Há famílias para quem a tragédia de Ceuta está longe de ter terminado. Famílias que continuam sem saber exatamente o que aconteceu aos filhos, irmãos ou outros familiares desaparecidos, enquanto sobreviventes tentam regressar a uma normalidade depois de terem visto outros morrer.
Mas há uma pergunta que a tragédia deixa também para Portugal: se acontecesse uma emergência desta dimensão no nosso país, estaríamos preparados para cuidar psicologicamente de quem sobrevivesse e das famílias que ficassem?
“Honestamente, não me parece que estejamos preparados”, responde Daniela Nogueira, psicóloga clínica, membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções (SPTFE) e diretora da Comissão Organizadora Local da European Grief Conference 2026, em entrevista à ‘Executive Digest’.
“Não há um ‘facto’ a aceitar, há apenas um vazio de informação”
Para algumas famílias atingidas pela tragédia, o sofrimento tem uma característica particularmente cruel: não saber.
Morrer alguém é uma perda devastadora, mas não saber se essa pessoa morreu pode bloquear o próprio início do processo de luto. “Não existe uma hierarquia simples de sofrimento”, começa por ressalvar Daniela Nogueira. Há, contudo, fatores que podem agravá-lo — e “a incerteza é um dos mais determinantes”.
“O primeiro passo de integração de qualquer processo de luto é a aceitação da realidade da perda, ou seja, reconhecer, cognitiva e emocionalmente, que a pessoa já não vai voltar. Quando há dúvida sobre o que realmente aconteceu, este passo fica bloqueado à partida: não há um ‘facto’ a aceitar, há apenas um vazio de informação.”
É por isso que pode surgir um paradoxo difícil de compreender para quem observa de fora.
“Muitas famílias que sabem com certeza que o seu familiar morreu, por mais doloroso que seja, acabam por conseguir iniciar o seu processo de luto mais cedo do que aquelas que vivem na incerteza total”, explica.
“A pessoa fica suspensa entre dois mundos”
A psicologia dá um nome a esta situação: “perda ambígua”. A pessoa está fisicamente ausente, mas continua psicologicamente presente porque não existe confirmação da sua morte.
E a esperança, que seria normalmente encarada como uma força positiva, pode transformar-se numa prisão.
“A ausência de corpo, de identificação ou de qualquer confirmação mantém sempre uma possibilidade de esperança aberta. E é essa esperança, legítima, humana e compreensível, que paradoxalmente impede o processo de luto de sequer começar.”
Daniela Nogueira descreve-o de uma forma particularmente gráfica: “A pessoa fica suspensa entre dois mundos: não pode chorar a morte porque não sabe se ela ocorreu, mas também não consegue viver plenamente a expectativa de um reencontro, pois reconhece a sua baixa probabilidade.”
E esse estado pode prolongar-se durante anos.
“Há pessoas que não conseguem trabalhar, que deixam de conseguir manter relações sociais significativas e que ficam como que ‘congeladas’ no tempo”, explica a psicóloga, apontando também para uma maior prevalência de problemas associados, como ansiedade, ansiedade de separação e estados depressivos persistentes.
Porque é tão importante haver um corpo e uma despedida?
É também por isso que recuperar e identificar as vítimas assume uma importância que ultrapassa muito a dimensão prática.
“Os rituais e as cerimónias fúnebres […] não são apenas uma tradição ou uma mera formalidade social; têm uma função psicológica muito concreta na aceitação da realidade da morte”, explica Daniela Nogueira.
O funeral representa ainda o momento em que a comunidade reconhece formalmente aquela perda e se mobiliza em torno da pessoa enlutada. Não é por acaso, salienta, que existem rituais desta natureza em praticamente todas as culturas humanas.
“Quando não há corpo, não há funeral nem esse momento coletivo de despedida, falta à pessoa enlutada um marco simbólico fundamental para começar a organizar a sua experiência da perda.”
“Porque eu e não ele?”
Para aqueles que sobreviveram à tragédia, pode surgir um sofrimento diferente: a culpa por terem ficado vivos quando outros morreram.
“Há alívio por estar vivo, misturado com culpa por esse mesmo alívio, questionamentos como ‘porque eu e não ele?’ e, por vezes, até vergonha”, explica Daniela Nogueira.
É a chamada culpa do sobrevivente, uma resposta que a psicóloga considera “muito comum” e até “esperada” depois de uma experiência coletiva de risco extremo.
O problema surge quando esses sentimentos permanecem e não são trabalhados. Podem alimentar ansiedade, depressão e formas complicadas de luto, tornando-se crónicos.
“A longo prazo, a culpa do sobrevivente não tratada pode manifestar-se em dificuldades de vinculação, isolamento social e uma espécie de autopunição continuada, em que a pessoa sente que não tem ‘direito’ a reconstruir a sua vida.”
E se fosse em Portugal? “Não me parece que estejamos preparados”
É aqui que a tragédia de Ceuta deixa uma pergunta incómoda para Portugal.
