Hoje é o dia que pode definir o futuro da Europa, particularmente o da Ucrânia: às 20h30 desta sexta-feira, Donald Trump e Vladimir Putin vão reunir-se numa cimeira histórica em Anchorage, no estado americano do Alasca, no primeiro encontro entre os dois líderes políticos desde o início da invasão russa da Ucrânia.
Esta sexta-feira, na base militar de Elmendorf-Richardson, os líderes da Casa Branca e do Kremlin vão reunir-se para consolidar as suas posições em relação à guerra na Ucrânia e explorar o futuro das relações económicas entre os dois países.
A reunião começará com um encontro presencial entre os dois líderes e continuará com uma sessão de trabalho com as suas delegações, compostas por ministros e altos funcionários de ambas as superpotências. Segundo o assessor do Kremlin, Yuri Ushakov, a organização tem sido “intensa” e está em fase final, com medidas de segurança extraordinárias e a participação de 32 mil soldados para garantir a tranquilidade da cimeira.
Embora Washington e Moscovo tenham insistido que não há acordos pré-estabelecidos, Ushakov enfatizou que “a questão central” será a resolução do conflito na Ucrânia, sem descartar outras questões de segurança internacional e estratégica. Putin, por sua vez, elogiou os “esforços vigorosos e sinceros” dos EUA para procurar o fim dos combates e deixou a porta aberta para que as negociações também estabeleçam as bases para um novo entendimento sobre o controlo de armas estratégicas, com o tratado START III, previsto para expirar em 2026.
Europa – e Kiev – em suspenso
A reunião vai ocorrer sob o olhar atento de Kiev e das capitais europeias. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já alertou que o seu país não aceitará nenhuma proposta que não tenha sido previamente acordada com o governo ucraniano, posição apoiada por importantes líderes da UE.
Zelensky afirmou, numa viagem a Berlim, que espera que a reunião leve a um cessar-fogo na guerra entre a Rússia e a Ucrânia. “Falámos sobre a reunião no Alasca e esperamos que haja um cessar-fogo”, referiu o líder ucraniano Zelensky, após a videoconferência que teve com o chanceler alemão, Friedrich Merz, e Trump, diálogo que ocorreu depois de os líderes europeus também terem participado numa reunião virtual.
Na cimeira do Alasca, o “tema central” deve ser “um cessar-fogo imediato”, insistiu o líder ucraniano.
O presidente ucraniano agradeceu os esforços europeus na coordenação de posições. “Putin não vai conseguir enganar ninguém, precisamos de pressão para alcançar a paz”, explicou Zelensky, referindo-se à Constituição ucraniana como um documento essencial para compreender a posição ucraniana face à agressão russa. “A minha posição não mudou”, sublinhou, sobre uma eventual concessão territorial de Kiev em troca de um cessar-fogo, hipótese admitida por Donald Trump. “Temos uma Constituição. É o nosso fundamento. E a Constituição não mudou e eu não posso mudar a Constituição. Eu sou o garante da Constituição.”
Donald Trump exibe músculo e deixou ameaça ao Kremlin
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu na passada quarta-feira que haverá “consequências muito severas” caso o presidente russo, Vladimir Putin, não aceite pôr fim à guerra na Ucrânia. Porquê? Não se pode esconder a importância desta cimeira para o futuro geopolítica de Rússia, EUA, Ucrânia, a União Europeia… e até mesmo a China.
Donald Trump deixou no ar a possibilidade de não alcançar qualquer acordo de paz com o seu homólogo russo, Vladimir Putin. “Nos primeiros dois minutos saberei exatamente se é possível chegar a um pacto ou não. Vou ver o que ele tem em mente”, afirmou na passada segunda-feira, acrescentando que, se não vir potencial para entendimento, poderá simplesmente abandonar a sala: “Isso será o fim.”
Estas declarações, feitas numa conferência de imprensa marcada por ambiguidades, aumentaram os receios de líderes europeus, que exigem que a Ucrânia, representada por Volodymyr Zelensky, tenha um papel central nas conversações e que as suas condições para a paz sejam respeitadas. Até ao momento, Trump não confirmou que garantias territoriais ou de segurança para a Ucrânia estarão em discussão. Também não mencionou a trégua ou cessar-fogo que Kiev considera essenciais antes de negociar o fim do conflito. Washington admite, contudo, a possibilidade de um encontro direto entre Putin e Zelensky, apesar de o Kremlin já ter rejeitado essa hipótese.
