António Miranda é um dos poucos residentes que ainda permanecem no coração de Sintra. Aos 89 anos, ele descreve a vila como “caótica”, uma opinião que ecoa entre os moradores que enfrentam os desafios do turismo de massas e do trânsito intenso.
Num típico final de manhã de verão, grupos de turistas passeiam pelas ruas estreitas de Sintra, apreciando a arquitetura e as lojas de lembranças. Entre a multidão, António Miranda, com passos lentos mas seguros, destaca-se. Tendo vivido toda a sua vida na Vila Velha, lamenta em entrevista ao Público as mudanças drásticas na sua vizinhança. “Olhe, ali era a rua onde antigamente vivia, a Rua da Biquinha,” diz, apontando para uma rua que agora é conhecida como “Biquinha Street” entre os turistas ingleses.
Os problemas enfrentados pelos residentes são numerosos. António Miranda menciona a falta de lojas essenciais e a necessidade de se deslocar a outras partes do concelho para fazer compras. “Está desertificado! É a Alfama cá do sítio,” observa, comparando o centro da vila à famosa área de Lisboa que também sofre de despovoamento. O estacionamento é outra dor de cabeça constante: “Tenho um dístico de residente para entrar, mas depois não tenho um lugar permanente. Aqui os residentes não existem.”
Os dados do censo mostram uma diminuição contínua da população no núcleo histórico de Sintra. De acordo com a Câmara Municipal de Sintra (CMS), presidida por Basílio Horta (PS), a população caiu de 3706 em 1991 para 2615 em 2021. A CMS justifica esta tendência como sendo comum em contextos nacionais e internacionais, mas afirma que está a implementar medidas para reverter este declínio. Entre essas medidas estão a compra e recuperação de edifícios abandonados para programas de arrendamento jovem e a reabilitação de imóveis municipais.
A associação QSintra tem liderado os esforços para chamar a atenção para os problemas enfrentados pelos moradores. Madalena Martins, presidente da QSintra, explica que o objetivo é mais do que simplesmente protestar; é encontrar soluções. “Sintra precisa imenso do turismo, mas, às tantas, está-se a matar a galinha dos ovos de ouro,” afirma. A associação lançou um manifesto que se foca em seis eixos principais, incluindo a revitalização da comunidade, melhor planeamento urbano e turismo de qualidade.
O trânsito é uma preocupação constante para os moradores. Madalena Martins destaca o vaivém incessante de tuk-tuks e autocarros que congestionam as ruas da vila. “Se saio de casa a partir das 10h30, demoro três quartos de hora só para estacionar o carro,” lamenta Salvador Reis, um residente de longa data. A poluição causada pelo tráfego também é um problema grave. “Não posso abrir a janela. A poluição é inacreditável,” diz Reis.
A CMS reconhece os desafios e dificuldades resultantes da pressão turística. Em resposta ao PÚBLICO, a autarquia mencionou medidas como a limitação de entradas no Palácio Nacional da Pena e na Quinta da Regaleira para reduzir a pressão turística. No entanto, a associação QSintra critica a inação do município em relação a problemas de mobilidade e regulamentos de tráfego.
Entre as soluções propostas, a criação de parques de estacionamento periféricos com ligações ao centro histórico é amplamente apoiada. A CMS já construiu um parque na zona da estação da Portela de Sintra e está a implementar outros dois parques no Ramalhão. No entanto, Madalena Martins acredita que ainda há muito a ser feito e que há terrenos disponíveis para mais soluções de estacionamento.