O país recebe migrantes e pode ter de responder a pessoas que chegam depois de atravessarem experiências de violência, desaparecimento ou morte. Estará preparado para tratar também as feridas que não são visíveis?
“Honestamente, não me parece que estejamos preparados”, responde Daniela Nogueira.
“As organizações portuguesas que trabalham os processos de luto de forma especializada são ainda muito recentes. Falamos de associações fundadas há poucos anos e, tanto quanto sei, não existem ainda em Portugal especialistas em luto dedicados especificamente ao estudo e à intervenção nas temáticas migratórias.”
A psicóloga reconhece o “trabalho social e de integração muito válido” realizado pelas organizações portuguesas de apoio a refugiados. Mas identifica uma lacuna.
“O luto migratório, enquanto área de especialização clínica própria, ainda não existe de forma estruturada entre nós.”
A situação é particularmente relevante porque esta é uma área ainda relativamente recente mesmo a nível internacional. Em Portugal, considera Daniela Nogueira, o atraso é maior.
“Não existe uma resposta estruturada, articulada entre os serviços de saúde mental, as organizações de apoio a migrantes e os especialistas em luto. Continua, na prática, a ser uma realidade invisível.”
Segundo a especialista, quem chega ao país depois de sofrer perdas traumáticas durante processos migratórios “raramente” encontra acompanhamento que reconheça a especificidade dessa experiência e a sua dimensão cultural.
O tema estará, aliás, em discussão na European Grief Conference, que decorre no Porto entre 9 e 11 de setembro e terá um simpósio dedicado ao luto migratório. Daniela Nogueira espera que o encontro possa constituir “um ponto de partida para a comunidade portuguesa aprender, refletir e começar a sensibilizar-se para esta lacuna”.
Saúde mental não pode ser “um luxo posterior”
Numa emergência desta dimensão, salvar vidas, garantir alimentação, abrigo e cuidados médicos é necessariamente prioritário. Mas isso não significa, alerta a psicóloga, que a resposta psicológica possa esperar até tudo o resto estar resolvido.
“Ninguém consegue processar uma perda emocional enquanto não está em segurança, tem onde dormir ou comer. Mas isso não significa que a saúde mental deva ficar para depois.”
Os primeiros socorros psicológicos podem começar logo nas primeiras horas e não significam colocar imediatamente um sobrevivente em terapia.
“Não são terapia; são um conjunto simples de práticas de acolhimento, escuta e estabilização que qualquer profissional ou voluntário devidamente formado pode prestar.”
E a forma como uma pessoa é tratada imediatamente depois da tragédia pode ter consequências muito para lá dessas primeiras horas.
“Há investigação consistente que demonstra como a forma desadequada ou insensível como as pessoas são tratadas durante e imediatamente após a tragédia está diretamente relacionada com maior sofrimento pós-traumático mais tarde.”
Por isso, defende Daniela Nogueira, o apoio emocional deve integrar a resposta humanitária “desde o primeiro momento”, “não como um luxo posterior, mas como parte da própria resposta de emergência”.
As vítimas “não têm apenas um número, têm nome, rosto e história”
Há ainda outro elemento capaz de interferir com o trauma: a própria exposição mediática da tragédia.
Daniela Nogueira não questiona a necessidade de informar. “O direito à informação e a necessidade de sensibilizar a opinião pública são legítimos e importantes.” Mas deixa um alerta sobre a forma como sobreviventes e mortos são mostrados.
“Para as famílias, é muito duro ver os seus entes queridos reduzidos a um número num balanço de óbitos, como se não tivessem nome, rosto ou história própria.”
Imagens de corpos ou de sofrimento extremo e perguntas feitas a sobreviventes ainda em estado de choque podem, acrescenta, “reativar o trauma, em vez de ajudar a compreendê-lo”.
Informar sem voltar a traumatizar significa preservar a dignidade das vítimas, evitar a exposição desnecessária de imagens gráficas e permitir que as famílias decidam aquilo que querem — e aquilo que não querem — tornar público.
“Quando as câmaras se vão embora, o sofrimento não desaparece com elas”
E depois chega o silêncio.
Nos primeiros dias, uma tragédia mobiliza autoridades, equipas de emergência, organizações humanitárias, jornalistas e ondas de solidariedade. Essa atenção pode ser importante: traz “visibilidade, solidariedade, recursos e pressão para respostas institucionais”.
Mas acaba por desaparecer.
“O que é importante perceber é que, quando as câmaras se vão embora, o sofrimento das famílias não desaparece com elas”, alerta Daniela Nogueira.
É frequentemente nesse momento, explica, “já sem o foco mediático e sem a mobilização inicial de recursos e apoio, que começa a fase mais silenciosa, mais solitária e, para muitas famílias, mais difícil do luto”.
E é precisamente quando mais falta pode fazer uma resposta continuada que esta tende a desaparecer.
“É precisamente nesse período que uma resposta estruturada e continuada de apoio psicológico faz mais falta e é também nessa altura que ela normalmente deixa de existir.”

