Questionado sobre o que considera ser “um bom acordo”, Trump respondeu de forma vaga: “Direi depois de ouvir do que se trata, porque pode haver muitas definições.” Mas que cenários estão em cima da mesa?
Cenário 1: avanço mínimo e impasse prolongado
Uma possibilidade é que a reunião termine sem consenso, repetindo o desfecho de anteriores tentativas de negociação. Esse impasse poderia consolidar as posições russas até ao outono ou congelar as linhas da frente, permitindo a Moscovo rearmar-se e preparar uma nova ofensiva no inverno.
Apesar disso, Eliot A. Cohen, ex-assessor do Departamento de Estado dos EUA e analista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), considera que Trump procurará, pelo menos, um esboço de acordo: “O republicano anseia por um pacto porque se vê como um pacificador e acredita que merece, ou merecerá, um Prémio Nobel da Paz. Isso não significa que outros o devam acompanhar.”
Cenário 2: pressão direta sobre Putin
Trump declarou estar disposto a dizer pessoalmente a Putin que “tem de acabar com esta guerra” e que recolherá ideias de várias partes para chegar “preparado” à reunião. Mencionou também a possibilidade de um cessar-fogo rápido, embora sem abordar a recusa do Kremlin em sentar-se à mesa com Zelensky.
Caso Putin mantenha a intransigência, Trump poderá avançar com novas sanções ou outras medidas punitivas. Para Mark Cancian, coronel reformado e investigador sénior do CSIS, “Putin acredita que está a ganhar e que o tempo está do seu lado, e provavelmente tem razão”. Segundo o analista, apenas “uma ação drástica” poderia mudar a sua posição, como um pacote de ajuda militar superior a mil milhões de dólares financiado por aliados europeus.
Cenário 3: reforço militar a Kiev e envolvimento europeu
Se a comunidade internacional aumentar a pressão sobre Moscovo, incluindo apoio militar adicional à Ucrânia, Kiev poderia travar os avanços russos. Um artigo da CNN sugere que o Kremlin “poderia sentir as consequências das sanções e do sobreaquecimento da economia” e eventualmente aceitar negociações.
Entre as ideias em debate está o envio de uma “força de segurança” europeia para a Ucrânia, composta por dezenas de milhares de militares da NATO, para proteger Kiev e outras cidades, apoiar a reconstrução e dissuadir Moscovo de novas ofensivas — cenário que, segundo o analista Nick Paton Walsh, seria “o máximo a que a Ucrânia pode aspirar”.
Cenário 4: cessar-fogo incondicional, improvável mas desejado
O cenário mais favorável para Kiev — um cessar-fogo imediato sem concessões territoriais — é também o mais improvável. Tentativas anteriores, como a trégua de 30 dias sobre infraestruturas energéticas acordada no início do ano, fracassaram.
Na semana passada, meios de comunicação norte-americanos divulgaram um alegado documento que apontava para cedências de Moscovo, mas analistas como Jimmy Rushton, em Kiev, questionam se o Kremlin abandonou realmente as suas exigências maximalistas ou se “está a mentir”.
Cenário 5: concessões territoriais e rutura na NATO
Uma paz obtida à custa da perda de territórios ucranianos é o cenário que os aliados europeus querem evitar, mas que se torna mais provável se o apoio norte-americano vacilar. Paralelamente, Putin explora divisões na NATO sobre o aumento de despesas militares e as ameaças de Trump de reduzir o papel dos EUA na aliança.
Relatórios recentes de defesa indicam que o Kremlin planeia testar a coesão da NATO, possivelmente com ações de desestabilização nos países bálticos, como a cidade estoniana de Narva, de maioria russófona, num horizonte de cinco a sete anos.
Afinal, qual das opções é melhor? Nenhuma é totalmente favorável à Ucrânia
Independentemente do desfecho, os analistas alertam que “nenhuma das opções é boa para a Ucrânia”, como sublinha Nick Paton Walsh: “Só uma representa a derrota real da Rússia como potência militar e ameaça à segurança europeia. E nenhuma pode resultar de uma reunião entre Trump e Putin que exclua Kiev de qualquer acordo.”
A cimeira desta sexta-feira no Alasca poderá, assim, marcar um ponto de viragem ou aprofundar o impasse — deixando a paz ainda mais distante.














