“Tornar-te o pior pesadelo das mulheres”: Jogo na maior plataforma do mundo gera indignação internacional por promover violência sexual contra personagens femininas

Entre os conteúdos descritos e visíveis na página do jogo estão imagens pornográficas explícitas, bem como descrições que apontam para atos de chantagem, dominação, incesto e contacto sexual não consensual. O alerta inicial da própria Steam, ao aceder à página do jogo, não deixa dúvidas quanto à sua natureza: “O conteúdo deste produto pode não ser apropriado para todas as idades ou para ser visto no local de trabalho”.

Pedro Gonçalves
Abril 10, 2025
14:21

Está a gerar forte controvérsia internacional a presença do jogo No Mercy na Steam, a maior plataforma de distribuição digital de videojogos do mundo. O título, cuja premissa é, literalmente, “tornar-te o pior pesadelo das mulheres”, tem sido fortemente criticado por promover comportamentos violentos e sexualmente abusivos contra personagens femininas. Lançado a 22 de março, o jogo permanece disponível em vários países — incluindo Portugal — e pode ser adquirido por 11,79 euros, mediante um simples clique que confirma ser maior de 18 anos.

Entre os conteúdos descritos e visíveis na página do jogo estão imagens pornográficas explícitas, bem como descrições que apontam para atos de chantagem, dominação, incesto e contacto sexual não consensual. O alerta inicial da própria Steam, ao aceder à página do jogo, não deixa dúvidas quanto à sua natureza: “O conteúdo deste produto pode não ser apropriado para todas as idades ou para ser visto no local de trabalho”.



Nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Exploração Sexual (National Center on Sexual Exploitation – NCOSE) foi uma das primeiras entidades a reagir. Em comunicado oficial, a organização condenou “veementemente” o jogo e instou a Steam a removê-lo com urgência, considerando que este “promove a violência sexual gráfica, o incesto, a chantagem e a dominação masculina, encorajando explicitamente os jogadores a envolverem-se em atos não consensuais e comportamentos misóginos”.

A NCOSE afirma que a mera existência deste jogo “envia uma mensagem perturbadora de que a violência sexual é uma forma aceitável de entretenimento”. O apelo é claro: “A Valve Corporation deve tomar medidas imediatas para remover o conteúdo e rever as suas políticas de moderação.”

Outros países seguiram o mesmo caminho. A Austrália e o Canadá já retiraram o acesso ao jogo nas respetivas lojas digitais. No Reino Unido, o secretário de Estado para a Ciência, Inovação e Tecnologia, Peter Kyle, condenou a presença do jogo, sublinhando que este inclui “contacto sexual não consensual, violência sexual, violação e incesto”. Em declarações à rádio LBC, foi direto: “Esperamos que cada uma dessas empresas [de tecnologia] remova o conteúdo o mais rápido possível depois de tomar conhecimento dele. É o que a lei exige, é o que eu exijo como secretário de Estado, e é certamente o que esperamos das plataformas que operam na nossa sociedade e economia.”

Reações da sociedade civil e figuras públicas
Além das condenações institucionais, a polémica também suscitou forte reação entre utilizadores da própria Steam e figuras públicas. No fórum da plataforma, multiplicam-se tópicos de crítica — mais de uma centena, alguns com centenas de comentários — exigindo a remoção imediata do jogo.

Em Portugal, o apresentador e humorista Nuno Markl foi uma das vozes mais contundentes. Nas redes sociais, criticou duramente a Steam por permitir a venda do jogo, referindo-se a ele como “independente, manhoso, grotesco, cujo objetivo é exclusivamente abusar do máximo de personagens femininas”. Acrescentou: “Percebemos uma vez mais o quão desigual é este braço de ferro que temos de fazer com o mundo para que os miúdos não se tornem psicopatas.”

Num tom ainda mais duro, Markl escreveu: “Juro-vos: nunca pensei viver para ver este estado de coisas. Machismo e misoginia sempre houve. Mas agora é trendy, comercializável, nem que acabe em violência e morte. Isto é uma distopia criada por homens de merda para formar novos homens de merda. Rapazes, querem ser Homens a sério? Sejam contra isto. Ser a favor disto é ser mais fraco que um inseto.”

“Isto não pode ser normalizado”, diz Women in Games
A organização internacional Women in Games, que promove a igualdade de género na indústria dos videojogos, também se pronunciou, considerando “inaceitável” que um jogo como No Mercy esteja disponível numa das maiores plataformas do setor. A CEO da organização, Marie-Claire Isaaman, afirmou: “Envia uma mensagem clara e angustiante: a de que a violência contra as mulheres não só é tolerável, como pode ser jogada. Esta mensagem não tem lugar na nossa indústria, nas nossas comunidades ou na nossa sociedade.”

Isaaman apelou diretamente à Valve, empresa proprietária da Steam, para que implemente uma política de “tolerância zero” face à misoginia e ao discurso de ódio: “Este jogo tem de ser removido. Tens de implementar políticas de moderação de conteúdos mais fortes. As mulheres e as raparigas merecem mais desta indústria.”

A dirigente lançou ainda um apelo a todos os que trabalham ou jogam na área: “Convidamos todos os aliados a juntarem-se a nós — para falarem, agirem e apoiarem o futuro de um mundo de jogos seguro e inclusivo.”

Um padrão preocupante
Esta não é a primeira vez que a Steam é alvo de polémica por permitir jogos com conteúdos sexualmente violentos ou misóginos. Em 2019, a plataforma viu-se obrigada a retirar o jogo Rape Day, em que os jogadores podiam assediar, matar e violar mulheres, após uma petição pública ter reunido mais de oito mil assinaturas.

Apesar da remoção desse título e de outros semelhantes, a presença contínua de jogos como No Mercy levanta sérias questões sobre os critérios de curadoria e moderação de conteúdos na Steam. Uma simples pesquisa no Google revela a existência de vários outros jogos que continuam a promover a violência sexual, o incesto ou o abuso como elementos de gameplay.

Com a crescente pressão internacional, resta agora saber se a Valve agirá rapidamente para retirar No Mercy da sua loja — e se adotará novas medidas para evitar que conteúdos semelhantes voltem a estar disponíveis no futuro. Para muitos, a resposta não pode tardar: trata-se de proteger não apenas os valores da indústria, mas também a integridade de milhões de jogadores e jogadoras em todo o mundo.

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