Trabalhar do outro lado da fronteira: o novo destino de imigrantes que vivem legalmente em Portugal

Procura é sobretudo feita por cidadãos de países terceiros, em especial brasileiros com autorização de residência em território português, que tentam aproveitar a falta de trabalhadores em vários setores do mercado galego

Revista de Imprensa

Há cada vez mais imigrantes radicados em Portugal a procurar emprego na Galiza, num novo fenómeno de mobilidade laboral junto à fronteira, escreve o ‘Jornal de Notícias‘. A procura é sobretudo feita por cidadãos de países terceiros, em especial brasileiros com autorização de residência em território português, que tentam aproveitar a falta de trabalhadores em vários setores do mercado galego.

A tendência junta-se ao fluxo já existente de portugueses que trabalham em Espanha. Em 2025, segundo o relatório de mobilidade transfronteiriça citado pelo ‘JN’, havia 8.895 portugueses a trabalhar no país vizinho, alguns dos quais há décadas. A diferença é que, para cidadãos portugueses ou de outros países da União Europeia, o acesso ao mercado laboral espanhol é muito mais simples do que para estrangeiros de fora da UE que vivem legalmente em Portugal.

O fenómeno está a ser acompanhado pelo serviço Eures Transfronteiriço Galiza – Norte de Portugal, entidade de referência para quem procura orientação sobre emprego do outro lado da fronteira. Teresa Ventín, coordenadora do serviço, afirma que recebe “todos os dias” imigrantes com autorização de residência em Portugal a pedir informações sobre oportunidades de trabalho na Galiza.

Galiza precisa de trabalhadores

A procura por emprego do lado espanhol é impulsionada pela escassez de profissionais na Galiza. Segundo Teresa Ventín, há falta de mão-de-obra em áreas como hotelaria, construção civil, saúde, cuidados a idosos, transportes e serviços.

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A responsável enumera necessidades em profissões como cozinheiros, empregados de mesa e de balcão, trabalhadores de hotéis, profissionais de lares de terceira idade, enfermeiros, fisioterapeutas, soldadores, trabalhadores da construção civil e motoristas. Do lado dos empregadores galegos, a mensagem é clara: há ofertas, mas faltam candidatos disponíveis para preencher as vagas.

Essa realidade tem tornado o mercado galego mais atrativo para quem vive no Norte de Portugal, incluindo imigrantes que já têm residência legal em território português. O problema é que a autorização de residência em Portugal não equivale automaticamente ao direito de trabalhar em Espanha.

Regras diferentes para quem não é da UE

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Ao ‘Jornal de Notícias’, Teresa Ventín explica que as regras mudam consoante a nacionalidade do trabalhador. Um cidadão português ou belga que queira trabalhar em Espanha pode procurar uma oferta, chegar a acordo com o empregador e iniciar o processo laboral praticamente nas mesmas condições de um cidadão espanhol.

Já um cidadão brasileiro, venezuelano ou argentino com residência legal em Portugal enfrenta um procedimento diferente. Primeiro tem de encontrar uma oferta e obter acordo com um empregador. Depois, é o empregador espanhol que tem de apresentar uma proposta à autoridade de estrangeiros em Espanha.

Essa proposta é analisada em função do mercado de trabalho local e pode ser aceite ou recusada. Ou seja, mesmo tendo autorização de residência permanente em Portugal, o trabalhador de fora da União Europeia precisa de uma autorização de trabalho espanhola para exercer atividade do outro lado da fronteira.

Autorização limitada à zona fronteiriça

Há ainda outra limitação relevante: quando Espanha concede essa autorização, ela aplica-se apenas ao trabalho no espaço fronteiriço, nas regiões limítrofes com Portugal. Não se trata, portanto, de uma autorização geral para trabalhar em qualquer ponto do território espanhol.

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Este detalhe cria uma diferença importante entre imigrantes residentes em Portugal e cidadãos da União Europeia. Enquanto portugueses e outros europeus beneficiam da livre circulação laboral, os cidadãos de países terceiros continuam dependentes de uma autorização específica, condicionada à análise das autoridades espanholas.

Ainda assim, a procura continua a crescer. A falta de trabalhadores na Galiza e a proximidade geográfica com o Norte de Portugal estão a transformar a fronteira num espaço laboral cada vez mais procurado, mas também marcado por regras distintas, processos administrativos e limitações legais que nem todos os candidatos conhecem quando começam a procurar emprego do outro lado.

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