Transparência salarial: o prazo chegou, mas a lei não

Opinião de Sandra Bento, Associate Director da WTW

Executive Digest

Por Sandra Bento, Associate Director da WTW

No dia 7 de junho de 2026 terminou o prazo para os Estados-Membros da União Europeia transporem a Diretiva da Transparência Salarial para o direito nacional. É uma das reformas mais ambiciosas dos últimos anos em matéria de igualdade remuneratória e promete mudar a forma como as empresas comunicam, justificam e organizam salários.

Em Portugal, porém, o prazo chega sem diploma aprovado. O Governo indicou recentemente que a transposição está a ser ultimada, mas, na prática, o quadro legal continua incompleto. Recentemente foi noticiado que o Ministério do Trabalho afirma estar a ultimar a transposição, sem que o diploma tivesse ainda avançado.

A pergunta, por isso, é simples: o que significa, na prática, chegar à data-limite sem lei nacional?

Uma diretiva que vai além da lei

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A diretiva não é apenas mais um diploma europeu. Representa uma mudança de fundo na forma como o mercado de trabalho lida com a remuneração, ao reforçar o princípio de salário igual para trabalho igual ou de valor igual.

Entre outras medidas, passa a exigir mais transparência no recrutamento, mais informação para os trabalhadores sobre remunerações comparáveis e maior capacidade das empresas para justificar diferenças salariais com critérios objetivos.

O objetivo é claro: combater desigualdades salariais persistentes, em especial entre homens e mulheres, atacando um problema estrutural que durante anos foi normalizado — a falta de transparência.

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Mais do que impor novas obrigações, a diretiva vem mudar a regra de base: salários deixam de ser um tema “opaco” e passam a exigir explicação.

O atraso legislativo é real, mas não suspende a mudança

O incumprimento do prazo tem uma consequência óbvia para o Estado: expõe Portugal a procedimentos de infração por parte da Comissão Europeia. Mas, para as empresas, o ponto mais importante é outro.

Mesmo sem lei nacional fechada, o contexto já mudou. Reguladores, candidatos, trabalhadores e investidores estão mais atentos ao tema, e a pressão sobre as organizações não depende apenas da publicação de um diploma.

Em termos práticos, a falta de transposição não significa ausência de risco. Significa apenas que a incerteza jurídica convive, desde já, com expectativas concretas sobre transparência e justificação salarial.

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Por isso, para muitas empresas, a mudança já começou. E quanto mais tarde reagirem, menor será a margem para se prepararem com critério.

Nos últimos meses, o tema ganhou novo peso no debate público e empresarial. A atenção regulatória aumentou, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) tem vindo a fiscalizar desigualdades salariais e o tema entrou também nas preocupações de candidatos, trabalhadores e investidores. A fiscalização já tem vindo a ocorrer com base no espírito da diretiva, mesmo antes da transposição formal.

O maior risco é esperar

Neste cenário, o maior risco para as empresas pode não ser imediato do ponto de vista jurídico. É, acima de tudo, um risco de preparação.

Quando a transposição nacional surgir, poderá avançar depressa e com pouca margem de adaptação. A experiência mostra que os atrasos legislativos nem sempre significam mais tempo útil para as organizações.

Para muitas empresas, isso poderá traduzir-se na revisão acelerada de estruturas salariais, em pedidos de informação por parte de trabalhadores e na dificuldade de justificar diferenças remuneratórias sem trabalho prévio de organização e análise.

As organizações de maior dimensão, em particular, deverão preparar-se para exigências acrescidas de reporte, monitorização e correção de disparidades.

Transparência não é divulgar tudo — é saber explicar

Uma das resistências mais frequentes ao tema resulta da ideia de que transparência salarial significa expor salários individuais. Não é isso que está em causa.

O que passa a ser exigido é outra coisa: a capacidade de demonstrar, com critérios claros e consistentes, como se define a remuneração. Isso implica estrutura, coerência interna e documentação capaz de sustentar decisões.

Em resumo, o debate deixa de estar centrado no segredo e passa a estar centrado na justificação.

Mais do que compliance, uma mudança de cultura

A questão já não é apenas saber se Portugal transpôs, ou quando o fará. A verdadeira questão é se as empresas estão preparadas para funcionar num contexto em que os salários têm de ser mais claros, comparáveis e justificáveis.

A transparência salarial não é apenas uma obrigação legal em formação. É uma transformação na relação entre empresas e trabalhadores, com efeitos na confiança, na atração de talento e na legitimidade das decisões remuneratórias.

O relógio já começou a contar

A não transposição da diretiva até 7 de junho representa um atraso formal do Estado, mas não adia a realidade que lhe deu origem nem a pressão que dela decorre.

O calendário legislativo português pode tardar. O calendário das empresas, esse, já começou.

Perante este novo cenário, as organizações terão de escolher entre esperar pela imposição formal das regras ou preparar-se desde já para as exigências que se aproximam.

As que começarem mais cedo estarão, muito provavelmente, em melhor posição para responder e para explicar.

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