As forças russas foram obrigadas a abandonar cerca de 240 quilómetros quadrados de território num dos principais eixos da ofensiva no Donbas, numa contraofensiva ucraniana que decorreu durante vários meses e que terá frustrado os planos de Moscovo para envolver pelo norte as cidades estratégicas de Sloviansk e Kramatorsk.
O avanço ucraniano ocorreu a norte de Lyman, na região de Donetsk, e é apontado por analistas militares como um revés importante para a Rússia, embora localizado e ainda insuficiente para representar uma mudança decisiva no rumo da guerra.
Segundo o ‘Kyiv Post’, os primeiros relatos sobre a dimensão da operação foram divulgados pelo analista OSINT francês Clément Molin e posteriormente corroborados por avaliações da Rochan Consulting e do Institute for the Study of War (ISW).
O ISW confirma que as operações ucranianas dos últimos meses conseguiram eliminar o saliente russo a norte de Lyman e perturbar o plano de Moscovo para cercar pelo norte o chamado “cinturão de fortalezas” ucraniano em Donetsk.
After 4 months of the Lyman counter-attack, Ukraine 🇺🇦 3rd Army Corps managed to cut Russian 🇷🇺 salient north of Lyman and liberate more than 200 km2
Continue a ler após a publicidadeContinue a ler após a publicidadeThis is one of the most important victory for Ukraine in 2026 which will delay the offensive on northern Donbas
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— Clément Molin (@clement_molin) September 8, 2026
Uma contraofensiva feita durante meses
Ao contrário de uma grande operação lançada num único momento, o avanço ucraniano foi construído progressivamente.
Konrad Muzyka, diretor da Rochan Consulting, estima que a contraofensiva decorreu ao longo de aproximadamente quatro meses.
As forças ucranianas recuperaram Nove em junho, chegaram à zona de Kolodezi em meados de agosto e lançaram posteriormente outra operação entre Katerynivka e Novolyubivka.
O movimento permitiu ameaçar as linhas de abastecimento das forças russas que avançavam na direção de Lyman e obrigou unidades de Moscovo a recuar.
Segundo Muzyka, a Rússia perdeu o controlo de aproximadamente 240 quilómetros quadrados neste eixo.
As estimativas não são, contudo, totalmente uniformes. Diferentes análises de fontes abertas colocam a área recuperada pela Ucrânia aproximadamente entre 150 e 250 quilómetros quadrados.
The most important effect of the Ukrainian counterattack north of Lyman is that it thwarted Russia’s attempt to envelop the Slovyansk–Kramatorsk agglomeration from the north. We assess that Russian forces have lost control of approximately 240 km² there. By comparison, they have… https://t.co/Iw2GdPfgxP pic.twitter.com/nkYJvLL54G
— Konrad Muzyka – Rochan Consulting (@konrad_muzyka) September 10, 2026
Meses de avanços russos foram anulados neste eixo
A importância da operação não está apenas no território.
Segundo o ISW, as forças ucranianas conseguiram reverter neste setor os ganhos territoriais obtidos pela Rússia desde o início de março.
Moscovo procurava avançar a partir da zona de Lyman, atravessar o rio Siverskyi Donets e progredir para oeste e sudoeste, numa tentativa de pressionar Sloviansk e, juntamente com outros eixos de ataque, envolver o conjunto de cidades fortificadas ainda controladas pela Ucrânia na região de Donetsk.
A eliminação do saliente russo a norte de Lyman veio perturbar essa estratégia.
O objetivo russo mais amplo passa por aumentar a pressão sobre Sloviansk e Kramatorsk, duas das principais cidades que permanecem sob controlo ucraniano no Donbas.
Há tropas russas cercadas?
É aqui que as avaliações exigem maior prudência.
Valery Shiryaev, especialista militar russo, afirmou que forças ucranianas conseguiram atravessar uma antiga linha defensiva e chegar à retaguarda das tropas russas na zona de Lyman.
Segundo Shiryaev, algumas unidades russas ficaram “totalmente cercadas”, embora tenha descrito a situação sobretudo como um “cerco operacional”, com militares russos ainda presentes em várias localidades na zona de Shandryholove e dependentes de abastecimento aéreo.
Fontes militares russas também reconheceram uma deterioração da situação.
