Escolas em toda a Bélgica estão a implementar restrições rigorosas ao uso de smartphones numa tentativa de combater o vício em ecrãs e o ciberbullying. Na Escola Internacional Bogaerts, situada perto de Bruxelas, os alunos já começaram as aulas e arrancam o dia a guardar os seus telemóveis em cacifos.
“Se os apanharmos com um telemóvel, confiscamo-lo e devolvemo-lo no final do dia”, explicou David Bogaerts, o diretor da escola, ao jornal Politico.
Centenas de escolas em Bruxelas e na região sul da Bélgica, a Valónia, estão a seguir este exemplo. Durante o verão, o novo governo da comunidade francófona anunciou planos para proibir smartphones nas escolas primárias, e também nas do ensino básico, nos três primeiros anos (5.º, 6.º e 7.º anos).
No entanto, muitas escolas decidiram não esperar pela finalização do plano e avançaram com as suas próprias proibições.
Esta tendência não se limita à Bélgica. Nos Países Baixos, já existe uma proibição semelhante, e ministros da educação em França e na Irlanda indicaram recentemente que estão a considerar medidas semelhantes.
A proibição de smartphones nas salas de aula parece ser uma solução simples diante das crescentes preocupações de que estes dispositivos são uma fonte de distração e um meio propício ao ciberbullying.
O impacto do tempo excessivo em frente a ecrãs na saúde mental das crianças tornou-se uma prioridade política. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mencionou o assunto no seu programa para o próximo mandato. “Os anos de adolescência são críticos para o desenvolvimento do cérebro e da personalidade – e também são períodos de vulnerabilidade aos danos causados pelas redes sociais e pelo tempo excessivo em frente a ecrãs”, afirmou.
As escolas tornaram-se o principal ‘campo de batalha’ nesta questão, com professores e administradores a lidarem com várias aplicações que têm o potencial de distrair os alunos do processo de aprendizagem. Algumas, como o TikTok, são amplamente conhecidas.
De acordo com Bogaerts, o Snapchat, que tem uma função de mensagens, também continua a ser muito popular entre os adolescentes. Uma aplicação mais recente, chamada TenTen, transforma o smartphone num walkie-talkie ao vivo, permitindo que os alunos conversem com amigos noutras salas de aula.
Aplicações como estas forçam as escolas a refletir sobre “como evitar abusos que possam interferir no bom funcionamento das aulas”, considera Géraldine Kamps, porta-voz da federação escolar francófona Wallonie-Bruxelles Enseignement (WBE).
A federação escolar já formulou uma resposta clara: uma proibição total de smartphones.
Alguns especialistas argumentam que estas proibições são impostas apenas porque tentativas anteriores, menos rigorosas, de regulamentar o uso de smartphones nas salas de aula já tinham falhado.
“Um tema comum nas escolas era: precisamos de ensinar as crianças a lidar com os smartphones. Fazem parte da vida delas, podem ter um lugar na escola”, disse Lieven De Marez, professor de media, tecnologia e inovação na Universidade de Gent, que também colabora com o centro de pesquisa belga Imec.
No entanto, os professores enfrentaram dificuldades em impor as suas próprias regras, simplesmente porque a vontade dos alunos de usar os smartphones era demasiado forte.
Uma proibição total tem agora a vantagem de ser clara: “Trará paz às escolas. Não haverá bullying [cibernético], os professores não serão filmados, e a capacidade de atenção será trabalhada”, afirmou De Marez.
Contudo, ele também apontou uma desvantagem: não ensinar as crianças a trabalhar ou a interagir com os smartphones entre os 12 e os 18 anos, um período crucial para o desenvolvimento da parte do cérebro que gere o foco e a atenção.
Alguns sugerem que as aplicações de smartphones poderiam até ajudar a ensinar as crianças a ter uma relação saudável com os dispositivos.
“Existem aplicações específicas no smartphone para verificar quais as apps que estão a ser usadas intensamente, ou por quanto tempo estás online”, disse Michel Walrave, professor de estudos de comunicação na Universidade de Antuérpia.
O responsável argumenta que tal poderia levar a debates em sala de aula sobre como as técnicas das redes sociais podem manter as pessoas presas aos seus telemóveis.
Em muitas escolas, os alunos já utilizam computadores portáteis durante as aulas, o que poderia ajudar a navegar no mundo digital sem a exposição prolongada aos smartphones.
“Para que precisam de um telemóvel se têm um computador?”, concluiu Bogaerts.






