Transformação de museus coloniais em indígenas é um processo político – investigador

O antropólogo brasileiro João Pacheco de Oliveira defendeu, em Lisboa, que “o processo de transformação de museus coloniais em museus indígenas (…) é um processo político”.

Executive Digest com Lusa

O antropólogo brasileiro João Pacheco de Oliveira defendeu, em Lisboa, que “o processo de transformação de museus coloniais em museus indígenas (…) é um processo político”.


João Pacheco de Oliveira foi um dos intervenientes no colóquio “Histórias da Antropologia e Restituições”, que decorreu esta semana em Lisboa, reunindo representantes dos povos indígenas Tupinambá e Guarani Kaiowá para debater os processos de restituição de artefactos espoliados durante o período colonial.


Na sexta-feira, último dia do colóquio, no Museu Nacional de Etnologia, o investigador brasileiro salientou que o tema da restituição está também relacionado com “a conquista de cidadania e a conquista de direitos”, nomeadamente no caso dos povos originários.


João Pacheco saudou os esforços recentes das ciências sociais para “repensar novos paradigmas para os museus”, com o objetivo de promover a “descolonização” das instituições museais.


Organizado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, o colóquio, que decorreu entre quarta e sexta-feira, contou com o apoio de França, através do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), e de mais de 15 instituições científicas de seis países.

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O evento reuniu investigadores portugueses, franceses, brasileiros, argentinos e colombianos.


A iniciativa contou ainda com a presença de uma artista e de um investigador oriundos de povos indígenas do Brasil. O antropólogo Tonico Benites, do povo Guarani-Kaiowá, abriu o colóquio com uma apresentação sobre a presença da cultura indígena no acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro.


Mas os Guarani não foram o único povo representado ao longo dos três dias do encontro: a artista e curadora Glicéria Tupinambá, do povo homónimo, apresentou a sua investigação artística sobre o manto Tupinambá, uma veste cerimonial sagrada feita com milhares de penas de pássaros.

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Glicéria relatou que teve de viajar até museus europeus, entre os quais o Musée du Quai Branly, em Paris, para ter acesso aos artefactos do seu próprio povo.


“Quando penso nos mantos que estão nos museus, penso neles como embaixadores, como entidades que sobreviveram a todo esse tempo histórico”, explicou a artista.


“Temos de abrir a conversa para estas perspetivas dos povos indígenas”, declarou o investigador Rodrigo Lacerda, organizador do colóquio.


“Os nossos próprios arquivos, dos antropólogos, são património dos povos indígenas”, afirmou ainda à agência Lusa.


“As memórias [indígenas] que foram dizimadas por vários colonialismos podem agora ser resgatadas de várias maneiras, e isso ficou evidente no colóquio”, acrescentou.

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Questionado sobre potenciais restituições de objetos por parte do Governo português, Rodrigo Lacerda afirmou que o pedido dos povos originários nem sempre passa pela devolução de objetos, mas por vezes “pelo acesso à informação”.


“Em alguns museus europeus que exibem objetos indígenas, não há tradução em português. Esse é um primeiro passo importante em termos de ação política (…) e, para esses povos, muitas vezes, o facto de haver objetos nos museus europeus constitui um instrumento diplomático importante”, declarou.


Por outro lado, alguns dos participantes lembraram que o colóquio não resolvia as problemáticas de desigualdade entre investigadores europeus e povos colonizados.


Uma antropóloga belga especialista do continente africano, que assistiu ao colóquio, lamentou, em declarações à Lusa, a visão ainda eurocêntrica da antropologia.


“Não são as pessoas de quem falam que vão ler os estudos”, declarou. “Quem vai assinar o estudo? É o antropólogo! (…) A academia ocidental pretende deter o conhecimento sobre esses povos”, lamentou.



ADZT/MLL // MLL

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