O ISW refere alegações de fontes russas segundo as quais forças ucranianas terão cercado duas unidades russas de dimensão equivalente a companhias e quatro pelotões na zona de Ivanivka, cortando provavelmente o abastecimento terrestre à localidade.
Mas o instituto dos EUA deixa uma ressalva importante: a configuração exata da linha da frente e a dimensão completa dos avanços ucranianos continuam pouco claras devido à escassez de evidência pública disponível.
Por isso, não é ainda possível determinar de forma independente quantos militares russos estarão efetivamente isolados.
Russos apontam falhas dentro do próprio comando
O revés provocou críticas entre fontes russas próximas da guerra.
Segundo o ‘Kyiv Post’, o canal militar russo Rybar atribuiu os problemas a “mentiras sistémicas nos relatórios aos superiores” e a uma avaliação incorreta da situação no terreno.
O canal advertiu ainda que enviar reservas para tapar as falhas criadas na frente de Lyman poderá enfraquecer posições russas noutros setores e criar novas oportunidades para as forças ucranianas.
Shiryaev estabeleceu igualmente uma comparação com os problemas anteriormente enfrentados pela Rússia em Kupiansk, acusando a estrutura de comando de transmitir para os níveis superiores uma imagem demasiado otimista da situação militar.
Putin anunciou uma conquista que não aconteceu
O episódio ganha particular relevância depois das declarações feitas por Vladimir Putin no início de setembro.
O presidente russo afirmou a 1 de setembro que as forças russas tinham conquistado Sviatohirsk, cidade situada a noroeste de Lyman.
As evidências disponíveis não sustentam essa afirmação.
O comandante do 3.º Corpo de Exército ucraniano, general de brigada Andriy Biletsky, rejeitou publicamente a alegada conquista e publicou posteriormente um vídeo gravado no centro de Sviatohirsk.
A 6 de setembro, a Administração Militar Regional de Donetsk afirmou igualmente que a cidade permanecia sob controlo ucraniano, embora sujeita a intensos ataques russos.
O ISW já tinha concluído que a alegação de Putin não correspondia à realidade observável no terreno. O instituto estimava que, mesmo no ponto máximo dos avanços russos durante o final da primavera e início do verão, as forças de Moscovo tinham ficado a cerca de 13 quilómetros da cidade.
Um problema para os planos de conquistar Donetsk
O Kremlin continua a apresentar a conquista integral da região de Donetsk como um dos grandes objetivos militares da guerra.
Segundo informações publicadas pela ‘Bloomberg’ e citadas pelo ‘Kyiv Post’, Putin terá estabelecido um novo horizonte de seis meses para conseguir esse objetivo, depois de sucessivos prazos anteriores não terem sido cumpridos.
O ISW contabiliza pelo menos 15 ocasiões em que Putin estabeleceu diferentes prazos para a conquista total de Donetsk sem que as forças russas os tenham conseguido cumprir.
A situação em Lyman introduz agora uma dificuldade adicional.
Ao empurrar as forças russas para leste e eliminar o saliente criado a norte da cidade, a Ucrânia dificultou a tentativa de Moscovo de avançar sobre Sloviansk pelo norte.
Ucrânia pode ganhar mais 10 a 15 quilómetros para os drones
O terreno recuperado poderá ainda produzir uma vantagem que não aparece diretamente nos mapas.
Se as forças ucranianas conseguirem consolidar as novas posições, os operadores de drones poderão aproximar-se da retaguarda russa.
Shiryaev estima que isso poderá acrescentar entre 10 e 15 quilómetros ao alcance efetivo dos drones FPV ucranianos sobre posições russas, aumentando a capacidade de atacar unidades, veículos e linhas logísticas que apoiam o avanço na direção de Sloviansk.
O analista militar Yan Matveyev considera igualmente que a situação cria oportunidades para a Ucrânia ao longo desse eixo.
Mas deixa uma distinção importante.
Trata-se de uma crise séria para as forças russas, mas localizada.
Essa é também a cautela presente noutras análises militares. A Ucrânia recuperou terreno, obrigou a Rússia a recuar e perturbou um dos planos de aproximação a Sloviansk e Kramatorsk, mas os cerca de 240 quilómetros quadrados não representam, por si só, uma viragem da guerra.
Representam, isso sim, um dos reveses territoriais mais significativos sofridos recentemente por Moscovo num eixo onde a Rússia pretendia continuar a avançar.



















