Trégua anunciada por Zelensky entra hoje em vigor e deixa Putin sob pressão antes do desfile em Moscovo

Zelensky enquadrou a decisão como uma forma de testar se é possível garantir uma verdadeira pausa nos combates. Segundo o presidente ucraniano, a Ucrânia atuará de forma recíproca a partir deste momento

Francisco Laranjeira

A trégua anunciada pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, entra hoje em vigor, a partir das 00h00 desta quarta-feira, em resposta ao cessar-fogo unilateral declarado por Moscovo para os dias 8 e 9 de maio, data em que a Rússia assinala o Dia da Vitória sobre a Alemanha nazi. Kiev diz não ter recebido qualquer pedido oficial da Rússia sobre os termos da cessação das hostilidades e defende que a vida humana vale mais do que qualquer celebração.

“Até à data, não houve qualquer pedido oficial dirigido à Ucrânia relativamente ao formato da cessação das hostilidades que estão a ser discutidas nas redes sociais russas”, escreveu Zelensky na rede social X.

“Nesse sentido, anunciamos um regime de cessar-fogo a partir das 00h00 da noite de 5 para 6 de maio”, acrescentou o presidente ucraniano.

A decisão deixa do lado de Moscovo a possibilidade de prolongar a trégua, uma vez que o Kremlin pretende a suspensão das hostilidades apenas durante as comemorações de sexta-feira e sábado, 8 e 9 de maio.

Zelensky: “A vida humana vale mais do que qualquer celebração”

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Zelensky enquadrou a decisão como uma forma de testar se é possível garantir uma verdadeira pausa nos combates. Segundo o presidente ucraniano, a Ucrânia atuará de forma recíproca a partir deste momento.

“Acreditamos que a vida humana é muito mais valiosa do que qualquer ‘celebração’ de aniversário”, afirmou.

O líder ucraniano defendeu ainda que chegou o momento de a Rússia tomar medidas concretas para acabar com a guerra. “É hora de a liderança russa tomar medidas concretas para pôr fim à guerra, especialmente tendo em conta que o Ministério da Defesa russo acredita não poder realizar um desfile em Moscovo sem a cooperação da Ucrânia”, declarou.

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Moscovo, por sua vez, anunciou um cessar-fogo unilateral para sexta-feira e sábado, coincidindo com as celebrações da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. O Ministério da Defesa russo manifestou a esperança de que Kiev siga o exemplo.

Rússia ameaça centro de Kiev com mísseis

Apesar do apelo à trégua, Moscovo acompanhou o anúncio com uma ameaça direta. O Ministério da Defesa russo avisou que, se a Ucrânia tentar impedir as comemorações do Dia da Vitória, “as Forças Armadas russas irão lançar, como retaliação, um ataque de larga escala com mísseis contra o centro de Kiev”.

Segundo a ‘France 24’, a Rússia advertiu civis em Kiev e funcionários de missões diplomáticas estrangeiras para que deixem a cidade imediatamente.

A ameaça aumenta a tensão em torno do desfile militar previsto para sexta-feira na Praça Vermelha, em Moscovo. A Rússia celebra todos os anos o Dia da Vitória com uma grande parada militar, mas o contexto atual torna a cerimónia particularmente sensível.

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Zelensky já tinha afirmado, durante a cimeira da Comunidade Política Europeia, que a Rússia teme um ataque com drones no dia do desfile.

“A Rússia anunciou um desfile em Moscovo no dia 9 de maio sem equipamento militar. Se isso acontecer, será a primeira vez em muitos, muitos anos. Não têm recursos para equipamento militar e temem que os drones sobrevoem a Praça Vermelha”, afirmou o Presidente ucraniano.

Kiev acusa Moscovo de usar tréguas como encenação

A Ucrânia tem defendido repetidamente um cessar-fogo completo e incondicional, mas acusa Moscovo de violar anteriores pausas temporárias nos combates. Kiev referiu, por exemplo, que a trégua da Páscoa foi marcada por centenas de violações russas.

A proposta russa para uma trégua apenas nos dias do Dia da Vitória é vista em Kiev como insuficiente e ligada à necessidade do Kremlin de proteger as celebrações em Moscovo.

O contexto diplomático também é incerto. A disputa ocorre numa altura em que os esforços liderados pelos Estados Unidos para tentar pôr fim à guerra parecem estar em pausa, enquanto Washington concentra atenções nos conflitos no Médio Oriente.

Frente de batalha quase parada, mas ataques continuam

Embora os combates na linha da frente estejam perto de um impasse, os ataques com drones e mísseis continuam a marcar a guerra.

Segundo uma análise da AFP com base em dados do Instituto para o Estudo da Guerra, em abril a Rússia perdeu mais território do que ganhou na Ucrânia pela primeira vez desde a contraofensiva ucraniana do verão de 2023. Moscovo terá cedido cerca de 120 quilómetros quadrados entre março e abril.

Ainda assim, os ganhos líquidos ucranianos foram marginais, representando apenas 0,02% do território da Ucrânia. Moscovo continua a ocupar pouco mais de 19% do país, incluindo áreas tomadas nas primeiras semanas da invasão de 2022 e territórios que já estavam sob controlo russo ou separatista antes da guerra.

A trégua que entra hoje em vigor coloca agora a pressão política sobre Moscovo. Se a Rússia quiser realmente uma pausa nos combates para as comemorações do Dia da Vitória, terá de decidir se aceita prolongar o silêncio das armas iniciado por Kiev ou se mantém a guerra até ao feriado que pretende proteger.

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