amplitude que normalmente garante maior resiliência em períodos de instabilidade. Episódios recentes demonstraram como pequenas surpresas negativas em algumas destas empresas podem desencadear mudanças rápidas no sentimento dos investidores, fenómeno que poderá tornar-se mais visível em 2026.
Políticas económicas como fonte de volatilidade
A expectativa de cortes nas taxas de juro em várias economias desenvolvidas tem sustentado o apetite pelo risco, mas a incerteza quanto ao seu calendário permanece elevada. A inflação, embora em desaceleração, continua desigual entre regiões, e os indicadores económicos apresentam sinais contraditórios.
Além disso, a política comercial deverá continuar a gerar volatilidade. O choque provocado por alterações tarifárias registado em abril, que levou a quedas acentuadas nos mercados em poucos dias, evidenciou a sensibilidade dos investidores a mudanças abruptas. A adaptação das cadeias de abastecimento ainda está em curso, mantendo elevado o grau de imprevisibilidade.
Também a política fiscal acrescenta complexidade. Incentivos fiscais têm sustentado previsões de resultados, mas elevaram simultaneamente as exigências dos investidores, cada vez mais focados na qualidade do crescimento subjacente e menos tolerantes a desempenhos apoiados apenas por benefícios temporários.
Mais critério, menos complacência
Para Nigel Green, a conjugação destes três ventos contrários — pressão sobre os lucros em IA, concentração extrema e imprevisibilidade política — fará de 2026 um ano em que a volatilidade poderá tornar-se regra.
Apesar disso, o responsável identifica oportunidades relevantes. “Os mercados não precisam de condições calmas para gerar bons retornos, mas exigem clareza”, afirma, defendendo que o próximo ano exigirá uma seleção mais criteriosa de ativos, maior atenção à qualidade dos resultados e uma avaliação mais profunda dos riscos do que nos últimos dois anos.














